04/01/2014

Capitulo 16 (Faltam 8)

- Quem foi o Presidente dos Estados Unidos durante a Terceira Guerra Mundial? — Silvia perguntou durante a aula.
Eu não sabia essa. Olhei para o teto na esperança de que não me chamasse. Por sorte, Amy ergueu o braço e respondeu:
— O presidente Wallis.
Estávamos mais uma vez no Grande Salão, no começo de uma semana de aulas de história. Bem, na verdade era mais uma prova de história. Tratava-se de uma matéria em que o conhecimento das pessoas variava muito, dependendo de quais eram os fatos ensinados e de como tinham sido transmitidos. Minha mãe sempre nos ensinou história oralmente. Tínhamos livros e apostilas para aprender inglês e matemática, mas poucos eram os acontecimentos de nosso passado que eu tinha certeza de serem verdadeiros.
— Correto. Wallis foi presidente antes do ataque chinês e continuou a liderar os Estados Unidos ao longo da guerra — confirmou Silvia.
Repeti o nome na minha cabeça: Wallis, Wallis, Wallis. Realmente queria me lembrar daquilo para contar a Maddie e a Frankie quando voltasse para casa. Só que estávamos aprendendo tantas coisas que ia ser difícil memorizar tudo.
— Qual foi o motivo que levou a China a invadir o país? Blanda? — continuou Silvia.
Blanda sorriu:
— Dinheiro. Os americanos deviam muito dinheiro aos chineses e não tinham como pagar.
— Excelente, Blanda — elogiou Silvia com um sorriso. Como ela conseguia dominar as pessoas assim? Era tão irritante. — Quando os Estados Unidos não conseguiram saldar sua dívida, os chineses tomaram o país. Para a infelicidade deles, porém, essa ação não lhes rendeu um centavo, já que os Estados Unidos estavam mais do que quebrados. No entanto, ficaram com a mão de obra americana. Como os chineses passaram a chamar os Estados Unidos depois da conquista?
Eu e algumas outras levantamos a mão.
— Jenna? — chamou Silvia.
— Estado Americano da China.
— Sim. O Estado Americano da China tinha a aparência do antigo país, mas parava por aí. Os chineses comandavam tudo dos bastidores. Eles influenciavam os principais acontecimentos políticos e forçavam a aprovação do que fosse favorável a eles.
Silvia caminhava devagar por entre as carteiras. Senti-me como um rato no campo de visão de um bando de gaviões que voava cada vez mais baixo.
Olhei para o resto da classe. Poucas pessoas pareciam confusas. Pelo visto, aquilo tudo era básico.
— Alguém gostaria de acrescentar algo? — perguntou Silvia.
Foi a hora de Bariel se manifestar:
— A invasão chinesa motivou vários países, especialmente na Europa, a se alinhar e fazer alianças.
— Sim — confirmou Silvia. — O Estado Americano da China, porém, não tinha muitos amigos naquele tempo. Os antigos estados demoraram cinco anos para voltar a se unir. Como poderiam fazer alianças? — ela explicou, tentando expressar a dificuldade daquela época com um rosto cansado. — O Estado Americano da China planejava combater a China, mas teve que enfrentar outra invasão. Que país tentou ocupá-lo depois?
Vários braços erguidos. Alguma garota gritou “Rússia” sem ser chamada. Silvia procurou a infratora, mas não conseguiu localizá-la.
— Correto — disse, um pouco desgostosa. — A Rússia tentou expandir seu território nas duas direções e fracassou completamente. Esse fracasso, porém, deu ao Estado Americano da China a oportunidade de se rebelar. Como?
Selena ergueu o braço e explicou:
— Toda a America do Norte uniu-se para combater a Rússia, porque estava claro que eles queriam mais do que o Estado Americano da China. E o combate contra a Rússia foi facilitado pela própria China, que também a atacava pela tentativa de roubar sua propriedade.
Silvia deu um sorriso orgulhoso.
— Sim. E quem comandou o ataque à Rússia?
A classe inteira falou em voz alta:
— Gregory Illéa.
Algumas garotas até bateram palmas. Silvia aprovou a manifestação com a cabeça.
— Graças a ele nosso país nasceu. As alianças firmadas pelo Estado Americano da China formaram uma frente unida, e a reputação dos Estados Unidos estava tão arruinada que ninguém queria reaproveitar o nome. Assim, a nova nação se formou sob a liderança e o nome de Gregory Illéa. Ele salvou o país.
Emmica ergueu o braço e Silvia a deixou falar.
— De certa forma, somos como ele. Quer dizer, também servimos nosso país. Ele foi apenas um cidadão comum que doou seu dinheiro e conhecimento para uma causa. E mudou tudo — defendeu Emmica, cheia de admiração.
— É um jeito muito bonito de ver as coisas — comentou Silvia. — E exatamente como ele, uma de vocês será elevada à realeza. Porque Gregory Illéa se tornou rei quando se casou com um membro da realeza. O que vai acontecer com uma de vocês.
Silvia parou uns instantes em êxtase, de modo que demorou para perceber que Tuesday tinha erguido o braço.
— Humm, por que não escrevem um livro sobre essas coisas? Aí poderíamos estudar... — ela comentou com um pouco de irritação na voz.
Silvia balançou a cabeça.
— Ora, meninas, não é preciso estudar história. Basta saber.
Miley se voltou para mim e cochichou:
— Mas é óbvio que não sabemos.
Ela riu da própria piada e voltou a prestar atenção em Silvia. Pensei como nos contavam várias coisas e tínhamos que adivinhar quais eram verdade. Por que simplesmente não nos davam livros de história?
Lembrei-me de um episódio ocorrido alguns anos antes. Eu tinha entrado no quarto dos meus pais, porque minha mãe dissera que eu podia ler o livro que quisesse para as aulas de inglês. Considerei as opções e peguei um livro grosso e antigo escondido no canto da estante. Era sobre a história dos Estados Unidos. Meu pai entrou uns minutos mais tarde e viu o que eu estava lendo. Disse que não havia problema, desde que eu não contasse para ninguém.
Quando ele me pedia para guardar um segredo, eu o fazia sem pestanejar. Além do mais, eu adorava folhear aquelas páginas. Bom, pelo menos as que ainda estavam legíveis. Muitas tinham sido arrancadas e as bordas dos livros davam a impressão de que alguém tinha tentado queimá-lo. Mas foi ali que vi uma foto da antiga Casa Branca e aprendi sobre os feriados do passado.
Nunca pensei em questionar a ausência de verdades até dar de frente com ela. Por que o rei queria que tivéssemos apenas uma vaga noção dos fatos?

Os flashes pararam depois de mais uma foto de Joseph e Natalie com sorrisos radiantes.
— Natalie, abaixe o queixo só um pouquinho. Isso.
O fotografo tirou mais uma, preenchendo o salão com a luz.
— Acho que é o bastante. Quem é a próxima? — perguntou.
Blanda se aproximou. Um grupo de criadas do palácio permaneceu em volta dela até o fotógrafo aprontar a câmera. Natalie, ainda ao lado de Joseph, disse algo e fez uma pose charmosa. Ele respondeu discretamente e ela saiu de cena com um sorriso.
Tinham nos dito no dia anterior, depois da aula de história, que a foto era apenas para divertir o público, mas eu não deixava de ver um peso real por trás disso. Alguém tinha escrito um editorial de revista sobre o visual de uma princesa. Não li o artigo, mas Emmica e outras leram. Segundo elas, o texto falava que Joseph deveria encontrar alguém de aparência nobre, que saísse bem nas fotos ao seu lado, alguém que ficasse bonita em um selo.
Então lá estávamos nós, enfileiradas, todas com um vestido creme de manguinhas e cintura baixa, e uma echarpe vermelha nos ombros, tirando fotos com Joseph. Todas sairiam na mesma revista, e a equipe de edição ia escolher suas preferidas. Era o que me incomodava desde o começo: a ideia de que Joseph só estava em busca de um rosto bonito. Agora que o conhecia, sabia que não era verdade, mas me irritava que as pessoas o vissem assim.
Dei um suspiro de descontentamento. Algumas garotas circulavam mascando chiclete e conversando, mas a maioria, inclusive eu, permaneceu de pé em volta do estúdio que fora montado no Grande Salão. Um grande tapete dourado — que lembrava os panos que meu pai usava em casa para evitar respingos de tinta no chão — cobria a parede de alto a baixo. Um sofá pequeno estava posicionado em um dos lados, enquanto um pilar ficava no outro. No meio, a insígnia de Illéa, que dava àquela bobeira um ar patriótico. Observávamos cada uma das Selecionadas desfilar por aquele espaço e ser fotografada. Muitas das presentes murmuravam sobre o que aprovavam e desaprovavam no desempenho da concorrente ou sobre o que fariam na sua vez.
Blanda foi em direção a Joseph com uma luz nos olhos, e o príncipe sorriu com sua chegada. Assim que parou ao lado dele, sussurrou algo em seu ouvido. Seja o que for, Joseph se inclinou para trás de tanto rir e balançou a cabeça em aprovação ao segredinho dos dois. Como alguém podia se dar tão bem comigo e com ela ao mesmo tempo?
— Muito bem, senhorita, vire-se para a câmera e sorria, por favor — pediu o fotógrafo, que foi prontamente atendido por Blanda.
Ela voltou o rosto na direção de Joseph e pôs uma das mãos no peito dele, inclinando a cabeça um pouco para a frente e abrindo um sorriso profissional. Blanda parecia saber tirar vantagem da iluminação e do estúdio, e passou o tempo todo empurrando o príncipe um pouco para a frente ou para trás, além de insistir várias vezes para os dois mudarem de pose. Enquanto algumas meninas aproveitavam para fazer aqueles momentos com Joseph durarem o máximo possível — especialmente aquelas que ainda não haviam tido um encontro com ele —, Blanda quis demonstrar o máximo de eficiência.
Em um piscar de olhos ela tinha terminado. O fotógrafo chamou a próxima. Eu estava tão ocupada vendo-a deslizar os dedos pelos braços do príncipe ao sair que uma criada teve que fazer a gentileza de avisar que estavam me chamando.
Fiz um sinal com a cabeça e me levantei, determinada a não perder o foco. Segurei a saia do vestido e andei na direção de Joseph. Seus olhos se desviaram de Blanda para mim e — talvez fosse imaginação minha — ficaram um pouco mais iluminados.
— Olá, minha querida — ele cantarolou.
— Nem comece — avisei, mas o príncipe apenas riu de mim e estendeu o braço.
— Um segundo. Sua echarpe está torta.
— Era de esperar — comentei. Aquilo era tão pesado que eu sentia que caía das minhas costas a cada passo.
— Acho que assim dá para o gasto — ele disse em tom de piada.
— Bem que eles podiam pendurar você com os lustres depois, não? — rebati, caçoando das medalhas de ouro em seu peito.
O uniforme dele, parecido com o usado pelos guardas — embora infinitamente mais elegante — também trazia ombreiras douradas e uma espada na cintura. Era um pouco demais.
— Olhem para a câmera, por favor — pediu o fotógrafo.
Levantei a cabeça e vi não apenas dois olhos, mas os de todas as Selecionadas cravados em mim. Meus nervos saíram do controle.
Sequei as mãos úmidas de suor no vestido e soltei o ar.
— Não fique nervosa — ele sussurrou.
— Não gosto que todos fiquem olhando para mim.
O príncipe me puxou para muito perto de si e passou a mão pela minha cintura. Quis me afastar, mas o braço dele estava bem firme em mim.
— Apenas olhe para mim como se não aguentasse mais a minha cara — ele sugeriu, fazendo uma careta de mau humor. Foi o bastante para me fazer cair na risada.
A câmera disparou naquele exato momento e nos pegou rindo.
— Viu? — disse Joseph. — Não é tão ruim.
— Talvez.
Continuei tensa por alguns minutos. O fotógrafo gritou suas instruções e o príncipe relaxou o braço na minha cintura, depois me virou de modo que minhas costas ficassem contra seu peito.
— Excelente — incentivou o fotógrafo. — Podemos fazer umas no sofá?
Eu me sentia melhor agora que metade já tinha passado. Sentei-me perto de Joseph com a melhor postura que pude produzir. Ele ficava o tempo todo fazendo cócegas em mim ou me cutucando, e meu sorriso foi aumentando até explodir em uma gargalhada. Eu tinha esperança de que o fotógrafo estivesse captando os momentos antes de eu fazer caretas de riso. Do contrário, seria um desastre.
Pelo canto dos olhos, notei uma mão acenando. Joseph percebeu logo em seguida. Um homem de terno estava de pé ali, e queria falar com o príncipe. Joseph fez um sinal para que se aproximasse, mas o homem hesitou, evidentemente consternado com minha presença.
— Ela pode ouvir — Joseph consentiu.
O homem então se aproximou, ajoelhou-se diante dele e disparou:
— Ataque rebelde em Midston, Majestade.
Joseph suspirou preocupado e baixou a cabeça.
— Eles queimaram fazendas e mataram cerca de doze pessoas —
completou o homem.
— Em que parte de Midston?
— A oeste, senhor, perto da fronteira.
Joseph inclinou a cabeça devagar, como se estivesse acrescentando aquela informação a seu inventário mental.
— O que meu pai diz?
— Na verdade, Majestade, ele quer saber sua opinião.
Joseph pareceu surpreso por uma fração de segundo.
— Localize as tropas a sudoeste de Sota e em toda a região de Tammins. Não é necessário ir muito ao sul e chegar a Midston. Seria perda de tempo. Veja se conseguimos interceptá-los — ele ordenou.
— Perfeito, senhor.
O homem se levantou e fez uma reverência. Depois, desapareceu tão rapidamente como tinha aparecido.
Eu sabia que devíamos continuar a sessão de fotos, mas Joseph parecia não estar nem um pouco interessado nela agora.
— Você está bem? — perguntei.
O príncipe concordou com a cabeça, muito sério, e respondeu:
— Fico pensando nas pessoas.
— Talvez devêssemos parar — sugeri.
Ele balançou a cabeça, aprumou-se e sorriu, pondo minha mão sobre a sua.
— Um dos requisitos dessa profissão é a capacidade de parecer calmo quando se está muito longe disso. Por favor, sorria, Demetria.
Endireitei a postura e dei um sorriso tímido para os cliques do fotógrafo. No meio daquelas últimas fotos, Joseph apertou minha mão, e eu fiz o mesmo. Naquele momento, senti que tínhamos uma ligação forte e verdadeira.
— Muito obrigado. A próxima, por favor? — o fotógrafo repetiu. Quando nos levantamos, Joseph segurou novamente minha mão.
— Por favor, não diga nada. É de extrema necessidade que seja discreta.
— Claro.
O barulho dos saltos caminhando em nossa direção me lembrou de que não estávamos sós, embora eu quisesse permanecer ali. Ele deu um último aperto em minha mão e me soltou. Enquanto ia para meu lugar, pensei em muitas coisas. Pensei em como era bom saber que o príncipe confiava em mim a ponto de me permitir saber esse segredo; e em como essa confiança fez com que nos sentíssemos sozinhos por uns instantes. Depois, pensei nos rebeldes e em como o rei conseguia quase sempre ser rápido na contenção das rebeliões. Só que essa informação eu devia guardar para mim. Não fazia muito sentido.
— Janelle, minha querida — Joseph disse assim que viu a próxima garota se aproximar.
Ri internamente com aquele afeto fingido e manjado. Ele baixou a voz, mas ainda assim ouvi o que disse a seguir.
— Antes que eu esqueça, está livre esta tarde?
Algo fez com que meu estômago desse um nó. Parecia uma crise de nervos tardia.
— Ela deve ter feito algo péssimo — insistiu Amy.
— Não foi isso que deu a entender — rebateu Selena.
Tuesday puxou o braço de Selena e disparou:
— O que ela disse mesmo?
Janelle fora mandada para casa.
Era crucial para nós entender a eliminação, porque tinha sido a primeira eliminação isolada que não fora motivada por um descumprimento de regras. Não houve uma debandada em massa baseada na primeira impressão nem um pedido para ir embora por medo. Ela tinha feito algo errado, e queríamos saber o quê.
Selena, cujo quarto ficava em frente ao de Janelle, tinha visto a garota entrar e fora a última pessoa com quem ela conversara antes de ir embora. Ela deu um suspiro e repetiu a história pela terceira vez:
— Ela e Joseph foram caçar, mas vocês sabiam disso — começou, gesticulando como se quisesse clarear o pensamento.
O encontro de Janelle era mesmo de conhecimento comum. Depois da sessão de fotos do dia anterior, ela espalhou a notícia para quem quisesse ouvir.
— Foi seu segundo encontro com Joseph. Ela foi a única a ter dois — comentou Bariel.
— Não, não foi — murmurei.
Algumas cabeças se voltaram para mim e confirmaram minha declaração. Era verdade, apesar de tudo. Janelle fora a única garota a ter dois encontros com Joseph além de mim. Não que eu contasse.
Selena continuou:
— Ela voltou chorando. Perguntei o que tinha e ela respondeu que ia embora, que Joseph tinha mandado que voltasse para casa. Dei um abraço nela. Estava tão transtornada... Depois, perguntei o que tinha acontecido, e ela disse que não podia contar. Não entendo isso. Será que não temos autorização para falar por que fomos eliminadas?
— Isso não estava nas regras, estava? — perguntou Tuesday.
— Ninguém falou nada a respeito — apontou Amy, e muitas outras confirmaram.
— Mas o que ela disse então? — Blanda insistiu.
Selena deu outro suspiro:
— Para eu tomar cuidado com o que falo. Depois, entrou no quarto e bateu a porta.
O salão ficou alguns minutos em um silêncio reflexivo.
— Ela deve ter insultado o príncipe — Elayna sugeriu.
— Bem, se esse for o motivo da saída dela, é uma injustiça. Joseph afirmou que alguém neste salão o insultou na primeira vez em que se viram — reclamou Blanda.
As garotas começaram a olhar em volta na tentativa de identificar a culpada, talvez com o desejo de fazer com que ela — com que eu — fosse embora também. Lancei um olhar nervoso para Miley, e ela entrou em ação.
— Será que ela falou do país? De política ou algo assim?
Bariel estalou a língua.
— Por favor! Imagine a chatice que estava sendo o encontro para eles começarem a falar de política... Por acaso alguém aqui chegou a conversar sobre a administração do país com Joseph?
Ninguém respondeu.
— Claro que não — continuou Bariel. — Joseph está em busca de uma esposa, não de uma assistente.
— Você não acha que está subestimando o príncipe? — argumentou Selena. — Ele deve querer alguém com ideias e opiniões.
Blanda se jogou para trás e riu:
— Joseph pode muito bem administrar o país. Foi treinado para isso. Além disso, tem equipes para ajudá-lo a tomar decisões. Por que ia querer alguém para lhe dizer o que fazer? Se eu fosse você, começaria a aprender como manter a boca fechada. Pelo menos até que ele se case com você.
Bariel se pôs ao lado de Blanda e completou:
— O que não vai acontecer.
— Exatamente — assentiu Blanda com um sorriso. — Por que ele ia se importar com uma Três metida a inteligente se pode ter uma Dois?
— Ei! — gritou Tuesday. — Joseph não se importa com números.
— Claro que se importa — replicou Blanda, como se estivesse falando com uma criança. — Por que você acha que todas abaixo da quarta casta já foram embora?
— Presente — eu disse, erguendo o braço. — Se acha que entende o príncipe, está errada.
— Ah, a menina que não sabe calar a boca — reclamou Blanda, fingindo-se impressionada.
Cerrei o punho, pensando se valeria a pena bater nela. Seria parte de seu plano? Mas antes que eu pudesse me mover, Silvia irrompeu porta adentro.
— Correio, senhoritas! — ela avisou, e a tensão no salão se desfez.
Todas paramos, ansiosas para pôr as mãos nas novidades que Silvia trazia. Fazia quase duas semanas que estávamos no palácio, e tirando a vez em que recebemos notícias de nossas famílias, no segundo dia, era nosso primeiro contato real com elas.
— Vejamos — disse Silvia, revirando as pilhas de cartas sem ter a menor ideia da briga que estava se armando segundos antes da sua entrada. — Senhorita Tiny? — ela chamou, procurando a destinatária com os olhos.
Tiny levantou a mão e foi para a frente do salão. Silvia continuou.
— Senhorita Elizabeth? Senhorita Demetria?
Praticamente corri até ela e tomei a carta de sua mão. Eu estava faminta por palavras da minha família. Com a carta em meu poder, fui para o canto saborear aquele momento.
Querida Demetria,
Não vejo a hora de sexta-feira chegar. Não acredito que vai falar com Gavril Fadaye! Você é muito sortuda.
Com certeza eu não me sentia sortuda. Gavril ia tratar de fritar todas nós no dia seguinte. Não fazia ideia do que ele ia perguntar, mas tinha certeza de que eu ia fazer papel de idiota.
Vai ser bom ouvir sua voz de novo. Sinto saudades de ouvir sua cantoria pela casa. Mamãe não faz isso, e a casa está muito quieta desde que você partiu. Será que podia dar um tchauzinho para mim durante o programa? Como vai a competição? Você tem muitas amigas aí? Chegou a conversar com alguma das garotas mandadas embora? Mamãe está dizendo que se você sair agora não será problema. Metade das meninas que voltaram para casa já está noiva de filhos de prefeitos e celebridades. Ela diz que alguém vai querer você se Joseph não quiser. Frankie torce para que se case com um jogador de basquete em vez de um príncipe chato. Mas eu não me importo com o que dizem. Joseph é fantástico! Vocês já se beijaram?
Beijar? Acabamos de nos conhecer. Aliás, nem haveria motivos para Joseph me beijar.
Aposto que ele tem o melhor beijo do universo. Acho que é uma obrigação dos príncipes!
Tenho tanta coisa para contar, mas a mamãe quer que eu vá pintar. Escreva logo. Uma carta longa!
Com muitos e muitos detalhes!
Te amo! Todos amamos.
Maddie
Então as eliminadas já estavam sendo atacadas pelos ricos. Eu não sabia que ser a sobra de um príncipe fazia de alguém um bom investimento. Circulei pelo quarto, ruminando as palavras de Maddie.
Queria saber o que estava acontecendo. Imaginava o que teria ocorrido de verdade com Janelle. Além de estar curiosa para saber se Joseph tinha mais um encontro naquela noite. Queria muito vê-lo.
Minha mente começou a girar em busca de uma maneira de falar com ele. Foi quando deparei com o papel em minhas mãos.
A segunda página da carta de Maddie estava quase toda em branco. Rasguei um pedaço dela enquanto perambulava pela sala. Algumas garotas ainda estavam enterradas nas cartas da família, ao passo que outras compartilhavam as notícias recebidas. Depois de dar uma volta, parei ao lado do livro de visitas do Salão das Mulheres e peguei uma caneta.
Escrevi rapidamente no pedaço de papel.
Vossa Majestade,
Mão na orelha. Quando puder.
Saí do salão como se fosse apenas ao banheiro e olhei os dois lados do corredor. Vazio. Fiquei ali, à espera, até que uma criada surgiu com uma bandeja nas mãos.
— Com licença — chamei discretamente, mas minha voz ecoava pelo corredor.
A moça fez uma reverência.
— Sim, senhorita?
— Por acaso essa bandeja é para o príncipe?
Ela sorriu:
— Sim, senhorita.
— Poderia entregar isto a ele? — pedi, passando-lhe meu bilhete dobrado.
— Claro, senhorita!
Ela tomou o bilhete nas mãos sôfregas e continuou seu caminho com energia redobrada. Não tinha dúvidas de que o leria assim que eu não pudesse vê-la, mas minha frase misteriosa me deixava tranquila.
Os corredores eram fascinantes. Cada um deles era mais decorado que minha casa inteira. O papel de parede, os espelhos dourados, os vasos gigantes com flores frescas e lindas. Os carpetes eram luxuosos e imaculados, as janelas brilhavam e as pinturas nas paredes eram adoráveis.
Algumas pinturas eram de artistas que eu conhecia — Van Gogh, Picasso —, mas havia outras que não. Havia também fotos de prédios que eu já vira antes. Uma delas retratava a lendária Casa Branca. Pelas fotos que vi e pelo que li no meu velho livro de história, o palácio a superava em tamanho e luxo. Mesmo assim, gostaria que ela ainda existisse para poder vê-la.
Avancei um pouco mais no corredor e dei com um retrato da família real. Parecia antigo. Joseph era menor que a mãe. Agora, ela parecia uma anã ao lado dele.
Desde que havia chegado ao palácio, só os vi juntos nos jantares e na transmissão do Jornal Oficial de Illéa. Será que eram assim tão reservados? Por acaso não gostavam de ter todas essas jovens estranhas em casa? Ficavam ali apenas pelo dever? Eu não sabia como lidar com essa família invisível.
— Demetria?
Virei-me ao som de meu nome. Joseph descia com pressa as escadas em minha direção.
Era como se eu o visse pela primeira vez.
Ele estava sem o paletó e com as mangas da camisa arregaçadas. A gravata azul estava folgada em volta do pescoço, e o cabelo — quase sempre puxado para trás — agitava-se um pouco quando ele se movia. Um contraste gritante com a pessoa de uniforme que eu havia visto no dia anterior; Joseph parecia mais jovial, mais real.
Gelei. Ele se aproximou e agarrou meus pulsos.
— Você está bem? O que houve de errado? — quis saber.
Errado?
— Nada, estou bem — respondi.
O príncipe soltou um suspiro de alívio que eu não tinha notado que estava segurando.
— Ainda bem. Quando recebi seu bilhete, pensei que estivesse doente ou que algo tinha acontecido com sua família.
— Não, não. Joseph, sinto muito. Sabia que era uma ideia idiota. É que não tinha certeza de que você estaria no jantar e quis te ver antes.
— Bem, e para quê? — perguntou Joseph, ainda me examinando com a testa franzida, como que para se certificar de que eu estava mesmo bem.
— Só para ver você.
Ele ficou parado e me olhou nos olhos, admirado.
— Você só queria me ver?
O príncipe pareceu ter ficado alegremente surpreendido com minha resposta.
— Não fique tão chocado. Amigos geralmente passam tempo juntos — respondi, e o tom da minha voz tentava expressar a obviedade daquilo.
— Ah, você está chateada comigo porque estou cheio de compromissos esta semana, não está? Não era minha intenção deixar nossa amizade de lado, Demetria.
Ele tinha voltado a ser o Joseph formal de sempre.
— Não, não estou brava. Só estava me explicando. Mas você parece ocupado. Volte ao trabalho. A gente se vê quando você estiver livre.
Notei que ele ainda segurava meus pulsos.
— Na verdade, você se incomodaria se eu ficasse alguns minutos? Eles estão fazendo uma reunião de orçamento lá em cima, e odeio esse tipo de coisa.
Sem esperar minha resposta, Joseph me arrastou para um sofá estreito e flanelado no meio do corredor, embaixo de uma janela. Deixei escapar uma risadinha quando sentamos.
— O que é tão engraçado? — ele perguntou.
— Você — eu disse, com um sorriso no rosto. — É engraçado saber que fica incomodado com o trabalho. O que há de tão ruim nessas reuniões?
— Ah, Demetria! — ele lamentou, voltando o rosto para mim. — Eles só andam em círculos. Meu pai até consegue acalmar os conselheiros, mas é difícil demais fazer os comitês seguirem qualquer instrução. Minha mãe sempre fica no pé do meu pai para que ele dê mais dinheiro para educação. Ela acha que quanto mais educação todos tiverem, menores as chances de surgirem criminosos, e eu concordo com ela. Mas meu pai nunca é forte o bastante para fazer o conselho retirar verbas de áreas que poderiam passar muito bem com menos recursos. Fico furioso! E como se eu estivesse no comando, então minha opinião é facilmente desprezada.
Joseph pôs os cotovelos nos joelhos e apoiou a cabeça nas mãos. Ele parecia cansado.
Eu estava vendo um pouco do mundo dele, que ficava além de toda a imaginação. Como alguém podia rejeitar a opinião de seu futuro soberano?
— Sinto muito. Mas veja o lado positivo: você terá mais voz no futuro — consolei o príncipe, passando a mão em suas costas para encorajá-lo.
— Eu sei. Digo isso a mim mesmo. Mas é tão frustrante, porque poderíamos mudar as coisas agora se eles ao menos ouvissem. — Era difícil escutar uma voz que ia em direção ao carpete.
— Bem, não fique tão desmotivado. Sua mãe está no caminho certo, mas educação não vai resolver nada por si só.
Joseph levantou a cabeça.
— O que você quer dizer?
Seu tom era quase de acusação. O que era justo. Ali estava a ideia que ele vinha defendendo, e eu a destruí. Tentei contemporizar:
— Bem, comparada à educação com os tutores fantásticos que pessoas como você têm, a educação dos Seis e Sete é uma lástima. Acho que melhores professores e instalações fariam um bem imenso. Mas e o que dizer dos Oito? Não é essa a casta de que faz parte a maioria dos criminosos? Eles não recebem nenhuma educação. Se tivessem um pouco, um pouquinho que fosse, talvez ficassem mais motivados.
Fiz uma pausa e retomei o raciocínio. Não sabia se minhas próximas palavras poderiam ser compreendidas por um garoto que sempre teve tudo à mão.
— Além disso... Você já sentiu fome, Joseph? Não apenas aquela fome antes do jantar, mas fome de verdade? Se aqui não tivesse absolutamente nenhuma comida, nada para seu pai e para sua mãe, e você soubesse que podia pegar um pouco das pessoas que comem mais em um dia do que você vai comer a vida inteira... O que faria se sua família estivesse contando com você? O que faria por alguém que ama?
Ele permaneceu em silêncio por uns instantes. Antes, quando conversamos sobre minhas criadas durante o ataque, percebemos o abismo que nos separava. O tema agora era muito mais controverso, e dava para notar que ele queria evitar a discussão.
— Demetria, não estou negando que a vida de algumas pessoas seja dura, mas roubar é...
— Feche os olhos, Joseph.
— O quê?
— Feche os olhos.
Ele fez uma cara feia, mas obedeceu. Antes de começar, esperei até seus olhos estarem completamente fechados e seu rosto parecer mais leve.
— Em algum lugar deste palácio está a mulher que será sua esposa.
Notei que sua boca tremeu, esboçando um sorriso de esperança.
— Talvez você ainda não saiba quem ela é, mas pense nas garotas no salão. Imagine aquela que mais ama. Imagine sua “querida”.
A mão dele estava ao lado da minha, e seus dedos resvalaram nos meus por um momento. Puxei a mão.
— Desculpe — ele murmurou, abrindo os olhos na minha direção.
— Fechados!
Ele deu uma risadinha e voltou à posição de antes.
— Imagine que essa garota depende de você. Ela precisa que a ame, e vocês vivem como se a Seleção nunca tivesse acontecido. Como se você tivesse caído de paraquedas no meio do país para bater de porta em porta em busca de alguém, e mesmo assim a encontrasse. Ela seria sua escolhida.
O sorriso esperançoso voltou a surgir. E depois se alargou.
— Ela precisa que você cuide dela, que a proteja. E se chegasse o dia em que não houvesse absolutamente nada para comer, a noite em que você não pudesse nem dormir porque o ronco do estômago dela não permitisse...
— Pare!
Joseph levantou-se de uma só vez. Deu alguns passos pelo corredor e estacou, com o rosto virado na direção oposta de onde eu estava. Fiquei chateada comigo mesma. Não sabia que ele ficaria tão perturbado.
— Desculpe — eu disse em voz baixa.
Ele acenou com a cabeça, mas continuou olhando para a parede. Depois, voltou-se na minha direção. Seus olhos, tristes e cheios de dúvidas, buscavam os meus.
— É mesmo assim? — ele perguntou.
— O quê?
— Lá fora... Isso acontece? As pessoas sentem fome muitas vezes?
— Joseph, eu...
— Conte a verdade.
Os traços de seu rosto estavam firmes.
— Sim, acontece. Sei de famílias em que pessoas abrem mão de seu prato de comida para dar aos filhos ou irmãos menores. Sei de um menino que foi chicoteado na praça da cidade por roubar comida. Às vezes, as pessoas cometem loucuras quando estão desesperadas.
— Um menino? De quantos anos?
— Nove — disse sentindo calafrios. Ainda podia me lembrar das cicatrizes nas costas pequenas de Jeremy. Joseph esticou as costas, como se sentisse ele próprio as chibatadas.
— E você — ele limpou a garganta — já passou por isso? Fome?
Baixei a cabeça, o que já era uma pista. Não queria falar com o príncipe sobre isso.
— Como? — Joseph continuou a perguntar.
— Isso só vai deixá-lo mais irritado.
— Provavelmente — ele disse com um ar sério. — Mas agora estou percebendo o quanto desconheço meu próprio país. Por favor, continue.
Suspirei.
— Sofremos muito. Na maior parte das vezes, chegamos ao ponto de ter que escolher se compramos comida e ficamos sem eletricidade. O pior momento foi perto do Natal. Fazia muito frio, então usávamos montes de roupas, mas mesmo assim conseguíamos ver nossa própria respiração dentro de casa. Maddie não entendia por que não podíamos trocar presentes naquele ano. Em geral, nunca há sobras em casa. Alguém sempre quer mais.
O rosto de Joseph ficou pálido, e então me dei conta de que não queria vê-lo irritado. Eu precisava mudar o rumo da conversa, deixá-la mais positiva.
— Sei que os cheques que recebemos nas últimas semanas ajudaram muito. Minha família sabe lidar muito bem com dinheiro. Devem ter guardado tudo para que dure bastante. Você tem feito muito por nós, Joseph.
Tentei sorrir para ele, mas sua expressão permaneceu a mesma.
— Minha nossa. Quando disse que só estava aqui pela comida, você não estava brincando, estava? — ele perguntou, balançando a cabeça.
— É sério, Joseph, está tudo bem. Eu...
Não consegui terminar a frase. Ele se inclinou para mim e beijou minha testa.
— Vejo você no jantar.
E saiu, ajeitando a gravata.

03/01/2014

Capitulo 15 (Falta 09)

Ao acordar na manhã seguinte, senti minhas pálpebras pesadas. Esfreguei os olhos para me livrar daquele resto de mágoa, feliz por ter contado tudo a Joseph. Parecia estranho que o palácio — aquela bela jaula — fosse o único lugar onde eu podia me abrir de verdade sobre meus sentimentos.
A promessa feita pelo príncipe na noite anterior me dava a certeza de que eu ficaria segura ali. Todo esse processo de filtrar trinta e cinco garotas para escolher uma consumiria semanas, talvez meses. Tempo e espaço eram tudo que ele precisava. Eu não tinha muita certeza de que conseguiria esquecer Nicholas. Ouvi minha mãe dizer que o primeiro amor permanece para sempre. Mas talvez com o tempo eu voltasse a me sentir normal mais cedo ou mais tarde.
Minhas criadas não perguntaram nada sobre meus olhos inchados; apenas cuidaram para que voltassem ao normal. Não falaram do meu cabelo bagunçado; apenas o ajeitaram. Apreciei esse gesto. Não era como em casa, onde todos viam minha tristeza e não faziam nada a respeito. Ali pude sentir que todos estavam preocupados comigo e acreditavam que, independentemente do que fosse, eu superaria. Sua reação era me tratar com um carinho extremo.
Por volta das nove eu estava pronta para começar o dia. Aos sábados não havia rotina nem programação. Era a única vez na semana em que tínhamos que permanecer o dia inteiro no Salão das Mulheres. O palácio recebia visitas aos sábados, e já estávamos avisadas de que alguma delas poderia querer nos conhecer. Isso não me entusiasmava muito, mas ao menos eu ia usar a calça jeans nova pela primeira vez. Obviamente, nunca uma calça me caiu tão bem na vida. Como minha relação com Maxon era boa, tinha esperança de que ele me deixasse levá-la quando fosse embora.
Desci as escadas devagar, um pouco cansada por ter ido dormir tarde. Antes mesmo de chegar ao Salão das Mulheres, já podia ouvir o burburinho das vozes das garotas. Quando entrei, Miley me agarrou pelo braço e me arrastou até duas cadeiras no fundo do salão.
— Finalmente! Estava à sua espera — ela exclamou.
— Desculpe, Miley. Tive uma noite longa e dormi demais.
Ela se virou para mim, provavelmente percebendo a nota de tristeza na minha voz, mas com muita doçura comentou a calça nova:
— É fantástica!
— Eu sei. Nunca tinha usado nada assim.
Minha voz se elevou um pouco. Decidi retomar minha velha regra: nada de Nicholas. Expulsei-o da cabeça e me concentrei na segunda pessoa de quem mais gostava no palácio.
— Desculpe ter feito você esperar. O que queria dizer?
Miley hesitou. Mordeu os lábios e sentou-se. Não havia ninguém por perto. Ela estava querendo contar um segredo.
— Na verdade, pensando agora, talvez eu não devesse falar nada para você. Às vezes esqueço que estamos competindo.
Hum... O segredo envolvia Joseph. Eu tinha que saber.
— Sei como é, Miley. Mas acho que podíamos ser amigas de verdade. Não consigo ver você como uma inimiga, sabe?
— É. Você é tão doce. E as pessoas te adoram. Quer dizer, você provavelmente vai ganhar... — ela disse, um pouco derrotista.
Tive que me segurar para não rir.
— Miley, posso contar um segredo? — perguntei, com a voz cheia de carinho e sinceridade. Esperava que ela acreditasse em minhas palavras.
— Claro, Demetria. Qualquer coisa.
— Não sei quem vai ganhar isso aqui. Mesmo. Pode ser qualquer uma nesta sala. Acho que todas pensam em si mesmas, mas eu sei que, se não for a escolhida, quero que seja você. Você parece generosa e justa. Acho que daria uma ótima princesa. De verdade.
Era quase a verdade.
— E você parece inteligente e elegante — ela comentou em um tom baixo. — Seria uma ótima princesa também.
Abaixei a cabeça, agradecida. Era gentil da parte dela pensar isso de mim. Ficava um pouco desconcertada quando falavam assim, mas... Minha mãe, Maddie, Mary... era difícil acreditar na quantidade de gente que pensava que eu daria uma boa princesa. Por acaso eu era a única pessoa a ver meus defeitos? Não era refinada. Não sabia ser mandona nem superorganizada. Na verdade eu era egoísta e geniosa, e não gostava de aparecer na frente dos outros. Não era corajosa, e esse emprego exigia coragem. Sim, emprego: não se tratava só de um casamento, mas de um cargo.
— Penso isso de um monte de meninas — confessou Miley. — Tipo, cada uma delas tem uma qualidade que não tenho, então sinto que são melhores que eu.
— Aí é que está, Miley. Você provavelmente vai encontrar uma coisa especial em cada menina neste salão. Mas quem sabe exatamente o que Joseph procura?
Ela concordou com a cabeça.
— Por isso — continuei —, não vamos nos preocupar. Pode me contar o que quiser. Guardo seus segredos se guardar os meus. Vou me apoiar em você, e, se quiser, pode se apoiar em mim. É bom ter amigas aqui.
Ela sorriu e olhou ao redor para garantir que ninguém estava ouvindo.
— Joseph e eu tivemos aquele encontro.
— É? — perguntei.
Dei a impressão de estar curiosa demais, só que não pude evitar. Queria saber se o príncipe tinha sido menos travado com ela. Queria saber se ele tinha gostado dela.
— Ele enviou uma carta para minhas criadas perguntando se eu poderia vê-lo na quinta.
Sorri quando ouvi Miley contar isso, lembrando como na quarta-feira ele e eu tínhamos decidido eliminar essas formalidades. Ela continuou:
— Respondi que sim, claro, como se eu fosse capaz de negar! Ele foi me buscar e demos uma volta pelo palácio. Ficamos falando de cinema, e ele gosta de vários filmes que eu também gosto. Então descemos as escadas para o porão. Você chegou a ver o cinema que tem lá?
— Não. De fato, eu nunca estivera em um cinema. Não via a hora de ela começar a descrevê-lo.
— Ah, é perfeito! Os assentos são grandes e reclináveis e tem até uma pipoqueira lá. Joseph estourou uma porção só para nós dois! Foi tão fofo, Demetria. Na primeira vez, ele errou na medida de óleo e queimou a pipoca. Teve que chamar alguém para limpar antes de tentar de novo.
Fiz uma cara de decepção. Bonito, Joseph, muito bonito. Pelo menos Miley tinha achado romântico.
— Então a gente viu um filme e na parte romântica, no fim, ele segurou minha mão! Pensei que fosse desmaiar. Quer dizer, eu tinha segurado o braço dele enquanto caminhávamos, mas isso é normal. Naquela hora ele segurou minha mão... — concluiu Mailey antes de suspirar e soltar o corpo na cadeira. Comecei a rir alto. Ela estava completamente caída por ele. Sim, sim, sim!
— Não vejo a hora de sairmos de novo. Ele é tão lindo, não acha?
— É, ele é bonitinho — respondi, depois de uma pausa.
— Ah, Demetria! Você deve ter reparado naqueles olhos e naquela voz...
— Menos quando ele ri! — repliquei, lembrando que a risada de Joseph era meio esquisita. Fofa, mas esquisita. Ele dava uns soluços fortes e depois puxava o ar fazendo um barulho que parecia outra risada.
— Está bem, a risada dele é esquisita, mas é bonitinha.
— Claro, se você gosta de ouvir o adorável som de uma crise de asma cada vez que conta uma piada.
Miley se rendeu e levou as mãos à barriga de tanto rir.
— Está bem, está bem — ela disse, recuperando o fôlego. — Mas deve ter algo nele que você ache atraente.
Abri minha boca para dizer algo, mas fechei. Fiz isso umas três vezes. Minha vontade era dar outra cutucada, mas não queria que Miley o visse de um jeito negativo. Pensei no que dizer.
O que era atraente em Joseph?
— Bem, gosto quando ele abre a guarda. Como quando fala sem escolher muito as palavras, ou quando você nota que ele está olhando alguma coisa e... e vendo mesmo a beleza daquilo.
Miley sorriu. Eu sabia que ela ainda não tinha visto esse lado dele.
— E gosto de como parece ficar mesmo envolvido quando estamos com ele, sabe? Como se apesar de ter um país para administrar e milhares de coisas para fazer, ele esquecesse tudo quando está do seu lado. Ele se empenha naquilo que está diante dele. Gosto disso. E — continuei — não conte a ninguém, mas... os braços dele. Gosto dos braços dele.
Corei no final. Que burrice... Por que não me limitei a comentários genéricos sobre as coisas boas na personalidade dele? Por sorte, Miley não teve problemas em continuar o assunto.
— Sim! Dá para sentir os braços debaixo daquele paletó grosso, não é? Ele deve ser superforte — ela emendou.
— Por que será? Quer dizer, para que ser tão forte? Ele trabalha sentado. É estranho.
— Talvez ele goste de fazer poses em frente ao espelho — gracejou Miley, fazendo careta e flexionando os bracinhos fracos.
— Há, há, há! Aposto que é isso. Mas duvido que você tenha coragem de perguntar!
— Sem chance!
Pareceu que a noite tinha sido maravilhosa para ela. Por que Joseph evitara falar desse encontro? Se fosse levar em conta a reação dele, diria que o encontro nem tinha acontecido. Timidez?
Olhei ao redor do salão e vi que mais da metade das garotas parecia tensa ou infeliz. Janelle, Emmica e Zoe escutavam algo que Selena contava.
Ela parecia sorridente e animada, mas o rosto de Janelle estava franzido de preocupação, ao passo que Zoe roía as unhas. Emmica estava com a cabeça longe, apalpando a região abaixo da orelha, como se estivesse dolorida. Fazendo jus à fama, Celeste falava algo cheia de empáfia. Miley percebeu meu olhar e explicou o que acontecia.
— As garotas de cara amarrada são as que ainda não tiveram um encontro com o príncipe. Na quinta, ele me disse que eu era a segunda só naquele dia. Ele está mesmo querendo conhecer todas.
— Você acha que é isso?
— É. Quer dizer, olhe só a gente. Estamos bem porque já ficamos a sós com ele. Ambas sabemos que ele gostou de nós o suficiente para não nos enxotar logo em seguida. Há uma divisão entre aquelas que tiveram seu momento com o príncipe e as outras, que estão preocupadas. Acham que ele não está interessado nelas e que só vai vê-las quando for mandá-las embora.
Por que ele não tinha dito nada disso? Não éramos amigos? Um amigo contaria esse tipo de coisa. Ele já tinha marcado encontro com uma dúzia de garotas com base apenas no sorriso de cada uma. Tínhamos ficado a maior parte da noite anterior juntos, e ele só me tinha feito chorar. Que tipo de amigo guarda os próprios segredos enquanto faz o outro botar os dele para fora? Tuesday, que até então estava ouvindo Camille com uma expressão de ansiedade no rosto, levantou-se da cadeira e olhou ao redor. Descobriu Miley e eu no canto e logo veio em nossa direção.
— O que vocês fizeram no encontro? — perguntou de supetão.
— Oi, Tuesday — Miley cumprimentou de um jeito alegre.
— Shhhh! — gritou Tuesday. Depois se virou para mim e prosseguiu: — Então, Demetria. Fale.
— Já contei.
— Não. No encontro da noite passada!
Uma criada veio nos oferecer chá e eu estava pronta para aceitar, mas Tuesday mandou-a embora.
— Como...?
— Tiny viu vocês dois juntos e contou — disse Miley, em uma tentativa de explicar o mau humor de Tuesday. — Você é a única que esteve a sós com ele duas vezes. Muitas garotas ainda não o viram e estão reclamando. Acham uma injustiça. Mas não é culpa sua ele gostar de você.
— Mas é completamente injusto — explodiu Tuesday. — Eu ainda não o vi fora das refeições, nem de passagem. O que vocês dois fizeram?
— Nós... hã... fomos ao jardim. Ele sabe que gosto de sair. Só conversamos.
Fiquei nervosa como se estivesse em uma enrascada. O rosto de Tuesday era tão ameaçador que desviei o olhar. E vi que uma porção de garotas nas mesas mais próximas escutava nosso diálogo.
— Só conversaram? — ela perguntou, cética.
— Isso mesmo — respondi, dando de ombros.
Tuesday saiu bufando. Foi até a mesa de Selena e, de um jeito bem ríspido, mandou-a repetir sua história. Eu, porém, estava atônita.
— Você está bem, America? — Miley perguntou, trazendo-me de volta à realidade.
— Sim, por quê?
— Você parece irritada — ela comentou, com o rosto cheio de preocupação.
— Não é nada. Não estou irritada. Está tudo ótimo.
De repente, em um movimento tão rápido que eu não teria conseguido ver se não estivesse perto, Anna Farmer — uma Quatro que trabalhava na roça — inclinou-se para a frente e desferiu um tapa na cara de Blanda.
Quase todo mundo, incluindo eu, soltou uma exclamação de espanto. Quem não viu logo se virou para a mesa das duas perguntando o que tinha perdido. Tiny foi uma dessas, e sua voz aguda ecoou pelo silêncio que tinha se formado no salão.
— Ah, não, Anna, não... — lamentou Emmica com um suspiro.
Um instante depois, Anna começou lentamente a compreender o que tinha feito. Ela seria mandada para casa. Não podíamos agredir fisicamente outra Selecionada. Emmica chorava quando Anna se sentou, perdida em um silêncio perplexo. Tanto uma como a outra eram originárias de fazendas e tinham ficado amigas em pouco tempo. Eu não podia imaginar como me sentiria se Miley saísse de repente.
Só conhecia Anna de vista. Ela sempre pareceu ser uma criatura explosiva. Mas eu sabia que não era da natureza dela agredir alguém. Tinha passado boa parte do ataque rebelde de joelhos, orando.
Não havia dúvida de que ela havia sido provocada, mas ninguém estava sentado perto o suficiente para provar. Seria a palavra de Anna contra a de Blanda. Só que Blanda tinha um salão inteiro de testemunhas do tapa que levou. Talvez insistissem com Joseph para mandar Anna embora como um exemplo.
Os olhos de Anna começaram a se encher de lágrimas. Blanda se levantou, sussurrou algo em seu ouvido e saiu do salão a passos rápidos. Anna foi despachada antes da hora do jantar.

02/01/2014

Capitulo 14 (Faltam 10)

O jantar foi uma decepção. Na semana seguinte teria que pedir às criadas que deixassem uma folga no vestido para eu poder comer.
No quarto, Anne, Mary e Lucy esperavam para me ajudar a tirar o vestido, mas expliquei que precisava usá-lo por mais um tempinho. Anne foi a primeira a adivinhar que Joseph iria me ver, porque eu sempre ficava ansiosa para tirar aquelas roupas apertadas.
— A senhorita gostaria que ficássemos até mais tarde? Não será problema — disse Mary, um pouco esperançosa demais.
Depois da calamidade que fora a visita de Joseph uns dias antes, resolvi que o melhor a fazer era dispensá-las mais cedo. Além disso, não suportaria que elas me vigiassem até ele aparecer.
— Não, não. Estou bem. Se eu tiver algum problema com o vestido mais tarde, toco a campainha.
As três saíram pela porta um pouco relutantes e me deixaram esperando Joseph sozinha. Não sabia quanto tempo ele demoraria e não queria começar um livro e ter que parar ou sentar em frente ao piano só para depois ter que me levantar. Acabei me deitando na cama e, enquanto ele não aparecia, deixei minha mente viajar. Pensei em Miley e em sua gentileza. Então me dei conta de que, fora alguns detalhes bem pequenos, eu sabia pouco sobre ela. Depois pensei nas garotas falsas. Fiquei imaginando se Joseph saberia diferenciá-las.
A experiência do príncipe com mulheres parecia ser muito grande e, ao mesmo tempo, muito pequena. Ele era um cavalheiro, mas quando chegava perto de uma mulher não sabia o que fazer. Era como se soubesse tratar uma dama, mas não uma namorada. Bem diferente de Nicholas.
Nicholas.
Seu nome, seu rosto, suas lembranças. Tudo me veio à mente tão rápido que mal consegui processar. Nicholas. O que ele estaria fazendo? Logo seria dado o toque de recolher em Carolina. E ele ainda estaria fora, se tivesse arrumado um trabalho naquele dia. Talvez ele estivesse passeando com Olivia ou com a pessoa com quem ele passava o tempo desde o fim do nosso namoro. Parte de mim doía ao saber disso... parte de mim só queria se perder nesses pensamentos.
Olhei para o jarro. Tomei-o nas mãos e senti a moedinha se mover lá dentro, solitária.
— Como eu — suspirei.
Seria burrice guardar isso? Já tinha devolvido tudo, por que guardar uma moedinha? Seria tudo o que me restava? Uma moedinha dentro de um jarro para um dia mostrar à minha filha, quando fosse contar sobre meu primeiro namorado, aquele de que ninguém sabia.
Não tive tempo de ficar cultivando amarguras. As firmes batidas de Joseph soaram minutos mais tarde. Quando dei por mim, já estava correndo em direção à porta.
Abri-a de uma vez, e o príncipe pareceu surpreso ao me ver.
— Mas onde estão suas criadas? — perguntou olhando para o interior do quarto.
— Foram embora. Eu as dispenso sempre que volto do jantar.
— Todos os dias?
— Sim, claro. Posso muito bem tirar a roupa sozinha, obrigada.
Joseph levantou as sobrancelhas e sorriu, então eu corei. Não eram aquelas as palavras que eu queria usar.
— Pegue um casaco. Está frio lá fora.
Avançamos pelo corredor. Eu ainda estava um pouco distraída com meus pensamentos, e sabia que Joseph não era muito bom em puxar conversa. Porém, enlacei meu braço no dele quase que imediatamente. Gostava do fato de já termos certa intimidade.
— Se continuar dispensando suas criadas, terei que pôr um guarda na sua porta — ameaçou.
— Não! Não quero saber de babás.
Ele riu.
— Ele ficaria do lado de fora. Você nem saberia de sua presença.
— Saberia sim — reclamei. — Eu ia sentir.
Joseph fingiu dar um suspiro de exaustão. Eu estava tão envolvida na discussão que não escutei os cochichos até que três garotas estivessem praticamente na nossa frente. Blanda, Emmica e Tiny passavam por nós em direção a seus quartos.
— Senhoritas — cumprimentou Joseph inclinando levemente a cabeça.
Seria tolice imaginar que ninguém nos veria juntos. Meu rosto ficou vermelho no ato, eu não sabia bem por quê.
As meninas fizeram uma reverência e seguiram seu caminho. Virei a cabeça para observá-las subir as escadas. Emmica e Tiny pareciam curiosas. Em questão de minutos, contariam às outras sobre o episódio. No dia seguinte eu seria alvo de milhares de perguntas, sem dúvida. Já os olhos de Blanda se cravaram em mim como duas adagas. Eu tinha certeza de que ela levara aquilo como uma ofensa pessoal.
Voltei-me novamente para Joseph e soltei a primeira coisa que me passou pela cabeça.
— Eu disse que as garotas que ficaram assustadas com o ataque acabariam ficando.
Não sabia ao certo quem tinha feito aquilo, mas corriam boatos de que Tiny, que tinha desmaiado, era uma delas. Outras diziam que Bariel também, mas eu sabia que era mentira. Teriam de arrancar a coroa das mãos de seu cadáver antes disso.
— Você não imagina o alívio que foi — comentou Joseph, parecendo sincero.
Demorei um pouco para pensar em uma resposta, já que não esperava por aquilo e estava me concentrando muito para não levar um tombo. Eu não sabia bem descer escadas agarrada ao braço de alguém. E os saltos não ajudavam. Se escorregasse, pelo menos ele ia me segurar.
— Achei que isso fosse acabar ajudando — eu disse quando descemos o último degrau e já conseguia me manter de pé. — Quer dizer, é complicado ter que escolher uma entre várias meninas. Não ficaria mais fácil se as circunstâncias eliminassem algumas para você?
Joseph sacudiu os ombros.
— Suponho que sim. Mas não seria fácil de qualquer forma.
Ele parecia magoado.
— Boa noite, senhores.
Ele cumprimentou os guardas que abriram as portas do jardim sem hesitar um segundo. Talvez fosse bom aceitar aquela proposta de Joseph e deixá-los avisados de que eu gostava de sair. A ideia de poder escapar assim tão facilmente era tentadora.
— Não entendi — eu disse enquanto ele me conduzia para um dos bancos, o nosso banco.
O príncipe me deixou sentar do lado do banco que dava para as janelas iluminadas do palácio enquanto ele próprio se sentou na outra ponta, meio de lado, de modo que ficamos quase frente a frente. Isso facilitava a conversa.
Ele parecia um pouco hesitante para explicar, mas tomou fôlego e disse:
— Talvez estivesse sendo um pouco vaidoso, pensando que eu valeria algum risco. Não que deseje isso para ninguém! — esclareceu. — Não é isso que quero dizer... Não sei. Você vê tudo o que estou arriscando?
— Hã... não — respondi. — Você está aqui com sua família dando conselhos, e todas giramos em torno do seu horário. Sua vida continua a mesma, e a nossa mudou da noite para o dia. O que você estaria arriscando?
Joseph pareceu chocado.
— Demetria, posso ter minha família, mas imagine como é vergonhoso que seus pais observem suas tentativas de marcar o primeiro encontro com uma garota. E não apenas eles, mas o país inteiro! E para piorar não é um tipo normal de encontro. E quanto ao meu horário: quando não estou com vocês, estou organizando tropas, criando leis, ajustando orçamentos... e tudo isso sozinho ultimamente, enquanto meu pai apenas observa meus tropeços por não ter nem um pouco da experiência dele. Quando eu faço as coisas de um jeito que ele não faria, ele interfere e corrige meus erros. Por fim, enquanto tento realizar essas tarefas, vocês, garotas, não saem da minha cabeça. Fico agitado e apavorado demais com a presença de vocês!
Nunca o tinha visto gesticular tanto. Ele sacudia as mãos para todos os lados e depois as passava pelo cabelo.
— E você acha que minha vida não vai mudar? Quais são as chances de encontrar minha alma gêmea entre vocês? Terei sorte se encontrar alguém que fique ao meu lado pelo resto da minha vida. E se já mandei a moça certa para casa por não sentir nenhuma química? E se a escolhida me abandonar na primeira contrariedade? E se eu não encontrar ninguém? O que farei, America?
Seu discurso tinha começado cheio de fúria e paixão, mas no final as perguntas não eram mais retóricas. Ele realmente queria saber: o que faria se ninguém ali passasse perto de ser uma pessoa que ele pudesse amar? Embora esse não parecesse ser seu maior problema, o príncipe estava mais preocupado em não ser amado.
— Joseph, vou ser sincera: acho que você vai encontrar sua alma gêmea aqui. De verdade.
— Certeza? — Sua voz se encheu de esperança com a minha previsão.
— Absoluta.
Pus a mão em seu ombro. Ele pareceu confortado apenas com aquele toque. Perguntei-me quantas pessoas chegavam a tocá-lo de fato.
— Se sua vida está de pernas para o ar, como você diz, então sua futura esposa está aqui em algum lugar. Pela minha experiência, posso dizer que o amor verdadeiro é geralmente o mais inconveniente — afirmei, com um sorriso amarelo.
Ele pareceu feliz de ouvir essas palavras, que também serviram de consolo para mim. Eu acreditava nelas. E se não podia ter um amor meu, o melhor a fazer era ajudar Joseph a encontrar o dele.
— Espero que você e Miley deem certo. Ela é muito fofa.
Joseph fez uma cara estranha.
— É, parece que sim.
— Como? Tem alguma coisa errada em ser fofa?
— Não, não. É bom ser fofa.
Sua explicação parou por aí.
— O que você tanto procura? — ele perguntou de repente.
— O quê?
— Você não consegue manter os olhos parados. Sei que está prestando atenção, mas parece estar procurando alguma coisa.
Então percebi que ele estava certo. Ao longo de todo o seu pequeno discurso, eu não parava de olhar ao redor: jardim, janelas, torres. Estava ficando paranoica.
— Pessoas... câmeras... — eu disse, balançando a cabeça para olhar o céu escuro da noite.
— Estamos sozinhos. Só há o guarda da porta.
Joseph apontou para a figura solitária sob o poste do palácio. Ele tinha razão: não tínhamos sido seguidos para o lado de fora. As janelas estavam iluminadas, mas não havia ninguém ali. Eu já tinha notado isso, mas as palavras dele serviram de confirmação.
Relaxei um pouco a postura.
— Você não gosta de ser observada, gosta? — ele perguntou.
— Na verdade, não. Prefiro ficar fora do radar. Estou acostumada a isso — respondi sem olhar para ele, enquanto contornava com o dedo os relevos no bloco de pedra a meus pés.
— Você precisa se adaptar. Quando partir, os olhos do país permanecerão focados em você pelo resto de seus dias. Minha mãe ainda conversa com algumas das mulheres que conheceu durante sua própria Seleção. Todas são consideradas importantes. Até hoje.
— Perfeito! — resmunguei. — Mais um motivo para eu não ver a hora de chegar em casa.
Joseph fez uma expressão de quem pede desculpas, mas tive que desviar o olhar. Acabara de lembrar tudo o que aquela competição idiota estava custando para mim, como minha ideia de “normal” nunca mais seria a mesma. Aquilo não parecia justo...
Mas me contive. Não podia culpar Joseph. Ele era tão vítima como todas as garotas, embora de um jeito muito diferente. Dei um suspiro e olhei-o de novo. Encontrei uma expressão decidida em seu rosto.
— Demetria, posso perguntar algo pessoal?
— Talvez — eu me esquivei. Ele sorriu um pouco sem jeito.
— É que... Bem, noto que não gosta mesmo daqui. Você odeia as regras, a competição, a fama, as roupas e a... não, da comida você gosta — ele sorriu, e eu também. — Você sente saudades de casa, da família... e suspeito que também de outra pessoa. Seus sentimentos estão quase à mostra.
— É — comentei com ar enfadado —, eu sei.
— Mas você prefere ser infeliz e sentir saudades aqui em vez de voltar para casa. Por quê?
Senti um nó na garganta e o engoli em seco.
— Não sou infeliz... e você sabe o motivo.
— É, às vezes você parece bem. Vejo você sorrir quando conversa com as outras meninas, e está sempre muito contente durante as refeições. Concordamos nesse ponto. Mas outras vezes parece tão triste. Poderia me contar o motivo? A história toda?
— É só mais uma história de amor que não deu certo. Não é longa nem emocionante. Acredite.
Por favor, eu não quero chorar, foi o que pensei.
— Ainda assim, queria escutar uma história de amor verdadeiro além da história dos meus pais. Uma que tenha se passado do lado de fora dos muros, das regras e da rotina... Por favor.
A verdade que guardei em segredo por tanto tempo. Não imaginava que um dia a transformaria em palavras. Doía muito pensar em Nicholas. Será que eu era capaz de dizer seu nome em voz alta? Respirei fundo. Joseph era meu amigo. Tinha se esforçado muito para ser legal comigo. E tinha acabado de ser totalmente sincero...
— No mundo lá fora — comecei, apontando para além dos muros — as castas cuidam umas das outras, às vezes. Três famílias compram pelo menos uma das pinturas do meu pai todos os anos, e algumas famílias sempre me contratam para cantar na festa de Natal. São nossos patronos, entende? Nós éramos como que patronos da família dele, da Seis. Quando podíamos pagar alguém para limpar ou se precisássemos de ajuda para organizar as coisas, sempre chamávamos a mãe dele. Eu o conhecia desde a infância, mas ele era mais velho que eu, tinha quase a idade do meu irmão. Eles sempre faziam brincadeiras maldosas, e por isso eu fugia deles. Meu irmão mais velho, Logan, é artista como meu pai. Uns anos atrás, uma escultura de metal em que trabalhara por anos foi vendida por uma fortuna. Talvez você tenha ouvido falar dele.
— Logan Singer — disse Joseph.
Alguns segundos passaram e notei que o nome logo lhe pareceu familiar. Joguei os cabelos para trás dos ombros e prossegui:
— Ficamos muito contentes por ele. Logan tinha trabalhado muito duro naquela obra. E precisávamos do dinheiro. A família inteira ficou empolgada. Mas ele ficou com quase toda a quantia. Aquela única escultura fez sua carreira decolar. As pessoas começaram a telefonar todo dia querendo trabalhos seus. Hoje Logan tem uma lista de espera quilométrica e cobra caríssimo, porque pode. Acho que ele é um pouco viciado na fama. Os Cinco em geral não ganham esse tipo de destaque.
Meus olhos e os de Joseph se encontraram em um momento muito significativo. Pensei mais uma vez sobre como nunca mais passaria despercebida na vida, quisesse ou não.
— Mas não importa. Logo que as ligações começaram, Logan decidiu se afastar da família. Minha irmã mais velha tinha acabado de se casar, o que quer dizer que já não contávamos com a renda dela. Depois Logan começou a ganhar dinheiro de verdade e nos abandonou.
Botei a mão no peito do príncipe para enfatizar o que eu ia dizer.
— Isso não se faz. Ninguém deve abandonar a família. Manter-se unidos... é o único jeito de sobreviver.
Os olhos dele mostravam que tinha compreendido.
— Ele ficou com quase todo o dinheiro porque queria comprar um lugar no topo da hierarquia? — perguntou.
Confirmei com a cabeça e prossegui.
— Ele tinha uma ideia fixa de que precisava ser Dois. Caso se contentasse em ser Três ou Quatro, poderia ter comprado o título e nos ajudado. Mas ele está obcecado. É burrice, mesmo. Ele tem uma vida mais que confortável, mas quer o rótulo. E não vai parar enquanto não conseguir.
Joseph balançou a cabeça.
— Isso pode levar uma vida inteira.
— Desde que ele morra com um número dois na lápide, acho que não se importa.
— Presumo que vocês já não sejam mais muito próximos.
— Não — suspirei. — Mas no começo pensei que tinha entendido errado. Achei que Logan só estava se mudando para ser independente, não para se afastar da gente. No começo, fiquei do lado dele. Eu o ajudei a arrumar um estúdio e um apartamento. Ele quis contratar a mesma família de Seis que sempre ajudou nossa família. E o filho mais velho deles estava disponível e ávido para trabalhar, de modo que ajudou Logan a organizar as coisas por alguns dias.
Fiz uma pausa, lembrando-me daqueles momentos.
— Então, lá estava eu desencaixotando as coisas... e lá estava ele. Nossos olhos se encontraram. Ele não parecia mais tão velho ou maldoso. Fazia tempo que não nos víamos, sabe? E eu... fiquei simplesmente louca por ele.
Minha voz falhou e algumas das lágrimas que guardei por tanto tempo rolaram.
— Nossas casas ficavam próximas, e eu saía para passear durante o dia apenas para tentar vê-lo. Quando sua mãe vinha nos ajudar, ele às vezes a acompanhava. Nós ficávamos lá, um olhando para o outro. Era tudo o que podíamos fazer — deixei escapar com um soluço. — Ele era Seis e eu Cinco, e há leis... E a minha mãe! Ah, se ela soubesse ia ficar furiosa. Ninguém podia descobrir.
Minhas mãos se moviam em espasmos com o peso de toda aquela verdade vindo à tona. Mas continuei:
— Logo começaram a aparecer mensagens anônimas por baixo da janela, dizendo que eu era linda e que cantava como um anjo. E eu sabia que eram dele. Na noite do meu aniversário de quinze anos, minha mãe fez uma festa e convidou a família dele. Em determinado momento, ele me tirou de canto e me entregou um cartão de aniversário, dizendo que eu devia ler quando estivesse sozinha. Quando finalmente consegui, notei que o cartão não trazia o nome dele ou dizeres como “feliz aniversário”. Apenas as palavras: “Casa da árvore. Meia-noite”.
Joseph arregalou os olhos:
— Meia-noite? Mas...
— Você precisa saber que eu violo regularmente o toque de recolher.
— Demetria, você poderia ter ido parar na cadeia! — ele exclamou com um meneio de cabeça.
Dei de ombros e continuei:
— Na época, não parecia ser grave. Naquela primeira vez, senti que estava voando. Conhecia sua caligrafia das outras mensagens, e fiquei feliz de ele estar sendo esperto o bastante para manter tudo em segredo. Lá estava ele, imaginando uma maneira de ficarmos sozinhos. Eu não conseguia acreditar que ele queria ficar a sós comigo. Naquela noite, esperei no meu quarto e fiquei observando a casa da árvore no quintal. Perto da meia-noite, vi alguém subir os degraus. Lembro que fui escovar os dentes de novo, só por garantia... Eu me esgueirei pela porta dos fundos e fui para a casa da árvore. E ele estava lá. Era... inacreditável. Não me lembro do começo, mas logo confessamos nossos sentimentos um pelo outro, e não podíamos parar de rir, tão felizes que estávamos por sermos correspondidos. Eu nem ligava para o toque de recolher ou para a mentira que teria que contar aos meus pais. Não ligava para o fato de ser Cinco e ele, Seis. Não me preocupava com o futuro. Nada podia ser mais importante do que o amor dele por mim... E ele me amava, Joseph, ele me amava...
Mais lágrimas. Apertei o peito. Sentia a falta de Nicholas como nunca. Expor tudo aquilo tornava a ausência mais real. Não havia o que fazer senão terminar a história.
— Ficamos juntos em segredo por dois anos. Éramos felizes, mas ele estava sempre preocupado com nossa vida escondida e com o fato de não poder me dar o que achava que eu merecia. Quando recebemos a carta da Seleção, ele insistiu que fizesse a inscrição.
O queixo de Nicholas caiu.
— Sei que é burrice. Mas ele ficaria com um peso nas costas para sempre se eu não tentasse. E de verdade, de verdade, nunca achei que me escolheriam. Como?
Ergui os braços e os deixei cair sobre minhas pernas. Eu ainda estava desnorteada com aquilo tudo.
— Soube pela mãe dele que tinha começado a juntar dinheiro para se casar com uma moça misteriosa. Fiquei tão empolgada. Preparei um jantar surpresa com a intenção de arrancar o pedido dele. Eu estava prontíssima. Mas quando ele viu todo o dinheiro que eu tinha gastado por causa dele, ficou nervoso. Ele é muito orgulhoso. Queria me paparicar, não ser paparicado. E acho que naquele momento viu que jamais seria capaz disso. Por isso, em vez de me pedir em casamento, ele terminou comigo... Uma semana depois, fui chamada para participar da Seleção.
Escutei Joseph balbuciar algo que não pude entender. (n/a provavelmente foi Filho da P***)
— A última vez que o vi — concluí entre soluços — foi na minha despedida. Ele estava com outra garota.
— O QUÊ? — Joseph gritou.
Cobri o rosto com as mãos.
— O que me deixa louca é saber que há outras meninas atrás dele. Sempre houve. E agora ele não tem motivos para recusar. Talvez esteja neste instante com a menina da minha despedida. Não sei. E não posso fazer nada. Mas pensar em voltar para casa e assistir a tudo isso... Não posso, Joseph... Simplesmente não posso...
Desabei em lágrimas, e ele me deixou chorar. Quando as lágrimas finalmente pararam, eu disse:
— Joseph, espero que encontre uma pessoa sem a qual não possa viver. Espero muito. E desejo que nunca precise saber como é tentar viver sem ela.
O rosto de Joseph era mero eco da minha dor. Seu coração parecia ter sido despedaçado por minha história. Mais que isso: ele parecia estar com raiva.
— Sinto muito, Demetria. Eu não... — sua expressão se contorceu um pouco. — Agora é um bom momento para pôr a mão no seu ombro?
Sua dúvida fez com que eu sorrisse.
— Sim, agora é um ótimo momento.
Ele parecia tão cético como no dia anterior, mas em vez de apenas pôr a mão no meu ombro, inclinou-se e tentou me envolver em seus braços.
— A única pessoa que já abracei é minha mãe. Estou fazendo certo? — perguntou.
Eu ri.
— É difícil errar um abraço.
Após um instante, falei de novo:
— Mas eu entendo o que quer dizer. Também só abraço minha família. Aquele longo dia — com os vestidos, o Jornal Oficial, o jantar e as conversas — me deixara exausta. Era bom ter Joseph comigo, abraçando-me, às vezes até acariciando meu cabelo. Ele não era tão perdido como parecia. Esperou pacientemente minha respiração ficar mais lenta e, em seguida, afastou-se e olhou nos meus olhos.
— Demetria, prometo mantê-la aqui até o último momento possível. Sei que eles querem que a Elite seja composta de três garotas, e então poderei escolher. Mas eu juro: vou deixar duas garotas na Elite só para manter você aqui. Não vou mandá-la embora até que seja necessário. Ou até que esteja pronta. O que vier primeiro.
Concordei com a cabeça.
— Sei que nos conhecemos faz pouco tempo, mas acho você maravilhosa. Não gosto de vê-la magoada. Se ele estivesse aqui, eu... eu...
Joseph estremeceu de frustração e depois suspirou:
— Sinto muito, Demetria.
Ele me abraçou de novo e acalentou minha cabeça sobre seu ombro largo. Sabia que manteria suas promessas. Assim, deixei-me estar naquele que talvez fosse o último lugar onde poderia encontrar consolo sincero.

27/12/2013

Capitulo 13

Como eu previra, as meninas que pediram para ir embora mudaram de ideia assim que as coisas acalmaram. Nenhuma de nós sabia exatamente quem havia pedido para voltar, mas algumas — principalmente Blanda  — estavam determinadas a descobrir. Por enquanto, ainda éramos vinte e sete.
Para o rei, o ataque tinha sido tão superficial que nem merecia ser noticiado. No entanto, como havia algumas equipes de filmagem no palácio naquela manhã, parte do tumulto tinha sido transmitida ao vivo. Aparentemente, o rei não tinha gostado muito daquilo. O que me levou a pensar: quantos ataques o palácio tinha sofrido sem que ninguém soubesse? Será que aquele lugar era bem menos seguro do que eu imaginava?
Silvia explicou que se o ataque tivesse sido mais sério, teríamos permissão para telefonar para nossas famílias e dizer que estava tudo bem. Mas só nos deixaram escrever cartas.
Escrevi dizendo que estava bem, que o ataque não fora tão sério como parecera e que o rei nos mantivera seguras. Insisti que não se preocupassem comigo, disse que estava com saudades e dei a carta para uma simpática criada enviar.
O dia seguinte ao ataque correu sem nenhum incidente. Eu tinha planejado descer até o Salão das Mulheres a fim de promover Joe para as garotas, mas depois de ver Lucy tão abalada preferi ficar no quarto.
Não sabia como minhas três criadas gastavam seu tempo na minha ausência, mas quando eu ficava no quarto elas jogavam baralho comigo e deixavam escapar uma ou outra fofoca.
Aprendi que para cada dez pessoas que eu via no palácio havia umas cem ou mais escondidas. Eu sabia das cozinheiras e lavadeiras, mas também havia gente cuja única tarefa era manter as janelas limpas. Essa equipe demorava uma semana inteira para concluir o serviço. Quando acabavam, o pó já tinha atravessado os muros do palácio e se prendido aos vidros limpos, que precisavam ser lavados mais uma vez. Também ocultos no palácio, os ourives fabricavam joias para a família real e presentes para os visitantes. Havia ainda várias equipes de costureiras e compradoras de tecido, cuja missão era vestir a família real — e agora nós — com trajes impecáveis.
Soube também de outras coisas: os guardas que elas achavam mais bonitos e o novo modelo — horrível — de vestido que a chefe das criadas as fazia usar nas comemorações de feriados. Soube que alguns empregados faziam apostas sobre qual Selecionada venceria e que eu estava entre as dez favoritas. E que o bebê de uma das cozinheiras estava doente e fora desenganado pelos médicos. Anne derramou algumas lágrimas ao contar isso. A mãe era uma amiga próxima e o casal tinha desejado um filho por muito tempo.
Ouvir as criadas e falar quando tinha algo que merecesse ser dito — eu era incapaz de imaginar coisa mais divertida acontecendo no andar de baixo. Estava feliz por aquela companhia. Uma atmosfera tranquila e feliz tomou conta do meu quarto.
Tinha sido tão agradável que decidi não descer também no dia seguinte. Dessa vez, deixamos as portas abertas, tanto a do corredor como as da sacada, e uma brisa morna circulava e nos envolvia. Parecia fazer maravilhas com Lucy, e me perguntei com que frequência ela punha o pé para fora do palácio.
Anne fez um comentário sobre como tudo isso era inadequado — eu, sentada com elas, jogando cartas com as portas abertas —, mas logo o deixou de lado. Ela rapidamente superava a mania de tentar fazer de mim a dama que eu aparentemente tinha que ser.
Estávamos no meio de uma partida de baralho quando notei uma silhueta pelo canto do olho. Era o príncipe, parado em frente à porta com um ar maravilhado. Nossos olhares se cruzaram e entendi no ato que seu rosto perguntava o que eu estava fazendo. Levantei-me com um sorriso e caminhei até ele.
— Ai, meu Deus — murmurou Anne quando notou o príncipe na porta. Ela imediatamente enfiou as cartas em um cesto de costura e se levantou. Mary e Lucy fizeram o mesmo.
— Senhoritas — saudou Joe.
— Majestade — Anne fez uma reverência. — É uma grande honra.
— Para mim também — ele respondeu com um sorriso.
As criadas se entreolharam, sentindo-se lisonjeadas. Todos permaneceram calados por uns instantes, sem saber ao certo como agir. Foi quando Mary exclamou:
— Já estávamos de saída.
— Sim, estávamos mesmo — acrescentou Lucy. — Íamos... hã... Ela olhou para Anne em busca de socorro.
— Íamos terminar o vestido da senhorita Demi para sexta-feira — completou Anne.
— Isso mesmo. Faltam apenas dois dias.
Com um sorriso enorme estampado no rosto, as três lentamente desviaram de nós para se retirar do quarto.
— Eu não tinha a intenção de atrapalhar o trabalho de vocês — Joe disse, seguindo-as com os olhos, completamente fascinado com o comportamento delas.
Assim que chegaram ao corredor, elas fizeram reverências estranhas e sem qualquer sincronia antes de seguir a passos frenéticos.
— Que turma você tem — comentou Joe entrando no quarto e correndo os olhos pelo lugar.
— Elas me mantêm motivada — respondi com um sorriso no rosto.
— Está claro que se afeiçoaram a você. Isso é difícil de encontrar.
Ele parou de olhar para o quarto e se voltou para mim.
— Não é assim que imaginava seu quarto.
Levei as mãos à cintura e disse:
— Mas este não é meu quarto, é? Ele é seu. Só está me emprestando. O príncipe fez uma careta.
— Mas com certeza disseram-lhe que você poderia mudar alguma coisa. Uma cama nova, uma pintura diferente...
— Uma camada de tinta não vai tornar este quarto meu. Garotas como eu não moram em casa com piso de mármore — afirmei dando de ombros e com ar brincalhão.
Joe sorriu.
— E como é seu quarto de verdade?
— Hum... O que você veio fazer aqui exatamente? — perguntei, tentando desconversar.
— Ah, é que tive uma ideia.
— Sobre?
— Bem — ele começou —, já que você e eu não temos o relacionamento típico que procuro ter com as outras garotas, talvez devêssemos usar... meios alternativos de comunicação.
Ele parou em frente ao meu espelho e olhou as fotos da minha família.
— Sua irmã mais nova é a sua cara — ele constatou, maravilhado.
Fui até o centro do quarto.
— Ouvimos isso quase sempre. E o que você ia dizer sobre comunicação alternativa?
Joe parou com as fotos e foi em direção ao piano, no fundo do quarto.
— Visto que está aqui para me ajudar, ser minha amiga e tal — ele continuou, fixando o olhar em mim —, talvez não devêssemos recorrer aos tradicionais bilhetes entregues por criadas nem aos convites formais para encontros. Pensei em algo menos cerimonioso.
Ele pegou a partitura sobre o piano.
— Foi você quem trouxe?
— Não, já estava aqui. Consigo tocar de cor as músicas de que realmente gosto.
Suas sobrancelhas se ergueram.
— Impressionante.
Ele voltou para perto de mim sem terminar a explicação.
— Você poderia parar de fuçar e completar o raciocínio, por favor?
Joe deu um suspiro.
— Muito bem. Estava pensando que podíamos ter um sinal ou um jeito de dizer que precisamos conversar sem que os outros notem. Talvez coçar o nariz? — ele propôs, e começou a esfregar a região acima dos lábios.
— Assim vai parecer que seu nariz está entupido. Não é atraente.
Ele me olhou um pouco perplexo e concordou.
— Muito bem. Talvez apenas passar a mão no cabelo.
Balancei a cabeça quase que imediatamente.
— Meu cabelo passa a maior parte do tempo preso com grampos. É quase impossível passar a mão nele. Além disso, o que acontece se você por acaso estiver usando a coroa? Ela vai acabar caindo.
Ele sacudiu o dedo na minha direção.
— Excelente argumento. Humm...
O príncipe deu as costas para mim e voltou a perambular pelo quarto, ainda pensativo, parando ao chegar no criado-mudo.
— Mexer na ponta da orelha?
Pensei na hipótese.
— Gostei. Simples o bastante para ser discreto, mas não comum a ponto de confundirmos com outra coisa. Mexer na orelha. É isso.
Algo tinha prendido a atenção de Joe, mas ele se voltou para mim e sorriu:
— Estou feliz por você ter gostado. Da próxima vez que quiser falar comigo, basta mexer na orelha e virei assim que puder. Provavelmente depois do jantar — concluiu dando de ombros.
Antes que eu pudesse perguntar sobre como eu o encontraria, Joe já estava passeando com meu jarro nas mãos.
— Mas o que é isto?
Soltei um suspiro.
— Receio que esteja além de qualquer explicação.
A primeira sexta-feira chegou, e com ela nossa estreia no Jornal Oficial de Illéa. Nossa participação era obrigatória, mas ao menos dessa vez tudo o que tínhamos que fazer era ficar sentadas. Por conta do fuso horário diferente, chegávamos às cinco da tarde, permanecíamos sentadas por uma hora e depois íamos para o jantar.
Anne, Mary e Lucy me vestiram com muito apuro. Puseram em mim um vestido longo azul-escuro, tendendo para o violeta. A cintura era justa, e a cauda acetinada, levemente ondulada. Eu não podia acreditar que minhas mãos tocavam uma peça tão bela. As criadas abotoaram o vestido nas minhas costas, um botão por vez, e colocaram grampos encravados com pérolas nos meus cabelos. Acrescentaram brincos de pérola pequenos e delicados e um colar cuja corrente era tão fina que as pérolas espaçadas pareciam flutuar sobre minha pele. Eu estava pronta.
Olhei-me no espelho. Ainda parecia ser eu mesma. Era a versão mais linda de mim que já vira, mas eu reconhecia aquele rosto. Desde que meu nome fora sorteado, temia me tornar irreconhecível, um ser tão recoberto por camadas de maquiagem e atulhado de joias que eu teria que cavar por semanas até encontrar a mim mesma. Por ora, eu ainda era Demetria.
E assim, como eu mesma, descobri que minhas mãos brilhavam de suor enquanto me dirigia ao estúdio do palácio. Disseram que deveríamos chegar dez minutos antes. Para mim, dez minutos eram na verdade quinze. Para alguém como Blanda, eram mais ou menos três. Por isso, as meninas foram chegando aos poucos.
Hordas de pessoas corriam por todos os lados a fim de dar os últimos retoques ao cenário, que agora contava com uma fileira de assentos para as Selecionadas. Os membros do conselho, que eu reconheci graças a anos assistindo ao Jornal Oficial, liam o roteiro e ajustavam a gravata. As Selecionadas se olhavam no espelho e esticavam os vestidos extravagantes. Um turbilhão de atividades.
Olhei para o lado e testemunhei o instante mais trivial da vida de Joe. Sua mãe, a bela rainha Denise, punha alguns fios de cabelo rebeldes dele no lugar. O príncipe endireitou o paletó e comentou algo com ela. A rainha inclinou a cabeça em aprovação, o que fez Joe sorrir. Gostaria de ter visto mais, só que Silvia, em toda a sua glória, chegou para me levar ao meu lugar.
— Para a cadeira, senhorita Demetria — ela ordenou. — Pode se sentar onde quiser, mas, você sabe, as garotas já ocuparam toda a fileira da frente. — Silvia parecia triste por mim, como se estivesse dando alguma má notícia.
— Ah, obrigada — agradeci, feliz por poder sentar na última fileira. Não gostei de subir aqueles degrauzinhos com um vestido chique e sandálias de salto alto. (Aliás, eu precisava mesmo delas? Ninguém veria meus pés.) Mas dei um jeito. Em seguida, chegou Miley. Ela abriu um sorriso assim que me viu e veio se sentar ao meu lado. Pareceu um bom sinal ela escolher se sentar perto de mim em vez de ir para a segunda fileira. Miley era fiel. Seria uma grande rainha.
Seu vestido era de um amarelo brilhante. Seus cabelos loiros e sua pele levemente bronzeada davam a impressão de que ela irradiava luz.
— Miley, amei seu vestido. Você está fantástica!
— Ah, obrigada — ela disse, corando levemente. — Fiquei com medo de ter exagerado um pouco.
— De jeito nenhum! Confie em mim: ficou perfeito em você.
— Eu queria conversar, mas você não aparecia. Será que podemos nos falar amanhã? — ela perguntou em voz baixa.
— Claro. No Salão das Mulheres, pode ser? Sábado — respondi no mesmo tom.
Amy, sentada na cadeira da frente, virou-se para nós.
— Acho que os enfeites do meu cabelo estão caindo. Vocês poderiam ver para mim?
Sem dizer uma palavra, Miley apalpou com os dedos esguios o cabelo de Amy à procura de enfeites soltos.
— Está melhor agora? — ela perguntou.
— Sim, obrigada — suspirou Amy, aliviada.
— Demi, tem batom nos meus dentes? — perguntou Zoe.
Virei para esquerda e lá estava ela, expondo todos os dentes brancos como pérolas em um sorriso lunático.
— Não, tudo certo — respondi, vendo pelo canto dos olhos que Miley confirmava a informação com a cabeça.
— Obrigada. Como ele pode ser tão calmo? — Zoe perguntou apontando para Joe, que falava com um dos membros da produção. Depois da pergunta, ela enfiou a cabeça entre as pernas e começou a controlar a respiração.
Miley e eu viramos uma para a outra de olhos arregalados e tentamos não rir. Não seria fácil se continuássemos a ver Zoe, de modo que corremos os olhos pelo estúdio e começamos a conversar sobre as roupas das outras. Havia várias garotas de vermelho sedutor e verde vibrante, mas nenhuma de azul. Olivia foi ousada o bastante para usar laranja. Eu não sabia muito de moda, mas Miley e eu concordamos que alguém deveria ter ajudado a moça. Aquela cor fazia sua pele ficar meio esverdeada.
Dois minutos antes de ligarem as câmeras, descobrimos que não era o vestido que a deixava verde. Olivia vomitou ruidosamente na lata de lixo mais próxima e desmaiou. Silvia entrou em ação e pediu aos gritos que alguém limpasse o chão e fizesse a garota se sentar. Ela foi posta na última fileira com um balde próximo aos pés, por precaução.
Bariel estava sentada bem na frente dela. Não consegui ouvir o que ela disse à pobre coitada, mas parecia pronta para bater em Olivia caso o episódio se repetisse perto dela.
Pensei que Joe teria visto ou escutado uma parte da agitação e quis conferir se ele demonstrava alguma reação. Olhei para o príncipe, mas ele não olhava para a confusão: olhava para mim. Rapidamente — tão rapidamente que qualquer outra pessoa pensaria se tratar de uma coceirinha — ele mexeu na ponta da orelha. Fiz o mesmo gesto e desviamos o olhar.
Fiquei empolgada ao saber que Joe passaria em meu quarto depois do jantar.
De repente, o hino nacional começou a tocar, e o brasão de Illéa surgiu nos monitores espalhados pelo estúdio. Endireitei-me na cadeira. Só conseguia pensar que minha família estaria vendo e quis deixar todos orgulhosos.
O rei Clarkson estava no palanque falando do breve e malsucedido ataque ao palácio. Eu não diria que o ataque fora malsucedido. Afinal, a maioria de nós quase morreu de pavor. Depois fizeram mais uma pilha de pronunciamentos. Tentei prestar atenção em tudo o que diziam, mas era difícil. Estava acostumada a assistir ao programa em um sofá confortável acompanhada de um balde de pipoca e com os comentários da família.
Muitas das notícias tinham a ver com os rebeldes, que levavam a culpa por uma série de coisas. A construção das estradas em Sumner estava atrasada por causa dos rebeldes, e o número de representantes locais em Atlin tinha diminuído porque eles tiveram que ser enviados para George a fim de ajudar em uma revolta rebelde. Eu nem fazia ideia de que essas coisas tinham acontecido. Partindo daquilo que ouvira na infância e do que tinha aprendido desde que chegara ao palácio, comecei a questionar o quanto sabíamos de fato sobre esses grupos. Talvez eu não entendesse, mas não me parecia que eles podiam ser culpados por todas as coisas erradas em Illéa.
E eis que Gavril surge no estúdio como se tivesse brotado do chão assim que o mestre de cerimônias o anunciou.
— Boa noite a todos. Tenho um anúncio muito importante hoje. Faz uma semana que a Seleção começou e oito moças já voltaram para casa. Restam agora vinte e sete belas mulheres para o príncipe Joseph fazer sua escolha. Semana que vem, haja o que houver, a maior parte do Jornal Oficial de Illéa será dedicada a essas incríveis jovens.
Senti gotículas de suor se formarem na minha testa. Sentar ali e fazer boa figura... Até aí tudo bem. Mas responder perguntas? Eu sabia que não ia ganhar aquele joguinho, mas não era essa a questão. Eu só não queria fazer papel de idiota em rede nacional.
— Antes de chegarmos às senhoritas, falaremos com o homem do momento. Como Vossa Alteza está esta noite, príncipe Joseph? — perguntou Gavril cruzando o palco.
Joe foi pego de surpresa. Não tinha microfone nem uma resposta preparada. Imediatamente antes de o microfone de Gavril chegar até ele, nossos olhares se cruzaram e dei uma piscadinha. Aquele pequeno gesto foi suficiente para fazê-lo sorrir.
— Muito bem, Gavril, obrigado.
— Tem gostado da companhia até agora?
— Sim! É um prazer conhecer essas senhoritas.
— São todas moças doces e gentis como aparentam? — o apresentador quis saber.
Dei uma risadinha antes mesmo de Joe falar. Eu sabia que ele diria algo como “Bem, mais ou menos”.
— Humm... — Joe desviou o olhar de Gavril e me encarou — quase.
— Quase? Gavril pareceu surpreso. — Alguém ali está sendo desobediente? — ele perguntou apontando para nós.
Por sorte todas as meninas soltaram uma risadinha e eu pude me unir a elas. Que traidor!
— O que essas garotas fizeram que não foi exatamente meigo? — Gavril quis saber do príncipe.
— Muito bem, deixe-me contar.
Joe cruzou as pernas e ficou bem confortável na cadeira. Nunca o tinha visto tão relaxado quanto naquele momento, sentado ali e curtindo com a minha cara. Gostei desse seu lado. Desejei que aparecesse mais vezes.
— Uma delas teve coragem de gritar comigo de um modo bem agressivo em nosso primeiro encontro. Levei uma bronca duríssima — ele prosseguiu.
Atrás do príncipe, o rei e a rainha se entreolharam. Pareciam estar ouvindo a história pela primeira vez também. Ao meu redor, as meninas trocavam olhares confusos. Só fui perceber quando Miley disse:
— Não me lembro de ninguém ter gritado com ele no Grande Salão. Você se lembra?
Joe devia ter esquecido que nosso primeiro encontro era um segredo.
— Acho que ele está exagerando, para ser engraçado. Cheguei a dizer para ele umas coisas bem sérias. Talvez esteja falando de mim — respondi.
— Uma bronca? Por quê? — continuou Gavril.
— Honestamente, não sei. Saudades de casa, talvez. E foi por isso que a perdoei, claro.
Joe estava solto e tranquilo. Conversava com Gavril como se não houvesse mais ninguém do estúdio além dos dois. Eu teria que dizer a ele mais tarde que havia se saído muito bem.
— Então ela ainda está conosco?
Gavril dirigiu o olhar para o conjunto de garotas, com um sorriso de orelha a orelha, depois se voltou para o príncipe.
— Ah, sim. Ainda está — ele afirmou, sem tirar os olhos de Gavril. — E planejo mantê-la aqui por um bom tempo.


Hey! Como foi o Natal de vocês?
O Meu foi ótimo!
Feliz Natal bem atrasados para vocês!

Agora comecem a contagem regressiva. A Primeira Temporada de "A Seleção" acaba com o capitulo 24. Depois entraremos em férias (sim,pois irei viajar e para aonde eu vi não tem internet) e assim que acabarem "A Seleção" volta com a segunda temporada que será chamada "A Elite". Mas não surtem! Ainda tem muitas emoções para acontecer nessa temporada!

Critíca a Fanfic Adolescentes Em Casa



Olá a todos!

Aqui está mais uma crítica. A escritora já teve uma outra fanfic sua a ser criticada aqui no CDF, chamada "A Seleção", mas quem a criticou foi a Diana. Desta vez sou eu, Rui, a fazer a crítica.
Antes de mais, peço desculpa pelo atraso. A fanfic é enorme e tive que ler tudo. Todas as temporadas.
Espero que concorde.


Status do blog:
Nome: A Seleção.
Dona do blog: Gabs Muniz.
Fanfic a ser criticada: Adolescentes em casa.


Não vou falar sobre o visual/os gadgets porque a Diana já tinha falado disso na crítica que ela fez e eu concordo com ela.


Apresentação de personagens e Sinopse: Quanto à apresentação de personagens foi muito superficial. Não descreveu muito as personagens e parece que deu muito protagonismo ao Kevin quando ele talvez não seja o principal. Já quanto à sinopse, tem alguns erros ortográficos mas nada de grave. Gostei da forma como a sinopse foi escrita.


Capítulos: Questiono-me quem será o narrador dessa fanfic. Ora está na primeira pessoa, ora na segunda pessoa, ou é um dos personagens (geralmente é o Kevin). Fez uma certa confusão!
Os erros ortográficos são um pouco graves, constantes e irritam um pouco o leitor. A descrição também é um pouco confusa e faltam algumas virgulas em várias frases. Em termos de escrita não gostei.
A comédia foi bem conseguida, ri em muitos capítulos, mas a parte em que a mãe da Demi morre necessitava de alguma narração, o que não aconteceu. As partes dramáticas não foram bem conseguidas, na minha opinião.
No geral, a primeira temporada foi um pouco fraca. A única coisa que achei que foi bem conseguida foi a comédia.
Quanto à segunda temporada, teve mais um pouco de comédia romântica mas achei repetitivo. Os erros ortográficos continuaram, alguns mais graves que outros. Tive a sensação que não teve muita atenção aos erros porque repete muitas vezes o mesmo erro. Há menos narração na segunda temporada, quando podia ter tido mais.
A terceira temporada foi um pouco melhor que as duas primeiras. Tem mais narração, menos erros ortográficos e gostei das ideias.
A quarta temporada foi um pouco melhor que a terceira só que faltou ainda alguma descrição em alguns capítulos. As ideias não foram muito originais mas mesmo assim, gostei.
A sinopse da quinta temporada foi muito curta e repetiu as palavras. Não deu muita vontade de ler a temporada, mas gostei do que escreveu quando comecei a ler os capítulos. A forma como as personagens evoluíram ao longo das temporadas eu gostei.
No fim de todas as temporadas acho que a fanfic até foi boa. Gostei. Tem alguns erros mas está boa!

Dicas:

1- Cuidado com os erros ortográficos;
2- Faça mais descrições e narrações;
3- Coloque a narração em apenas um personagem ou mude quando assim o entender, avisando.

Parece estranho eu dar uma nota inferior a 9,8 que a Diana deu à sua outra fanfic "A Seleção" porque geralmente é ela que dá as notas mais baixas (por ser a mais justa de nós os três), mas realmente eu não acho que a "Adolescentes em Casa" mereça quase a nota 10. Falta algumas coisas e alguns erros ortográficos são graves.

23/12/2013

Capitulo 12

Não tive muito tempo para me sentir envergonhada ou preocupada. Quando as criadas vieram me vestir de manhã sem nenhum sinal de apreensão, entendi que minha presença na sala de jantar seria bem-vinda. O fato de Joseph me deixar tomar café foi um gesto de generosidade que não esperava dele: eu teria direito a uma última refeição, um momento final como uma das Selecionadas.
Já estávamos no meio do café quando Selena finalmente juntou coragem para perguntar sobre o encontro.
— Como foi? — ela perguntou discretamente, como deveria ser durante as refeições.
Essas duas palavrinhas espicharam orelhas à minha esquerda e à minha direita. Todas ao redor começaram a prestar atenção. Respirei fundo e respondi.
— Indescritível.
As garotas se entreolharam, querendo mais detalhes.
— Como ele se comportou? — indagou Tiny.
— Humm... — procurei escolher bem as palavras. — Bem diferente de como eu esperava.
Dessa vez, escutei resmungos pela mesa.
— Você faz isso de propósito? — irrompeu Zoe. — Porque, se faz, é muita maldade.
Balancei a cabeça. Como poderia explicar?
— Não, nem um pouco. É que...
Mas escapei de tentar formular uma resposta em virtude do barulho que vinha do corredor.
Estranhei os gritos. Ao longo de meu breve período no palácio, não me lembrava de nenhum som que chegasse perto de ser alto. Além disso, o ruído dos passos dos guardas, o abrir e fechar das enormes portas e o bater dos talheres nos pratos compunham uma espécie de música. Tratava-se do mais completo caos.
A família real parece ter compreendido tudo antes de nós.
— Para o fundo da sala, senhoritas! — gritou o rei Paul, correndo até uma janela.
As garotas, confusas e obedientes, avançaram lentamente até a mesa principal. O rei descia uma persiana, que não servia apenas para diminuir a luz. Era feita de metal e rangia ao fechar. Ao lado dele, Joseph baixava outra. E ao lado dele, a amável e delicada rainha corria para baixar a seguinte.
Foi então que uma onda de guardas invadiu a sala. Vi alguns deles se perfilarem do lado de fora um pouco antes das monstruosas portas serem fechadas, trancadas e reforçadas com barras.
— Eles invadiram a propriedade, Majestade, mas conseguimos conter o avanço. Seria bom que as senhoritas saíssem, mas estamos muito próximos da porta...
— Entendido, Markson — o rei respondeu, cortando a frase do militar. Não precisei de mais para entender. Havia rebeldes dentro dos muros do palácio.
Eu imaginava que isso fosse acontecer. Tantas hóspedes no palácio, tantos preparativos. Claro que alguém ia se distrair em algum ponto e relaxar a segurança. E, mesmo que não fosse fácil entrar, era o momento perfeito para protestar. A verdade era que a Seleção era um tanto perturbadora. Com certeza os rebeldes a odiavam, como odiavam tudo em Illéa.
Entretanto, a opinião deles em si não era importante. O importante é que não seria calada facilmente.
Eu me ergui tão depressa que minha cadeira tombou. Corri até a janela mais próxima para baixar a persiana de metal. Outras meninas que também tinham percebido a gravidade da ameaça fizeram o mesmo.
Um instante foi suficiente para descer aquela coisa, mas encaixá-la no lugar certo era um pouco mais difícil. Eu tinha acabado de prender a trava do jeito correto quando algo atingiu o palácio, fazendo com que eu me afastasse da janela aos gritos até tropeçar em minha cadeira e cair.
Joseph surgiu imediatamente.
— Você está ferida?
Fiz um diagnóstico rápido de minha condição. Eu devia ter sofrido um arranhão no quadril e estava assustada, mas nada pior que isso.
— Não, estou bem.
— Para o fundo da sala. Agora! — ele ordenou enquanto me ajudava a sair do chão. Depois, correu pelo salão despertando as garotas paralisadas de medo e as conduziu para o canto.
Obedeci e disparei para o fundo da sala, rumo à aglomeração de meninas encolhidas. Algumas choravam; outras, em choque, olhavam para o vazio. Tiny estava desmaiada. A figura mais tranquilizadora era o rei Clarkson, que falava atentamente com um guarda no canto oposto, longe o bastante para não ser ouvido por nós. Um de seus braços envolvia a rainha para protegê-la, e ela permanecia ereta e calma a seu lado.
A quantos ataques teria sobrevivido? Recebíamos notícias de que eles ocorriam várias vezes ao ano. Aquilo inevitavelmente acabaria com os nervos de alguém. Suas chances de sobrevivência ficavam cada vez menores... assim como as de seu marido... e de seu único filho. Os rebeldes com certeza chegariam em algum momento às circunstâncias perfeitas para obter o que queriam. E, mesmo assim, ela permanecia ali, de queixo erguido e rosto sereno.
Corri os olhos pelas outras garotas. Por acaso alguma delas tinha a força necessária para ser uma rainha? Tiny ainda estava inconsciente nos braços de alguém. Blanda e Bariel conversavam. Blanda parecia à vontade, mas eu sabia que não estava. Ainda assim, comparada às outras,
ela escondia muito bem suas emoções. Outras estavam quase histéricas, molhando os vestidos com lágrimas. Algumas ficaram catatônicas e se recusavam a aceitar a situação. Seus rostos não tinham expressão, e elas apertavam as próprias mãos à espera do fim.
Miley estava chorando, não a ponto de parecer acabada. Segurei seu braço e a levantei.
— Enxugue os olhos e fique direito — eu disse no ouvido dela.
— O quê? — ela gemeu.
— Confie em mim. Faça isso.
Miley secou o rosto no vestido e ergueu-se. Ela tocava vários pontos do rosto, talvez para conferir se a maquiagem não estava borrada. Então se voltou para mim em busca de aprovação.
— Muito bem. Desculpe ser mandona, mas confie em mim desta vez, por favor.
Eu não gostava de dar ordens em meio a algo tão preocupante, mas ela precisava se parecer com a rainha Denise. Com certeza Joseph procuraria isso em sua escolha, e Miley tinha que ganhar.
Ela concordou com a cabeça.
— Não, você está certa. Quer dizer, por enquanto estamos todos a salvo. Eu não deveria ficar tão preocupada.
Concordei, embora ela estivesse errada. Não estávamos todos a salvo.
Havia guardas ao pé das enormes portas, e coisas pesadas eram atiradas contra as paredes e as janelas. A sala de jantar não tinha relógio. Eu não fazia ideia de quanto tempo o ataque já durava, o que me deixou ainda mais ansiosa. Como saberíamos se eles tinham conseguido entrar? Talvez quando começassem a arrombar as portas? Será que já tinham entrado e não sabíamos?
Não pude suportar o peso da preocupação. Fixei o olhar em um vaso de flores ornamentais — cujo nome ignorava completamente — e roí uma das unhas feitas com perfeição pelas manicures do palácio. Fingi que aquelas flores eram a coisa mais importante do mundo.
Joseph acabou por aparecer para verificar se eu estava bem, como tinha feito com as outras. Ele se pôs ao meu lado e começou a observar as
flores também. Nenhum de nós sabia o que dizer.
— Tudo bem com você? — ele finalmente perguntou.
— Sim — sussurrei.
O príncipe se deteve por um momento.
— Você não parece bem.
— O que vai acontecer com as criadas? — perguntei, manifestando minha maior preocupação.
Eu sabia que estava a salvo, mas onde elas estavam? E se uma delas estivesse caminhando perto do muro quando os rebeldes entraram?
— As criadas? — ele perguntou com um tom de voz que dava a entender que eu era uma idiota.
— Sim, as criadas.
Olhei nos olhos dele, forçando-o a reconhecer que somente uma privilegiada minoria entre os que moravam no palácio tinha proteção de verdade. Eu estava a ponto de chorar, mas não queria que as lágrimas viessem. Acelerei a respiração para manter as emoções sob controle.
Joseph me olhou nos olhos e pareceu entender que por apenas um degrau eu mesma não era uma criada. Não era esse o motivo da minha preocupação, mas era muito estranho que um sorteio fosse a principal diferença entre mim e uma pessoa como Anne.
— Elas devem estar escondidas. Também têm onde esperar o fim dos ataques. Os guardas avisam rapidamente todo mundo. Elas vão ficar bem. Costumávamos ter um sistema de alarme, mas na última invasão os rebeldes o destruíram completamente. Estamos tentando consertar, mas... — ele suspirou.
Olhei para o chão, na tentativa de aplacar todas aquelas preocupações na minha cabeça.
— Demetria... — Joseph clamou.
Levantei o rosto.
— Elas estão bem. Os rebeldes agiram devagar, e todo mundo aqui sabe o que fazer em caso de emergência.
Concordei. Permanecemos ali, em silêncio, por alguns minutos, até eu perceber que ele estava pronto.
— Joseph — sussurrei.
Ele se voltou para mim, um pouco surpreso de ser tratado com tanta familiaridade.
— Sobre a noite passada. Eu quero explicar. Quando foram nos preparar para a viagem, um homem disse que eu jamais poderia rejeitar você. Não importava o que pedisse. Em nenhuma hipótese.
Ele ficou espantado.
— O quê?
— Pelo que ele me disse, parecia que você ia pedir algumas coisas. E você mesmo me contou que não conviveu com muitas mulheres. Depois de dezoito anos... E você dispensou as câmeras. Fiquei com medo de que chegasse perto demais.
Joseph balançou a cabeça na tentativa de processar toda aquela informação. Seu rosto, geralmente tranquilo, contorcia-se de ódio, humilhação e incredulidade.
— Disseram isso a todas? — ele perguntou, aparentemente abismado com a ideia.
— Não sei. Não conheço muitas meninas que precisam desse tipo de aviso. Elas provavelmente esperam uma oportunidade para atacar — comentei, apontando a cabeça para o resto da sala.
O príncipe soltou uma risada sarcástica.
— Mas você não é como elas, até porque não teve receio de me acertar uma joelhada bem ali, certo?
— Eu acertei sua coxa.
— Por favor. Um homem não precisa de tanto tempo para se recuperar de uma joelhada na coxa — ele argumentou com a voz cheia de ceticismo.
Deixei escapar uma risada. Felizmente, Joseph me acompanhou. Foi então que outro projétil atingiu a janela e interrompemos o riso ao mesmo tempo. Por alguns instantes, eu esquecera onde estava. Precisava de um pouco mais de tempo. Minha saúde mental exigia.
— E então, como é ter que lidar com uma sala cheia de mulheres em prantos? — perguntei.
Sua expressão assumiu uma perplexidade cômica.
— Nada no mundo pode ser mais confuso! — ele cochichou rapidamente. — Não tenho a menor ideia de como fazê-las parar.
Eis o homem que ia liderar nosso país: alguém que era vencido por lágrimas. Era engraçado demais.
— Você pode tentar pôr a mão no ombro delas e dizer que vai ficar tudo bem. Quando choram, as mulheres nem sempre querem que você resolva o problema. Elas só querem ser consoladas — sugeri.
— Sério?
— Sim.
— Não pode ser tão simples — ele disse com um misto de dúvida e interesse na voz.
— Eu disse “nem sempre”, e não “nunca”. Mas provavelmente funcionaria com várias garotas aqui.
Ele torceu o nariz.
— Não tenho tanta certeza. Duas delas já perguntaram se eu as deixaria ir embora quando isso chegasse ao fim.
— Pensei que não tínhamos permissão para fazer isso.
Na verdade, eu não deveria estar surpresa. Se ele tinha autorizado minha permanência como amiga, não podia dar muita importância a detalhes técnicos.
— O que você vai fazer? — completei.
— O que posso fazer? Não vou manter ninguém aqui contra a própria vontade.
— Talvez elas mudem de ideia — propus com alguma esperança.
— Talvez — ele concordou e fez uma pausa. — E você? Já está suficientemente assustada para sair? — o príncipe perguntou com ar quase brincalhão.
— Para ser sincera, pensei que me mandaria embora depois do café — admiti.
— Para ser sincero, também pensei.
Um sorriso tranquilo nasceu no meu rosto e no dele. Nossa amizade — se é que podíamos chamar assim — era estranha e cheia de furos, mas
pelo menos era honesta.
— Você não respondeu. Quer sair?
Outro abalo na parede. A ideia era tentadora. Em casa, o pior ataque que tive que enfrentar tinha sido Frankie tentando roubar minha comida. As garotas ali não se importavam comigo, as roupas me sufocavam, as pessoas queriam ferir meus sentimentos e toda aquela história me deixava desconfortável. Mas era bom para minha família, e eu achava ótimo comer bem. Joseph parecia, de fato, meio perdido, e eu tinha prometido ajudá-lo. Quem sabe eu mesma não escolheria a próxima princesa?
Olhei bem nos olhos dele.
— Enquanto você não me enxotar, vou ficando aqui...
Ele sorriu.
— Bom. Você precisa me passar mais dicas, como essa da mão no ombro.
Devolvi o sorriso. Sim, estava tudo dando errado, mas algo de bom sairia disso.
— Demetria, você poderia me fazer um favor?
Assenti.
— Para todos os efeitos, passamos muito tempo juntos na tarde de ontem. Se alguma garota perguntar, você poderia explicar que eu não... que eu jamais...
— Claro. E sinto muito mesmo pelo que aconteceu.
— Eu devia saber que se uma das garotas fosse desobedecer a uma ordem seria você.
Uma série de objetos pesados acertou a parede de uma vez, fazendo um punhado de meninas gritar.
— Quem são eles? O que querem? — perguntei.
— Quem? Os rebeldes?
Confirmei com a cabeça.
— Depende de quem responde. E de que grupo você fala — ele explicou.
— Quer dizer que há mais de um grupo?
A informação fez toda a situação piorar. Se esse era o ataque de um
grupo, o que poderiam fazer dois ou mais juntos? Pareceu-me extremamente injusto que não explicassem melhor o tema para nós. Até onde eu sabia, um rebelde era um rebelde, mas Joseph fez parecer que havia uns piores que outros.
— Quantos grupos existem? — perguntei.
— Basicamente dois: os nortistas e os sulistas. Os nortistas atacam com muito mais frequência. Estão mais perto de nós. Vivem no chuvoso território de Likely, perto de Bellingham. Ninguém quer morar lá, quase tudo são ruínas. Eles se estabeleceram ali como puderam, embora eu ache que vivem migrando. Essa é uma teoria minha que ninguém escuta. Mas é raro que consigam invadir a propriedade. Quando conseguem, os resultados são... quase modestos. Acho que este ataque de agora é obra dos nortistas — Joseph explicou em meio ao barulho.
— Por quê? O que os faz diferentes dos sulistas?
Joseph pareceu hesitar. Não tinha certeza se eu podia saber aquilo. Olhou para os lados para ver se alguém estava ouvindo. Eu também olhei, e vi várias pessoas nos observando. Blanda, em especial, parecia soltar fogo pelos olhos. Não consegui sustentar meu olhar por muito tempo. Ainda assim, mesmo com toda aquela gente observando, ninguém estava suficientemente perto para ouvir. Joseph tirou a mesma conclusão e se inclinou para cochichar ao meu ouvido:
— Os ataques dos sulistas são muito mais... letais.
Estremeci.
— Letais?
Ele confirmou:
— Eles vêm apenas uma ou duas vezes por ano, acho. Todos tentam evitar que eu saiba as estatísticas, mas não sou idiota: quando eles vêm, pessoas morrem. O problema é que os dois grupos parecem iguais para nós: esfarrapados, constituídos na maior parte de homens esguios mas fortes, sem insígnias que possamos distinguir. Por isso, não sabemos quem está por trás do ataque antes do fim.
Corri os olhos pela sala. Muita gente estaria em perigo se Joseph estivesse errado e os rebeldes da vez fossem sulistas. Lembrei-me
novamente das pobres criadas.
— Ainda não entendi. O que eles querem?
Joseph deu de ombros e respondeu:
— Os sulistas querem nos derrubar. Não sei o motivo, mas imagino que estejam insatisfeitos, cansados de viver às margens da sociedade. Quer dizer, eles nem são Oito, em tese, porque não têm nenhuma participação nas relações sociais. Os nortistas ainda são um mistério. Meu pai diz que querem apenas nos incomodar, perturbar o governo, mas não penso assim.
Ele pareceu bastante orgulhoso de si mesmo por uns momentos.
— Tenho outra teoria quanto a isso também — concluiu.
— Posso saber qual é? Joseph hesitou novamente. Dessa vez, talvez não por receio de me assustar, mas por receio de não ser levado a sério.
Ele aproximou os lábios do meu ouvido mais uma vez e sussurrou:
— Acho que eles estão à procura de alguma coisa.
— De quê? — indaguei.
— Isso eu não sei. Mas é a mesma coisa sempre que os nortistas são expulsos: os guardas são derrotados, feridos ou amarrados, mas nunca assassinados. É como se os rebeldes não quisessem ser seguidos. No entanto, sequestram algumas pessoas de vez em quando, o que é preocupante. E os quartos — bem, aqueles em que conseguem entrar — ficam uma bagunça. Todas as gavetas arrancadas, prateleiras reviradas, tapetes jogados longe. Muita quebradeira. Você não acreditaria se eu lhe dissesse o número de câmeras que tive de substituir ao longo dos anos.
— Câmeras?
— Sim... — ele disse, um pouco encabulado. — Gosto de fotografia. Mas, apesar de tudo isso, eles acabam não levando muita coisa consigo. Meu pai acha minha ideia inútil. O que um bando de bárbaros analfabetos procuraria? Ainda assim, deve haver alguma coisa.
Era uma teoria intrigante. Se eu não tivesse um centavo e soubesse como invadir o palácio, acho que pegaria todas as joias que encontrasse, qualquer coisa que pudesse vender. Aqueles rebeldes deviam ter em mente mais que mera afirmação política ou sua própria sobrevivência quando invadiam o palácio.
— Você acha tolice? — ele perguntou, tirando-me de minhas divagações.
— Não, não é tolice. É confuso, mas não tolice.
Sorrimos juntos. Dei-me conta de que se Joseph fosse apenas Joseph Schreave e não Joseph, o futuro rei de Illéa, seria o tipo de pessoa que gostaria que morasse na casa ao lado, um vizinho com quem conversar.
Ele limpou a garganta.
— Suponho que eu deveria ver como estão as outras garotas.
— Sim, imagino que muitas delas estão se perguntando por que está demorando tanto.
— E então, parceira, alguma sugestão de quem deve ser a próxima?
Sorri e olhei para trás, para conferir se minha candidata a princesa ainda aguentava firme. E ela aguentava.
— Está vendo aquela loira ali, de rosa? É Miley. Um doce. Ela é muito gentil e adora filmes. Vá.
Joseph deu uma risadinha e caminhou na direção dela.
O tempo parecia demorar uma eternidade para passar, mas na verdade o ataque durou pouco mais de uma hora. Descobrimos depois que ninguém tinha entrado no palácio em si, apenas na propriedade. Os guardas só dispararam contra os rebeldes quando eles se dirigiram à porta principal. Isso explicava os tijolos — arrancados dos muros do castelo — e a comida estragada atirados contra as janelas.
No fim, dois homens chegaram perto demais da entrada principal, os guardas atiraram e todos fugiram. Se a classificação de Joseph estivesse certa, deveriam ter sido nortistas.
Permanecemos escondidas por mais um tempo enquanto as imediações do palácio eram revistadas. Quando tudo voltou ao normal, enviaram-nos de volta para o quarto. Andei de braços dados com Miley. Apesar de ter aguentado firme na sala de jantar, a tensão gerada pelo ataque me deixara exausta. Era bom ter alguém com quem espairecer.
— Ele deixou você usar calça mesmo depois de perder? — ela perguntou.
Eu tinha começado a falar sobre Joseph logo que pude, porque estava
ansiosa para saber detalhes da conversa entre os dois.
— Sim, ele foi muito generoso.
— Acho que o príncipe é charmoso e sabe ganhar.
— Sabe mesmo. E consegue ser até mais gracioso quando descobre a dura realidade do que ganhou.
“Como uma joelhada nas joias reais”, acrescentei mentalmente.
— O que você quer dizer?
— Nada.
Eu não queria ter que explicar o que tinha acontecido.
— Sobre o que vocês conversaram hoje? — continuei.
— Bem, ele perguntou se eu queria vê-lo esta semana.
— Miley! Isso é ótimo!
— Quieta! — exclamou, conferindo se as outras garotas já tinham subido as escadas. — Estou tentando não alimentar esperanças.
Ficamos em silêncio por um momento até que ela explodiu.
— Quem estou querendo enganar? Estou tão empolgada que mal posso parar em pé! Espero que ele não demore muito para me chamar.
— Se já chamou, tenho certeza de que logo virá atrás de você. Quer dizer, assim que terminar de administrar o país.
Ela riu.
— Não acredito! Quer dizer, eu sabia que ele era bonito, mas não tinha ideia de como se comportava. Tive medo de que fosse... pomposo ou coisa parecida.
— Eu também. Mas na verdade ele é...
O que Joseph era de fato? Ele era meio pomposo mesmo, mas não de um jeito irritante como eu tinha imaginado. Sem dúvida se comportava como um príncipe, mas mesmo assim, era tão... tão...
— Normal — completei para Miley.
Ela já não prestava atenção em mim. Estava perdida em seus sonhos enquanto caminhávamos. Eu desejava que esse Joseph ideal que ela tinha construído na cabeça correspondesse ao real. E também que ela fosse o tipo de mulher que ele procurava. Dei um tchauzinho quando chegamos à porta do quarto dela e segui para o meu.
Os pensamentos sobre Miley e Joseph deixaram minha cabeça assim que abri a porta. Anne e Mary estavam agachadas ao lado de Lucy, extremamente abalada. Seu rosto estava vermelho e lágrimas rolavam por suas bochechas. Suas pequenas tremidas tinham se convertido em tremores violentos que sacudiam todo o seu corpo.
— Acalme-se, Lucy. Está tudo bem — dizia Anne em voz baixa enquanto acariciava os cabelos desgrenhados da amiga.
— Já passou. Ninguém se feriu. Você está segura, querida — murmurava Mary, segurando sua mão tensa.
Fiquei chocada demais para falar. Aquela era a luta particular de Lucy; não era para meus olhos. Comecei a sair do quarto, mas a criada me segurou antes de eu cruzar a porta.
— P-p-perdão, senhorita, p-perdão — gaguejou.
As outras duas observavam com rostos apreensivos.
— Não se preocupe. Você está bem? — perguntei antes de fechar a porta para que ninguém mais pudesse ver.
Lucy tentou recomeçar, mas não conseguia juntar as palavras. As lágrimas e os tremores tomavam conta de seu pequeno corpo.
— Ela ficará bem, senhorita — interveio Anne. — Leva algumas horas, mas ela acaba se acalmando depois que tudo volta ao normal. Se continuar neste estado, podemos levá-la para a ala hospitalar.
Depois, baixou o tom de voz e acrescentou:
— Só que Lucy não quer isso. Se eles julgam que não serve como criada, acabam escondendo você na lavanderia ou na cozinha. E Lucy gosta daqui.
Será que Anne achava que estava sendo discreta? Estávamos todas ao redor de Lucy, que ouviu perfeitamente essas palavras.
— P-p-por favor, senhorita... Nã-não...
— Ninguém vai denunciá-la — garanti a ela. Depois, dirigi-me a Anne e Mary: — Me ajudem a deitar Lucy na cama.
Pensávamos que seria fácil carregá-la em três, mas Lucy se contorcia e escorregava de nossas mãos. Deu um pouco de trabalho, mas conseguimos. Com Lucy embaixo dos cobertores, o conforto tratou de
fazer mais por ela do que nossas palavras conseguiriam. A tremedeira se tornou mais lenta, e ela mantinha os olhos fixos no dossel da cama.
Mary se sentou à beira da cama e começou a cantar baixinho, o que me fez lembrar muito do jeito que ninava May quando ela ficava doente. Puxei Anne de lado, longe dos ouvidos de Lucy, e perguntei:
— O que aconteceu? Alguém entrou?
Se tinha sido esse o caso, gostaria ao menos de ser informada.
— Não, não — assegurou Anne. — Lucy sempre fica assim quando os rebeldes vêm. Só falar neles já faz com que chore incontrolavelmente. Ela...
Anne baixou a cabeça e olhou para seus sapatos pretos engraxados, tentando decidir se devia contar mais. Eu não queria me intrometer na vida de Lucy, mas queria entender. Ela respirou fundo e começou:
— Algumas de nós nasceram aqui. Mary nasceu no castelo e seus pais ainda moram aqui. Eu sou órfã, fui acolhida porque o palácio precisava de mão de obra.
Ela endireitou o vestido, na tentativa de se desprender dessa parte de sua história que parecia incomodá-la.
— Lucy — prosseguiu — foi vendida para o palácio.
— Vendida? Como assim? Não há escravos aqui.
— Oficialmente, não. Mas isso não quer dizer nada. A família de Lucy precisava de dinheiro para a cirurgia da mãe. Então ela e o pai ofereceram seus serviços a uma família de Três. A mãe nunca melhorou, e eles não conseguiram pagar a dívida. Lucy e o pai serviram aquela família por anos. Pelo que sei, a vida deles não era muito melhor que a de animais em um estábulo. Mas o filho dessa família se afeiçoou a Lucy, e eu sei que algumas vezes o amor não olha castas, mas a distância entre os Seis e os Três é bem grande. Quando a mãe do rapaz descobriu suas intenções, vendeu Lucy e o pai para o palácio. Eu me lembro de sua chegada. Ela chorou por vários dias. Os dois deviam estar muito apaixonados.
Olhei para Lucy. Pelo menos no meu caso, um de nós tinha tomado uma decisão. Já ela não teve escolha quando perdeu o homem que amava.
— O pai de Lucy trabalha no estábulo. Não é forte nem rápido, mas
tem uma dedicação incrível. E Lucy é uma criada. Sei que pode parecer tolice, mas é uma honra ser criada do palácio. Somos a linha de frente, consideradas suficientemente aptas, inteligentes e bonitas para serem vistas por qualquer visitante. Levamos nosso emprego muito a sério por um motivo: se fizermos alguma besteira, acabamos na cozinha, onde as mãos ficam ocupadas o dia todo e as roupas são uns farrapos. Podemos ainda acabar cortando lenha ou recolhendo folhas de árvores no chão. Não é pouco ser criada.
Eu me senti bem burra. Para mim, todas eram apenas Seis. Mas existiam ainda subdivisões, hierarquias que eu ignorava.
— Há dois anos, o palácio foi atacado no meio da noite. Rebeldes tomaram os uniformes dos guardas e todos ficaram confusos. Tamanha foi a bagunça que ninguém sabia quem atacar ou defender, e as pessoas caíam em buracos cavados na linha de frente. Foi terrível.
Tremi só de pensar. A falta de luz, a confusão, a imensidão do palácio. Comparado ao ataque da manhã, parecia ser obra dos sulistas.
— Um dos rebeldes capturou Lucy.
Anne baixou os olhos por um minuto. E pronunciou em voz baixíssima as seguintes palavras:
— Não sei se eles têm muitas mulheres à disposição, se é que a senhorita me entende.
— Ah...
— Não vi pessoalmente, mas Lucy contou que era um homem imundo. Disse que ele lambia o rosto dela.
Anne retesou o corpo ao imaginar a cena. Meu estômago deu voltas, ameaçando devolver o café da manhã. Era uma das coisas mais revoltantes em que eu conseguia pensar, e compreendi então por que Lucy, depois de sofrer tanto, desmontava com ataques como o daquele dia.
— O rebelde arrastou Lucy para algum lugar. Ela gritava o mais alto que podia, mas era difícil ouvir em meio àquela agitação. Um guarda que estava no corredor escutou os gritos. Mirou e acertou uma bala bem na cabeça do homem. O rebelde caiu por cima de Lucy, e ela ficou presa embaixo dele. O corpo dela ficou coberto de sangue.
Levei a mão à boca. Não podia imaginar a pequena e delicada Lucy passando por tudo aquilo. Não era de estranhar que tivesse reagido daquela forma.
— Os machucados foram tratados, mas ninguém cuidou de sua mente. Hoje ela é uma pilha de nervos, mas faz o possível para esconder. Não apenas para seu bem, mas também pelo bem de seu pai. Ele tem orgulho de saber que a filha é boa o suficiente para ser criada. Tentamos manter Lucy calma, mas sempre que os rebeldes chegam ela pensa que vai ser pior, que dessa vez vão pegá-la, feri-la, matá-la. Ela está tentando, senhorita, mas não sei por quanto tempo vai aguentar.
Concordei com a cabeça e voltei os olhos para Lucy na cama. Ela tinha fechado os olhos e adormecido, apesar de ainda ser bem cedo.
Passei o resto do dia lendo. Anne e Mary limparam coisas que não estavam sujas. Ficamos quietas enquanto Lucy se recuperava.
Prometi a mim mesma que, no que dependesse de mim, Lucy nunca mais passaria por aquilo.