19/12/2013

Capitulo 11

Os cinegrafistas deram uma volta pela sala e depois nos deixaram aproveitar o café da manhã em paz, não sem filmar o príncipe antes de saírem.
Eu estava um pouco perturbada com aquela eliminação súbita, mas Joseph não parecia inquieto. Ele comia tranquilamente, e ao vê-lo lembrei que seria bom acabar meu prato antes que esfriasse. Como antes, estava bom demais. O suco de laranja era tão puro que eu fazia questão de tomar goles pequenos, só para aproveitar melhor. Os ovos e o bacon pareciam vindos do céu, e as panquecas estavam perfeitas, não finas como as que eu fazia em casa.
Escutei montes de pequenos suspiros pela sala e soube que não era a única que tinha gostado da comida. Sem me esquecer de usar o pegador, tirei um pedaço de torta de morango do cesto que estava no centro da mesa. Ao fazer isso, corri os olhos pela sala para ver se as outras Cinco estavam gostando da refeição. Foi quando notei que era a única delas que havia restado.
Eu não sabia se Joseph tinha consciência disso — ele parecia mal saber nossos nomes —, mas era estranho o fato de as outras duas terem saído. Se eu não tivesse conhecido o príncipe antes de entrar naquele salão, teria sido chutada também? Ruminei essa ideia com o pedaço de torta de morango na minha boca. Era tão doce e a massa folheada estava tão macia que cada milímetro de minha boca se concentrou nela, consumindo todos os meus outros sentidos. Não queria ter soltado nenhum ruído, mas aquela torta era sem dúvida a coisa mais deliciosa que já provara. Dei outra mordida antes mesmo de engolir o que tinha na boca.
— Senhorita Demetria? — uma voz me chamou.
As outras cabeças da sala viraram na direção dela, que pertencia ao príncipe Joseph. Fiquei chocada por ele se dirigir a mim, ou a qualquer uma de nós, de maneira tão informal na frente de todos.
O pior de ter sido chamada assim de supetão era que minha boca estava cheia de comida. Cobri-a com a mão e mastiguei o mais rápido que pude. Não levou nem dez segundos, mas com tantos olhos postos em mim, pareceu uma eternidade. Notei o rosto orgulhoso de Celeste enquanto tentava limpar a boca. Ela deve ter achado que eu era uma presa fácil.
— Sim, Majestade? — respondi assim que engoli a maior parte da comida.
— O que está achando da comida?
Joseph estava prestes a rir, ou por causa da minha cara de assustada ou por causa do detalhe que havia levantado sobre nossa primeira e altamente ilegal conversa.
Tentei me manter calma.
— Excelente, Majestade. Esta torta de morango... bem, tenho uma irmã que gosta mais de doces do que eu. Acho que ela choraria se a experimentasse. Está perfeita.
Joseph engoliu um bocado de sua própria comida e recostou na cadeira.
— Acha mesmo que ela choraria?
O príncipe parecia maravilhado com a ideia. Ele tinha uma relação estranha com as mulheres e seu choro.
Pensei na resposta e confirmei.
— Sim, é isso que eu acho. Ela não consegue controlar muito bem suas emoções.
— Você apostaria dinheiro nisso? — ele perguntou rapidamente.
As cabeças de todas as meninas viravam de um lado para outro, como
se elas estivessem assistindo a uma partida de tênis.
— Se tivesse dinheiro para apostar, com certeza o faria — respondi. Agradou-me a ideia de apostar sobre as lágrimas de alegria alheias.
— E o que gostaria de apostar em vez disso? A senhorita parece ter um talento para os acordos.
Ele estava gostando do jogo. Muito bem. Então eu ia jogar.
— Bem, o que Vossa Alteza quer? — rebati. Depois, fiquei pensando no que poderia dar a alguém que já tinha absolutamente tudo.
— O que a senhorita quer? — ele replicou.
Ali estava uma pergunta fascinante. Quase tanto quanto pensar no que eu poderia oferecer a Joseph era pensar no que ele poderia me oferecer. O príncipe tinha o mundo a seus pés. Então, o que ia escolher?
Não era da Um, mas estava vivendo como se fosse. Tinha mais comida do que podia dar conta e a cama mais confortável possível. As pessoas me serviam o tempo todo, mesmo que eu não quisesse. Se eu precisasse de algo, bastava pedir.
A única coisa que realmente queria era algo que fizesse aquele lugar parecer menos um palácio. Queria minha família correndo pelos corredores, ou não estar tão arrumada. Não podia pedir uma visita, porque só tinha passado um dia ali.
— Se ela chorar, quero usar calça por uma semana — propus.
Todo mundo riu, de maneira discreta e educada. Até o rei e a rainha pareciam ter achado meu pedido divertido. Gostei de como a rainha me olhou, como se eu tivesse me tornado menos estranha a seus olhos.
— Feito — afirmou Joseph. — E, se ela não chorar, a senhorita me deve um passeio pela propriedade amanhã à tarde.
Um passeio pela propriedade? Era isso? Não parecia nada especial. Lembrei-me do que Joseph havia dito na noite anterior: ele era vigiado. Talvez apenas não soubesse pedir um encontro a sós com alguém. Talvez esse fosse seu jeito de navegar em águas muito estranhas para ele.
Alguém perto de mim soltou um resmungo. Ah! Percebi que, se perdesse, seria a primeira garota ali a ter um encontro oficial a sós com o príncipe. Parte de mim quis renegociar, mas se era para ajudar — como
prometido — eu não podia rejeitar suas tentativas de ficar comigo.
— Alteza, seus termos são severos, mas eu os aceito — afirmei.
— Justin?
O mordomo com quem ele tinha conversado antes deu um passo à frente.
— Embrulhe as tortas de morango e envie-as para a família da senhorita Demetria. Peça que alguém espere enquanto a irmã experimenta e nos informe se ela, de fato, chora. Estou curiosíssimo quanto a isso.
Justin apenas sacudiu a cabeça e saiu.
— A senhorita deveria escrever um bilhete dizendo que está bem para acompanhar o embrulho. Na verdade, todas vocês deveriam escrever a suas famílias. Façam isso depois do café. Garantiremos que as cartas sejam entregues ainda hoje.
Todas as garotas sorriram e respiraram aliviadas, felizes de finalmente serem incluídas nos acontecimentos. Terminamos o café e fomos escrever as cartas. Anne me arranjou material de escritório, e escrevi um bilhete à minha família. Embora o começo no castelo tivesse sido bem estranho, a última coisa que eu queria era preocupá-los. Tentei parecer contente.
Queridos papai, mamãe, Maddie e Frankie,
Já sinto tanta falta de vocês! O príncipe pediu que escrevêssemos para casa contando a nossa família que estamos seguras e bem. Eu realmente estou. A viagem de avião foi um pouco assustadora, mas de certo modo divertida também. O mundo parece tão pequeno lá de cima!
Ganhei montes de roupas e coisas maravilhosas, e tenho três criadas adoráveis que me ajudam a me vestir, limpam meu quarto e me dizem para onde devo ir. Assim, mesmo que eu fique completamente perdida, elas sempre sabem onde devo estar e me ajudam a chegar na hora.
A maioria das garotas é tímida, mas acho que fiz uma amiga. Lembram-se de Miley, de Kent? Eu a conheci a caminho de Angeles. Ela é incrível e adorável. Se eu acabar voltando para casa mais cedo, espero que ela fique até o fim.
Conheci o príncipe; o rei e a rainha também. Eles são ainda mais nobres em pessoa. Ainda não conversei com o casal real, só com o príncipe Joseph. Ele é uma pessoa surpreendentemente generosa... eu acho.
Preciso parar por aqui, mas amo todos vocês e sinto saudades. Escrevo de novo assim que puder.
Com amor,
Demetria
Não achei que havia nada de surpreendente no texto, mas podia estar errada. Fiquei imaginando Maddie lendo e relendo a carta várias vezes, à procura de detalhes escondidos da minha vida nas entrelinhas. Será que ela leria antes de comer as tortas?
P.S.: Maddie, essas tortas de morango não fazem você chorar de tão boas? Pronto. Era o melhor que eu podia fazer.
Mas parece que não tinha sido bom o bastante. Um mordomo bateu à minha porta naquela tarde com uma carta da minha família e uma informação.
— Ela não chorou, senhorita. Disse que estava tão boa que poderia ter feito isso, como a senhora sugeriu, mas não o fez de fato. Sua Majestade virá buscá-la em seu quarto por volta das cinco da tarde de amanhã. Por favor, esteja preparada.
Não fiquei tão irritada por perder, mas teria gostado de poder usar calça. Mas pelo menos tinha as cartas da minha família. Eu me dei conta de que era a primeira vez que me separava deles por mais que algumas horas. Não tínhamos dinheiro para viajar, e como não tive amigos, nunca passara uma noite fora. Se ao menos houvesse um meio de receber cartas todos os dias... Talvez fosse até possível, mas sairia caro.
Li primeiro a carta do meu pai. Ele insistia em dizer que eu estava linda na TV e que ele tinha orgulho de mim. Dizia também que eu não deveria ter enviado as três caixas de torta porque Maddie ia acabar mimada.
Três caixas! Meu Deus!
Depois, ele contou que Nicholas passara em casa para ajudar com as tarefas de escritório e levara uma das caixas para sua família. Eu não sabia como me sentir com relação a isso. Por um lado, estava feliz por terem algo decente para comer. Por outro, imaginava Nicholas dividindo a torta com sua nova namorada. Uma namorada que ele podia mimar. Eu me perguntava se ele tinha ficado com ciúme do presente de Joseph ou se estava feliz por se livrar dos meus cuidados.
Detive-me naquelas linhas muito mais do que gostaria.
Meu pai concluiu dizendo estar contente por eu ter feito uma amiga, lembrando que sempre tinha sido devagar nesse quesito. Dobrei a carta e passei o dedo pela assinatura do lado de fora do envelope. Nunca tinha notado como sua assinatura era esquisita.
A carta de Frankie era curta e grossa: ele sentia minha falta, dizia que me amava e pedia que eu mandasse mais comida. Dei boas gargalhadas.
Minha mãe foi mandona. Dava para notar seu tom de voz mesmo no texto escrito, naquele seu jeito orgulhoso de dar os parabéns por ter conquistado a atenção do príncipe — Justin contara que minha carta tinha sido a única a ser acompanhada de presentes — e de sugerir que eu continuasse fazendo o que quer que estivesse fazendo.
Claro, mãe. Vou continuar dizendo ao príncipe que ele não tem chance comigo e a ofendê-lo sempre que possível. Excelente plano.
Fiquei feliz por ter guardado a carta de Maddie para o fim.
Era muito animada. Ela admitiu que tinha ficado com inveja ao saber que eu comia coisas daquele tipo o tempo todo. Também reclamou que mamãe estava ainda mais mandona com ela. Eu sabia como era. De resto, havia um bombardeio de perguntas: Joseph era tão bonito pessoalmente como na TV? Que roupa eu estava usando naquele momento? Ele tinha um irmão secreto disposto a se casar com ela algum dia?
Ri e abracei as cartas. Tinha que me esforçar para respondê-las logo. Devia haver um telefone em algum lugar, tão distante que ninguém nem o mencionou. Mesmo que houvesse um aparelho em meu quarto, seria loucura ligar todos os dias. Mas eu ia conservar aquelas cartas. Seriam
provas de que eu tinha estado ali quando aquele lugar se tornasse uma vaga lembrança.
Fui para a cama reconfortada por saber que minha família ia bem, e essa ternura acalentou um sono gostoso, perturbado apenas pelo incômodo de saber que teria que ficar a sós com Joseph outra vez. Não sabia muito bem o motivo disso, mas esperava que não fosse nada de mais.
— Em nome das aparências, você poderia segurar meu braço? — o príncipe pediu ao me buscar no quarto no dia seguinte. Hesitei um pouco, mas cedi.
As criadas já tinham posto em mim um vestido para o fim de tarde: era azul, acinturado e de alcinha. Meus braços ficavam nus, e eu podia sentir o tecido engomado do terno de Joseph roçar minha pele. Algo nisso tudo me deixava desconfortável. Ele deve ter notado, porque tentava me distrair.
— Sinto muito que ela não tenha chorado.
— Não, não sente — meu ar brincalhão deixava claro que eu não estava muito chateada por ter perdido.
— Nunca tinha apostado antes. Foi bom ganhar.
Havia como que um pedido de desculpas no tom de sua voz.
— Sorte de principiante.
Ele sorriu.
— Talvez da próxima vez possamos apostar se ela ri.
Comecei imediatamente a levantar hipóteses em minha cabeça. O que no palácio faria Maddie rolar de rir?
Joseph adivinhou que eu estava pensando nela.
— Como é sua família?
— O que você quer dizer?
— Só isso mesmo. Sua família deve ser bem diferente da minha.
— Eu diria que sim — respondi entre risos. — Para começo de conversa, ninguém em casa usa coroa no café da manhã.
Joseph sorriu de novo.
— Vocês usam coroa apenas no jantar?
— Mas é claro.
Ele soltou uma risada baixa. Comecei a pensar que o príncipe talvez estivesse bem longe de ser o esnobe que eu supunha.
— Bem, sou a filha do meio de cinco irmãos.
— Cinco!
— Sim, cinco. A maioria das famílias por aí tem montes de filhos. Eu teria vários se pudesse.
— Mesmo?
Joseph ergueu as sobrancelhas.
— Sim — afirmei em voz baixa.
Não sabia dizer bem o motivo, mas aquele era um detalhe muito íntimo da minha vida. Só havia outra pessoa que o conhecia. Senti um espasmo de tristeza, mas o afastei.
— Não importa. Minha irmã mais velha, Dallas, é casada com um Quatro. Ela trabalha numa fábrica agora. Minha mãe quer que eu me case ao menos com um Quatro, mas não quero ser forçada a parar de cantar. Amo a música, mas se agora sou uma Três. É estranho... Acho que vou tentar permanecer na música, se puder.
E continuei falando.
— Depois vem Logan. Ele é artista. Não o temos visto muito. Ele foi se despedir de mim, mas é só. Depois eu.
Joseph deu um sorriso fácil.
— Demetria Singer — ele anunciou —, minha melhor amiga.
— Isso mesmo — respondi enfadada.
Não havia chance de eu ser a melhor amiga do príncipe. Pelo menos não ainda. Mas eu tinha que admitir: ele era a única pessoa em quem eu realmente confiava que não fazia parte da minha família nem era meu namorado. Bem, eu também confiava em Miley. Será que ele pensava o mesmo de mim?
Caminhávamos lentamente em direção à escada. Ele parecia não ter pressa alguma.
— Depois de mim vem Maddie. É a que me traiu e não chorou. Para ser sincera, fui roubada. Não acredito que ela não tenha chorado! Maddie é uma artista... e eu a amo muito. Joseph examinava meu rosto. Falar de Maddie me deixava mais leve. Eu já gostava mais dele, mas não sabia se queria deixá-lo entrar na minha vida.
— Por fim, vem Frankie, meu irmão caçula de sete anos. Ele ainda não sabe direito se vai para a música ou para outras artes. Na verdade, ele gosta de jogar bola e estudar insetos, o que é bom. Só que não vai conseguir ganhar dinheiro com isso. Bem, já falei de todos.
— E os seus pais?
— E os seus pais? — rebati.
— Você conhece meus pais.
— Não. Conheço a imagem pública deles. Como eles são de verdade?
Forcei seus braços para baixo. Uma façanha, já que eram enormes. Mesmo sob as camadas de roupa, dava para sentir seus músculos fortes e retesados. Joseph suspirou, mas percebi que não o tinha irritado nem um pouco. Ele parecia gostar de ter alguém para infernizá-lo. Devia ser triste crescer sem irmãos naquele lugar.
O príncipe começou a pensar em sua resposta assim que pusemos os pés no jardim. Os guardas abriam sorrisinhos maliciosos à nossa passagem. Um pouco mais adiante estava a equipe de filmagem. Claro que eles queriam estar presentes no primeiro encontro do príncipe. Com um movimento de cabeça, Joseph fez todos se retirarem imediatamente para dentro. Escutei alguém xingar. Não que eu estivesse ansiosa para ser filmada, mas estranhei a dispensa.
— Você está bem? Parece tensa — comentou Joseph.
— Você fica confuso com choro de mulher, e eu com caminhadas ao lado de príncipes — disse, dando de ombros.
Joseph riu baixo, mas permaneceu calado. Caminhávamos na direção oeste. O sol se escondia atrás da enorme floresta da propriedade, embora ainda fosse cedo. A sombra nos cobriu como uma tenda de escuridão. Era ali que gostaria de ter ido na noite em que o encontrei pela primeira vez. Parecíamos estar realmente a sós agora. Continuamos a caminhar, para longe do palácio e dos ouvidos dos guardas.
— Por que deixo você confusa?
Hesitei, mas contei o que sentia:
— Seu caráter. Suas intenções. Não sei direito o que esperar dessa nossa voltinha.
— Ah.
Ele parou de andar e me encarou. Estávamos bem próximos. Apesar da brisa quente de verão, um calafrio percorreu minha espinha.
— Acho que você já percebeu que não sou um homem que se esconde. Vou dizer exatamente o que quero de você.
Joseph deu um passo em minha direção.
Minha respiração parou. Eu acabara de me meter na situação que mais temia. Nada de guardas, nada de câmeras, ninguém para evitar que ele fizesse sua vontade.
Meu joelho reagiu automaticamente. Sim. Dei uma joelhada na coxa de Sua Majestade. Com força.
Ele berrou e levou as mãos à perna, cambaleando enquanto me afastava.
— Por que fez isso?
— Se encostar um dedo em mim, vou fazer pior! — ameacei.
— O quê?
— Se você encostar um dedo em mim...
— Não, sua louca. Eu ouvi da primeira vez — ele interrompeu, com uma careta de dor. — Mas o que quer dizer com isso?
Meu corpo foi tomado pelo calor. Eu havia pensado no pior e lutava contra algo que não tinha a menor chance de acontecer.
Os guardas acorreram, alertados por nossa briguinha. Joseph, meio envergado e capenga, deu um sinal para que voltassem.
Permanecemos em silêncio por alguns momentos. Ele já tinha superado o pior da dor e passara a me observar.
— O que achou que eu queria? — o príncipe perguntou.
Abaixei a cabeça e corei.
— Demetria, o que você achou que eu queria?
Sua voz soava irritada. Mais que isso: ofendida. Obviamente, ele adivinhara meus pensamentos e não gostara nada deles.
— Em público? Você pensou... por Deus! Eu sou um cavalheiro!
Ele ameaçou sair, mas voltou.
— Por que se ofereceu para ajudar se me considera tão baixo?
Eu não conseguia encará-lo. Não sabia como explicar que fora induzida a me preparar para um monstro; que a escuridão e a privacidade tinham me deixado insegura; que só havia ficado a sós com um único garoto.
— Você jantará em seu quarto hoje. Cuido disso amanhã de manhã.
Esperei no jardim até ter certeza de que todas as outras já estavam na sala de jantar. Em seguida, circulei pelo corredor antes de entrar no quarto. Annie, Mary e Lucy estavam uma ao lado da outra quando entrei. Não tive coragem de contar que não passara todo aquele tempo com o príncipe.
Meu jantar já havia sido servido na mesa perto da sacada. Eu estava com tanta fome que consegui parar de pensar em como tinha sido ridícula. Mas não era por causa de minha longa ausência que elas estavam inquietas. Havia uma caixa enorme na minha cama, implorando para ser aberta.
— Podemos ver? — pediu Lucy.
— Lucy! Que falta de educação! — reprovou Anne.
— Deixaram aqui assim que a senhorita saiu. Desde então, estamos curiosas! — exclamou Mary.
— Mary! Tenha modos! — ralhou Anne.
— Não se preocupem, meninas. Não tenho segredos.
Quando me enxotassem na manhã seguinte, eu explicaria tudo a elas.
Dei um sorriso amarelo e comecei a desfazer o laço grande e vermelho da caixa. Dentro havia três calças. Uma de linho, outra mais formal, de tecido macio, e um jeans maravilhoso. Sobre elas, havia um cartão com o brasão de Illéa.

Você pede coisas tão simples que sou incapaz de negá-las. Mas, por mim, use apenas aos sábados.
Obrigado por sua companhia.
De seu amigo,
Joseph

13/12/2013

Capitulo 10

Na manhã seguinte, não despertei com o som da entrada das criadas — elas já estavam lá — ou com o barulho da água sendo preparada para o meu banho — que já estava pronto. Despertei, na verdade, com a luz que atravessava aos poucos minha janela à medida que Anne puxava delicadamente as cortinas ricas e pesadas. Ela murmurava uma canção, absolutamente feliz com sua tarefa.
Já eu não estava pronta para me mover. Meu corpo custou a esfriar depois de tanta agitação e ainda mais a relaxar depois que compreendi o que aquela conversa no jardim acarretaria. Se eu tinha uma chance, precisava pedir desculpas. Seria um milagre se o príncipe permitisse isso.
— Senhorita? Está acordada?
— Nãããããão — grunhi do travesseiro.
Tinha dormido bem menos que o necessário e minha cama era confortável demais. Mas Anne, Mary e Lucy riram do meu grunhido, o que bastou para me fazer sorrir e decidir me mexer.
Aquelas três garotas provavelmente seriam as mais fáceis de lidar durante minha temporada no palácio. Eu me perguntava se elas se tornariam minhas confidentes, ou se o treinamento e a etiqueta as impediria de compartilhar até uma xícara de chá comigo. Embora tivesse nascido na casta Cinco, eu me passava por uma Três agora. E o fato de serem criadas significava que elas eram Seis. Mas eu não tinha problemas
com isso. Gostava da companhia dos Seis.
Dirigi-me lentamente para aquele banheiro gigantesco, e cada passo ecoava na vastidão de azulejos e vidros. Pelo espelho dava para ver que Lucy observava as manchas de terra na minha camisola. E os olhos cuidadosos de Anne também as detectaram. Por último, foi a vez de Mary notar. Ainda bem que nenhuma delas fez perguntas. Pensei que elas tentavam se intrometer na minha vida com suas indagações do dia anterior, mas eu estava errada. Era óbvio que estavam extremamente preocupadas com meu conforto. Perguntas sobre o que eu fazia fora do quarto — quanto mais do palácio — seriam bem esquisitas.
Elas apenas tiraram minha camisola com cuidado e me acompanharam até a banheira.
Eu não estava acostumada a ficar nua com outras pessoas por perto — nem mesmo minha mãe ou Maddie —, mas aparentemente não havia como fugir disso ali. As três iam me vestir enquanto eu permanecesse no palácio, de modo que teria que aguentar até partir. Ficava imaginando o que aconteceria a elas quando eu saísse. Seriam destinadas a outras garotas que precisassem de mais atenção conforme a competição afunilava? Será que elas tinham outras funções no palácio e haviam sido temporariamente dispensadas delas? Não seria educado perguntar o que faziam antes ou sugerir que em breve eu sairia, então fiquei calada.
Depois do banho, Anne secou meu cabelo, prendendo metade dele no alto da cabeça com as fitas que eu trouxera de casa. Sua cor azul acentuou as estampas floridas de um dos vestidos que haviam criado para mim. Então escolhi usá-lo. Mary fez minha maquiagem, leve como a do dia anterior, e Lucy passou loção nos meus braços e nas minhas pernas.
Havia uma série de joias à minha escolha, mas resolvi pedir minha própria caixinha. Eu tinha um pequeno colar com um passarinho que era presente de meu pai. O pingente era prateado e combinava com meu broche. Acabei escolhendo um par de brincos do inventário real, mas provavelmente peguei os menores da coleção.
Anne, Mary e Lucy sorriram diante do resultado. Tomei isso como um sinal de que estava decente o bastante para descer para o café. Com
reverências e sorrisos, as três me desejaram sorte antes de eu sair. As mãos de Lucy ainda tremiam.
Fui para o vestíbulo no alto da escadaria onde todas havíamos nos encontrado. Fui a primeira a chegar, então me sentei em um pequeno sofá para esperar as outras. Aos poucos, elas começaram a dar as caras. Logo percebi a tendência: todo mundo estava fenomenal. Elas tinham tirado o cabelo do rosto, fazendo tranças e cachos intrincados. A maquiagem fora feita com esmero, e os vestidos tinham sido passados com perfeição.
Eu provavelmente tinha escolhido meu vestido mais simples para o primeiro dia. As demais, por outro lado, procuravam chamar a atenção. Vi duas meninas chegarem ao vestíbulo e perceberem que estavam com vestidos muito parecidos. Ambas deram meia-volta e foram trocar de roupa. Todo mundo queria se destacar e ia conseguir, à sua maneira. Até eu.
Todas pareciam ser Um. Eu parecia uma Cinco com um vestido bonito. Pensei ter demorado muito tempo para me arrumar, mas as outras garotas demoraram muito, mas muito mais. Quando Silvia chegou para nos acompanhar à sala de jantar, ainda tivemos que esperar Blanda e Tiny, que, fazendo jus à fama, quiseram ajustar os vestidos de manhã.
Uma vez reunidas, começamos a caminhar na direção das escadas. Havia um espelho dourado na parede e demos uma última olhada no visual antes de descer. Vi meu reflexo ao lado de Miley e Tiny. Eu estava mesmo bem simples.
Pelo menos me sentia eu mesma, o que era um pequeno consolo.
Descemos as escadas na expectativa de ser levadas até a sala de jantar, onde faríamos as refeições, segundo tinham dito. Em vez disso, fomos guiadas direto para o Grande Salão, que estava preenchido com fileiras de mesas individuais, cada uma com pratos, copos e talheres. Mas não havia comida. Nem mesmo um cheirinho esperançoso. No canto da frente, encaixado na parede, notei um pequeno jogo de sofás. Um punhado de cinegrafistas espalhados pelo salão filmava nossa chamada.
Entramos em fila e sentamos onde queríamos, já que não havia lugares marcados. Miley estava na fileira em frente à minha, e Taylor se sentou ao meu lado. Por mim, tudo bem. Parecia que várias meninas tinham feito pelo menos uma aliada, e eu via uma em Miley. Taylor escolheu o assento ao meu lado dando a entender que queria minha companhia. Ainda assim, não abriu a boca. Talvez ainda estivesse chateada por causa do noticiário do dia anterior. Mas de novo permaneceu em silêncio quando nos encontramos. Talvez esse fosse apenas o jeito dela. Percebi que o pior que podia fazer era não responder quando eu falava, então resolvi pelo menos cumprimentá-la.
— Taylor, você está ótima.
— Ah, obrigada — ela agradeceu calmamente.
Ambas nos certificamos de que as equipes de filmagem estavam longe. Não que nossa conversa fosse particular, mas quem queria que eles estivessem em cima o tempo todo?
— Não é divertido usar todas essas joias? Onde estão as suas? — ela perguntou.
— Humm, eram pesadas demais para o meu gosto. Decidi vir mais leve.
— Elas são pesadas mesmo! Sinto como se tivesse um peso de dez quilos na cabeça. Ainda assim, não ia perder a chance. Quem sabe por quanto tempo vamos ficar aqui?
Era estranho. Taylor parecia tranquila e confiante desde o começo. Sua aparência e seu modo de ser demonstravam que fora talhada para ser uma princesa de primeira. Era esquisito que duvidasse de si própria.
— Mas você não acha que vai ganhar? — perguntei.
— Acho — ela suspirou —, mas é falta de educação dizer isso!
Taylor deu uma piscadela, e eu ri. Isso chamou a atenção de Silvia, que tinha acabado de entrar.
— Tsc, tsc. Uma dama nunca ergue a voz além de um leve suspiro.
Todo e qualquer murmúrio cessou. Fiquei imaginando se as câmeras tinham captado meu erro. Minhas bochechas esquentaram.
— Olá mais uma vez, senhoritas. Espero que tenham tido uma noite de muito descanso após o primeiro dia no palácio, porque é agora que nosso trabalho começa. Hoje, começarei a ensinar a vocês etiqueta e
comportamento. Será um processo que durará todo o tempo que as senhoritas ficarem aqui. Por favor, saibam que qualquer mau comportamento de sua parte será relatado imediatamente à família real. Sei que parece cruel, mas este não é um joguinho qualquer. Alguém desta sala será a próxima princesa de Illéa. Não é uma tarefa fácil. As senhoritas devem procurar se elevar, não importa sua condição prévia. Serão damas de alto a baixo. E, nesta manhã mesmo, receberão sua primeira aula. É muito importante ter modos à mesa, e antes de fazer uma refeição na presença da família real, as senhoritas devem conhecer a etiqueta. Quanto mais rápido terminarmos a aula, mais rápido as senhoritas tomarão seu café da manhã. Assim sendo, levantem o rosto, por favor.
Silvia começou a explicar que seríamos servidas pela direita, qual copo deveríamos usar para cada bebida e que nunca, jamais, deveríamos pegar um pedaço de bolo com as mãos. Deveríamos sempre usar o pegador. As mãos deveriam permanecer no colo quando não eram usadas, sobre o guardanapo. Não deveríamos falar a não ser que alguém falasse conosco. Claro, poderíamos conversar em tom baixo com as pessoas ao lado, mas sempre a uma altura adequada ao palácio. Ela me encarou com seriedade ao passar essa última instrução.
Silvia continuava a falar com seu tom de voz elegante, atiçando meu estômago. Eu estava acostumada a fazer três refeições em casa, ainda que a comida fosse pouca. Precisava de comida. Já estava ficando um pouco emburrada quando escutei alguém bater à porta. Dois guardas abriram caminho, e então o príncipe Joseph entrou.
— Bom dia, senhoritas — ele disse.
O alvoroço no salão foi evidente: umas endireitaram as costas, outras tiraram o cabelo do rosto e algumas ainda ajeitaram o vestido. Não olhei para Joseph, mas para Taylor, cujo peito se movia em ritmo acelerado. Ela o observava de tal maneira que fiquei envergonhada de ter notado.
— Majestade — disse Silvia, com uma breve reverência.
— Olá, Silvia. Se não se importa, gostaria de me apresentar a essas jovens.
— Absolutamente — ela respondeu, inclinando-se mais uma vez.
O príncipe Joseph correu os olhos pelo salão e deparou comigo. Nossos olhares se encontraram por um instante e ele sorriu. Eu não esperava isso. Imaginava que já teria mudado de opinião sobre o modo que me tratara na noite anterior e que me daria uma bronca na frente de todas por causa do meu comportamento. Mas talvez ele não tivesse ficado nem um pouco irritado. Talvez tivesse me achado divertida. Com certeza ele ficava extremamente entediado ali. Não importava: aquele breve sorriso me fez acreditar que a experiência pudesse não ser tão ruim no fim das contas. Apeguei-me à decisão que tinha tomado na noite anterior e em minhas esperanças de que o príncipe ouvisse minhas desculpas.
— Senhoritas, se não lhes incomodar, chamarei cada uma de vocês para me conhecer individualmente. Estou certo de que estão com fome, assim como eu, de modo que não tomarei muito do seu tempo. Por favor, perdoem-me se demorar para gravar seus nomes. É que há muitas de vocês.
Houve uma explosão de risadas. Rapidamente, ele se dirigiu à garota na ponta direita da primeira fileira e a acompanhou até os sofás. Os dois conversaram por alguns minutos e se levantaram. Ele se inclinou diante dela, que devolveu a reverência. Ela voltou para sua mesa e falou com a garota ao lado, então o processo se repetiu. As conversas duravam poucos minutos e as vozes saíam abafadas. Ele queria conhecer as meninas em menos de cinco minutos.
— O que será que ele quer saber? — Miley perguntou virando-se para mim.
— Talvez a lista de atores que você acha mais bonitos. Faça uma lista mental agora — sussurrei de volta, e tanto Miley como Taylor riram baixo.
Não éramos as únicas conversando. Por todo o salão podiam-se ouvir vozes crescendo como um ruído suave à medida que tentávamos nos distrair até que nossa vez chegasse. Isso sem falar nos cinegrafistas que zanzavam pelo salão para perguntar às garotas sobre o primeiro dia no palácio, se tinham gostado das criadas e coisas do gênero. Quando pararam perto de Taylor e de mim, deixei que ela respondesse.
Eu observava o tempo todo o sofá enquanto cada uma das Selecionadas era entrevistada. Algumas permaneciam calmas e senhoris, outras pareciam nervosas de tanta emoção. Miley corou como um pimentão quando foi sua vez de ir até o príncipe e voltou radiante. Taylor ajustou o vestido diversas vezes, num tique nervoso. Eu estava começando a suar quando ela voltou, o que significava que era minha vez. Respirei fundo e me preparei. Ia pedir um favor enorme.
Ele se levantou para ler meu broche conforme eu me aproximava:
— Demetria, certo? — ele perguntou, com um sorriso brincalhão nos lábios.
— Sim, sou eu. E sei que já ouvi seu nome antes, mas poderia refrescar minha memória? — eu disse, pensando se era má ideia começar com uma piada, mas Joseph riu e me pediu que sentasse.
Ele se inclinou para a frente e perguntou:
— Você dormiu bem, minha querida?
Não sei a expressão que fiz quando ele me tratou assim, mas os olhos dele brilharam de entusiasmo.
— Ainda não sou sua querida — rebati, dessa vez com um sorriso. — Mas dormi. Assim que me acalmei, dormi muito bem. Minhas criadas tiveram que me derrubar da cama. Estava confortável demais.
— Fico feliz em saber que você estava confortável, minha... Demetria — ele se corrigiu.
— Obrigada — respondi.
Minhas mãos nervosas torciam a saia do vestido enquanto minha boca se preparava para dizer as palavras certas:
— Mil desculpas por ter sido grossa. Enquanto eu tentava dormir, tomei consciência de que, embora a situação me pareça estranha, não posso culpá-lo. Não é sua culpa que eu tenha me metido em tudo isso, e essa história de Seleção não é ideia sua. Além disso, você me tratou com simpatia naquele momento de dor, enquanto eu fui, bem, péssima. Poderia ter me expulsado ontem mesmo, mas não o fez. Obrigada.
O olhar de Joseph parecia terno. Aposto que todas as garotas antes de mim se derreteram quando ele as olhou assim. Já eu tendia a ficar
incomodada, mas era óbvio que aquele olhar era comum a ele. O príncipe abaixou a cabeça por um instante. Quando me olhou de novo, pôs os cotovelos nos joelhos e apoiou o queixo nas mãos, como se quisesse me fazer entender a importância do que estava por vir.
— Demetria, você tem sido muito sincera comigo até agora. É uma qualidade que admiro profundamente. Vou pedir-lhe que responda uma pergunta, se não for um incômodo.
Concordei com a cabeça, um pouco receosa do que ele podia querer saber. O príncipe se inclinou ainda mais na minha direção.
— Você diz que está aqui por engano. Isso me faz supor que não quer ficar. Há alguma possibilidade de nutrir qualquer tipo de... sentimento amoroso por mim?
Não pude evitar um leve tremor. Eu não queria de forma nenhuma magoá-lo, mas também não podia enrolar.
— Vossa Majestade é muito gentil e atraente... e atencioso.
Ele sorriu ao ouvir essas palavras. Continuei, em voz baixa.
— Mas tenho motivos muito pertinentes para achar que não.
— Poderia explicá-los? — seu rosto não demonstrava, mas sua voz revelou a decepção causada por minha rejeição imediata. Imaginei que ele não estava acostumado a isso.
Eu não queria falar dos motivos, mas não consegui pensar em outro modo de fazê-lo entender. Abaixando ainda mais a voz, contei a verdade:
— Acho... acho que meu coração está em outro lugar.
Senti meus olhos marejarem.
— Por favor, não chore! — sua voz baixa estava cheia de preocupação. — Nunca sei o que fazer quando as mulheres choram!
Isso me fez rir, e a ameaça de lágrimas bateu em retirada. Era impossível não notar a sensação de alívio no rosto dele.
— Você quer que eu lhe deixe voltar para seu amado hoje? — ele perguntou.
Era evidente que minha preferência por outro o incomodava, mas em vez de escolher o ódio, ele demonstrou compaixão. Esse gesto me fez confiar nele.
— Esse é o problema... Não quero ir para casa.
— Mesmo?
O príncipe levou as mãos à cabeça, e eu não pude deixar de rir de seu ar perdido.
— Posso ser totalmente sincera com você? — perguntei.
Ele concordou.
— Preciso ficar aqui. Minha família precisa de mim aqui. Mesmo que me deixasse ficar apenas uma semana, já seria uma dádiva para eles.
— Você quer dizer que precisa do dinheiro?
— Sim.
Senti-me mal por admitir. Talvez tivesse dado a impressão de que o estava usando. Na verdade, acho que estava mesmo. Mas prossegui:
— Também há... certas pessoas na minha província — levantei os olhos para ele — que eu não aguentaria ver no momento.
Joseph assentiu com a cabeça como quem tinha entendido, mas não disse nada.
Hesitei. Pensei que o pior que podia acontecer seria mesmo ir embora. Então continuei:
— Se me permitir ficar, mesmo que por pouco tempo, podemos fazer um trato — propus.
Ele arregalou os olhos:
— Um trato?
Mordi os lábios:
— Se me deixar ficar... — eu estava prestes a dizer algo bem idiota, mas prossegui. — Tudo bem, veja só. Você é o príncipe. Fica ocupado o dia inteiro ajudando a administrar o país e tal, e agora tem que encontrar tempo para escolher uma entre trinta e cinco, ou melhor, trinta e quatro garotas. É pedir muito, não acha?
Ele concordou. Dava para notar que se cansava só de pensar nisso.
— Não acha que seria muito melhor se tivesse alguém aqui dentro? Alguém para ajudar? Tipo... uma amiga?
— Uma amiga? — ele perguntou.
— Sim. Se me deixar ficar, posso ajudar. Serei sua amiga.
Minhas palavras o fizeram sorrir. Retomei minha proposta:
— Não precisa se incomodar em correr atrás de mim. Já sabe que não sinto nada por você. Mas pode falar comigo a qualquer momento e tentarei ajudar. Ontem à noite você disse que estava em busca de uma confidente. Bem, posso ser essa pessoa enquanto não encontrar a definitiva. Se quiser...
Seu rosto demonstrava um afeto contido.
— Conheci quase todas as garotas deste salão e não penso em outra que seria uma amiga melhor que a senhorita. Será um prazer deixá-la ficar.
É impossível descrever o alívio que senti.
— Você acha — perguntou Joseph — que eu ainda posso chamá-la de “minha querida”?
— Sem chance — cochichei.
— Continuarei tentando. Não costumo desistir — garantiu, e acreditei em suas palavras. Ia ser muito chato se ele continuasse mesmo com aquela história.
— Você chamou todas de “minha querida”? — perguntei, voltando o rosto para o resto do salão.
— Sim, e todas parecem ter gostado.
— É exatamente por isso que eu não gostei.
Eu me levantei. Joseph ainda ria quando deixou seu sofá. Normalmente eu faria cara feia, mas era até divertido. Ele fez uma reverência. Eu a devolvi e voltei ao meu lugar.
Estava com tanta fome que o tempo que o príncipe gastou para entrevistar as moças das outras fileiras pareceu uma eternidade. Mas por fim a última garota estava de volta ao seu lugar, e eu já sonhava ansiosamente com meu primeiro café da manhã no palácio.
Joseph então caminhou até o centro do salão.
— Aquelas a quem pedi que permanecessem, por favor, fiquem em seus lugares. As outras podem acompanhar Silvia até a sala de jantar. Em breve vou juntar-me a vocês.
Ele tinha pedido que algumas ficassem? Será que aquilo era bom?
Levantei-me como a maioria das outras e comecei a caminhar. Ele
provavelmente só queria passar mais um momento com as que ficariam. Vi que Taylor era uma delas. Sem dúvida ela era especial, tinha nascido com a aparência de uma princesa. Não cheguei a conhecer as demais. Não que elas quisessem me conhecer. As câmeras ficaram para trás a fim de capturar aquele momento — o que quer que fosse — que estava para ocorrer. O resto de nós seguiu seu caminho.
Entramos na sala dos banquetes e lá estavam, com um ar mais majestoso que nunca, o rei Clarkson e a rainha Amberly. Também estavam ali mais câmeras, prontas para captar nosso primeiro encontro com o casal real. Hesitei, pensando se deveríamos voltar para a porta e esperar que nos chamassem para entrar. Mas quase todas as meninas — também um pouco hesitantes — avançaram. Fui rapidamente para meu assento, na expectativa de não ter atraído a atenção de ninguém.
Silvia entrou segundos depois e dominou a cena.
— Senhoritas — ela disse —, receio não termos chegado a conversar sobre isso. Sempre que entrarem em um cômodo onde o rei ou a rainha estiverem, ou se Vossas Majestades entrarem em um cômodo onde vocês estiverem, a atitude correta é uma reverência. Em seguida, quando lhes responderem, endireitem o corpo e tomem assento. Vamos fazer juntas agora? Todas fizemos uma reverência na direção da mesa.
— Bem-vindas, garotas — disse a rainha. — Por favor, sentem-se em seus lugares e fiquem à vontade no palácio. É um prazer recebê-las.
Sua voz tinha um tom agradável. Era calma como a própria rainha, mas nem um pouco mecânica.
Como Silvia tinha explicado, as serventes encheram nossos copos com suco de laranja. Nossos pratos vinham em grandes travessas cobertas por uma redoma, que os mordomos retiravam na nossa frente. Meu rosto foi golpeado por uma nuvem de vapor perfumado vinda das panquecas. Felizmente, as exclamações de admiração em voz baixa abafaram o ronco do meu estômago.
O rei Clarkson abençoou nossa refeição e todas começamos a comer. Minutos mais tarde, Joseph entrou para ocupar seu lugar. Antes que pudéssemos nos mover, ele avisou:
— Por favor, senhoritas, não se levantem. Desfrutem do café da manhã.
Ele se dirigiu à mesa principal, beijou a mãe no rosto, apertou o ombro do pai com a mão firme e se sentou à esquerda dele. Comentou algo com o mordomo mais próximo, que riu discretamente. Por fim, passou a cuidar de seu prato.
Taylor não tinha vindo ainda. Nem as outras garotas. Olhei para os lados, confusa, e contei quantas faltavam. Oito. Oito garotas estavam ausentes. Selena, que se sentava à minha frente, respondeu à pergunta que eu fizera com os olhos.
— Elas foram embora — afirmou.
Embora?
Eu não conseguia imaginar o que poderiam ter feito em menos de cinco minutos para desagradar Joseph, mas imediatamente fiquei grata por ter sido honesta.
Era simples assim, já éramos apenas vinte e sete.

11/12/2013

Capitulo 9 ou O Capitulo que Demetria conhece o Príncipe Joseph

Mantive a cabeça baixa durante o jantar. No Salão das Mulheres, fui corajosa porque Miley estava ao meu lado, e ela me achava legal. Mas ali, espremida entre duas pessoas que emitiam ondas de ódio na minha direção, não passava de uma covarde. E Taylor, com todo o seu jeito de dama, fazia bico e não falava comigo. Eu só queria fugir para o quarto.
Não entendia por que aquilo era tão importante. As pessoas gostavam de mim, e daí? Elas não tinham poder no palácio. Seus cartazes e incentivos não importavam.
Depois de tudo o que foi dito e feito, eu não sabia se me sentia honrada ou incomodada.
Concentrei minhas forças no jantar. A última vez em que vira um bife tinha sido no Natal, alguns anos antes. Minha mãe tinha feito o melhor que podia, mas não tinha chegado nem perto daquele bife. Era suculento, tenro e saboroso. Queria perguntar a alguém se também era o melhor bife que tinha comido na vida. Se Miley estivesse por perto, perguntaria a ela. Tentei ver minha amiga pelo canto dos olhos em algum lugar da sala. Ela conversava tranquilamente com as pessoas a seu redor.
Como fazia isso? Por acaso a mesma gravação não a tinha apontado como uma das favoritas? Por que as pessoas ainda falavam com ela?
A sobremesa consistia em frutas variadas e sorvete de baunilha. Nunca tinha comido coisa igual. Se isso era comida, o que era aquilo que eu tinha posto na boca até então? Pensei em Maddie e em como gostava de doces tanto quanto eu. Ela teria adorado a sobremesa. Podia apostar que se daria muito bem ali.
Ninguém tinha autorização para deixar a mesa até que todas tivessem terminado. Depois disso, recebemos ordens estritas para ir direto para a cama.

— Afinal, vocês vão conhecer o príncipe Joseph pela manhã e vão querer estar bem dispostas e apresentáveis — explicou Silvia. — Ele é o futuro marido de alguém nesta sala, afinal.

Algumas garotas suspiraram diante dessa perspectiva.
O toc-toc dos sapatos subindo as escadarias era mais baixo dessa vez. Eu mal podia esperar para tirar os meus. E o vestido também. Tinha uma muda de roupas na mala e estava pensando se as usaria apenas para sentir que era eu mesma por uns instantes.
O grupo se dispersou no alto da escada e cada menina foi para seu quarto. Miley me puxou de lado.

— Você está bem? — ela perguntou.
— Estou. É que umas garotas ficaram me olhando torto durante o jantar — respondi, tentando não parecer reclamona.
— Elas só estão nervosas porque todo mundo gostou tanto de você — Miley garantiu, não dando muita importância ao comportamento das outras.
— Mas as pessoas também gostaram de você. Eu vi os cartazes. Por que as meninas não foram umas chatas com você também?
— Você nunca passou muito tempo com um grupo de garotas, passou? — ela tinha um sorriso malicioso nos lábios, como se soubesse o que estava acontecendo.
— Não. Quase sempre fico só com minhas irmãs — confessei.
— Você foi educada em casa?
— Sim.
— Bem, eu estudo com um monte de outras garotas da casta Quatro na minha província. Cada uma delas tem seu jeito de pisar no calo das outras. Elas querem conhecer a pessoa, descobrir o que mais a irrita.
Várias meninas me fazem elogios falsos ou comentários atravessados, coisas assim. Eu sei que pareço eufórica, mas no fundo sou tímida, e elas acham que podem me atingir com palavras.

Cocei a cabeça. Então elas faziam de propósito?

— E ainda mais você, uma pessoa quieta e misteriosa...
— Não sou misteriosa — cortei.
— É um pouco. E às vezes as pessoas não sabem se interpretam o silêncio como confiança ou medo. Elas olham como se você fosse um inseto para que você talvez se sinta como se fosse.
— Hum...
Fazia sentido. Comecei a pensar se meus modos de certa forma não cutucavam a insegurança das outras.
— O que você faz? Quero dizer, como você tira o melhor delas? — perguntei a Miley.
Ela sorriu.
— Ignoro. Conheço uma garota na minha cidade que fica muito irritada quando não consegue me incomodar e acaba de cara fechada. Então, não se preocupe — ela continuou. — Tudo o que você precisa fazer é não deixar que percebam que estão atingindo você.
— Elas não estão.
— Estou quase acreditando — disse Miley dando uma risadinha, um som cálido que evaporou naquele corredor quieto. — E você acredita que vamos conhecer o príncipe amanhã? — ela perguntou, passando para o assunto que considerava mais importante.
— Na verdade, não.

Joseph parecia um fantasma assombrando o palácio. Fazia parte dele, mas não estava lá de fato.

— Bem, boa sorte — ela desejou, e eu sabia que era de coração.
— Mais sorte ainda para você, Miley. Tenho certeza de que o príncipe vai ficar mais do que encantado ao conhecer você.

Apertei as mãos dela. Miley sorriu de um jeito emocionado e tímido ao mesmo tempo, depois foi para o quarto.
Quando me dirigia ao meu escutei Bariel resmungar alguma coisa com
a dama de companhia. Ela me viu e bateu a porta na minha cara.
Muito educada.
Minhas criadas estavam no quarto, claro, esperando para me despir e me lavar. Minha camisola, uma coisinha verde e frágil, já tinha sido estendida na cama. Elas tiveram a delicadeza de não tocar na minha mala.
As criadas eram eficientes e cuidadosas. Era óbvio que sabiam de cor essa rotina do fim do dia, mas não a faziam às pressas. Acho que a intenção delas era oferecer conforto, mas eu queria mesmo era despachá-las. Não podia apressá-las enquanto lavavam minhas mãos, desamarravam meu vestido e punham o broche prateado com meu nome na camisola. Enquanto faziam essas coisas, elas ainda lançavam perguntas que me deixavam incrivelmente constrangida. Eu tentava responder sem ser grossa. Sim, eu tinha visto as outras meninas; não, elas não falavam muito; sim, tinha sido um jantar fantástico; não, eu só ia conhecer o príncipe no dia seguinte; sim, eu estava muito cansada.

— E ia me ajudar muito a espairecer se pudesse passar um tempo sozinha — acrescentei ao final da última resposta, na esperança de que entendessem a deixa.
Na verdade, elas ficaram com um ar decepcionado. Tentei consertar.
— Vocês todas são muito prestativas. É que estou acostumada a ficar um pouco sozinha. E fiquei rodeada de gente o dia todo.
— Mas senhorita Singer, é nosso dever ajudá-la. É nosso trabalho — replicou Anne, que parecia ser a chefe delas. Ela estava à frente de tudo, Mary era a mais sossegada e Lucy parecia bem tímida.
— Gosto muito do trabalho de vocês, e com certeza vou precisar de ajuda para começar o dia amanhã. Mas esta noite só preciso relaxar. Se quiserem ajudar, um tempo sozinha seria bom para mim. E se vocês estiverem bem descansadas pela manhã, estou certa de que poderão fazer tudo da melhor maneira, não acham?

Elas trocaram olhares.

— Bem, imagino que sim — concordou Anne.
— Uma de nós deve ficar aqui enquanto a senhorita dorme. Caso precise de algo — disse Lucy, aparentando nervosismo, como se temesse a decisão que eu tomaria. Ela parecia dar uma leve tremida de vez em quando. Acho que era a timidez vindo à tona.
— Se eu precisar de algo, toco a campainha. Vai ficar tudo bem. Além disso, eu não ia conseguir dormir sabendo que alguém está me vigiando.

Elas trocaram olhares de novo, ainda um pouco céticas. Eu sabia um jeito de pôr fim nisso, mas detestava ter que usá-lo.

— Vocês devem obedecer todas as minhas ordens, certo?
Elas concordaram com a cabeça, esperançosas.
— Então eu ordeno que vão para a cama e me ajudem amanhã de manhã. Por favor.

Anne sorriu. Acho que ela estava começando a me entender.

— Sim, senhorita Singer. Nós a veremos pela manhã.

As três fizeram uma reverência e saíram do quarto. Anne me lançou um último olhar. Acho que eu não era exatamente o que ela esperava, mas não parecia estar muito irritada com isso.
Assim que elas saíram, descalcei minhas luxuosas pantufas e estiquei os dedos dos pés no chão. Ficar descalça dava uma sensação boa, natural. Comecei a desfazer minha mala, o que foi rápido. Mantive minha muda de roupa enfiada na mala e a guardei no armário gigantesco. Dei uma olhada nos vestidos. Eram poucos, o suficiente para mais ou menos uma semana. Acho que as outras tinham o mesmo número de vestidos. Por que fazer dúzias para uma garota que talvez saísse no dia seguinte?
Peguei as poucas fotos que tinha da minha família e prendi na moldura do espelho. Era tão alto e largo que podia ver as fotos sem tapar a visão do meu corpo. Eu tinha uma caixinha com bijuterias e laços que eu adorava. Provavelmente seriam considerados simples demais ali, mas eram tão pessoais que eu tive que levá-los comigo. Os poucos livros que carregara encontraram um lugar na útil prateleira próxima da porta que levava para a sacada.
Enfiei a cabeça pela porta e vi o jardim. Havia um labirinto de alamedas com bancos e fontes. As flores brotavam de toda parte, e cada uma delas estava perfeitamente podada. Para além desse pedaço de terra claramente produzido ficava um campo aberto, e mais adiante havia uma
floresta imensa. Estiquei-me ao máximo, mas não consegui ver se toda ela ficava dentro dos muros do palácio. Pensei por alguns minutos por que motivo ela existia, e então deparei com o último item de casa que segurava nas mãos.
Meu pequeno jarro com a moedinha dançante. Rolei-o nas mãos algumas vezes, escutando-a deslizar pelos cantos do vidro. Por que eu tinha levado aquilo? Para me lembrar de algo que não podia ter?
Esse simples pensamento — de que o amor que tinha construído por anos em um lugar quieto e secreto estava fora de alcance — fez meus olhos se encherem de lágrimas. Eu não conseguia aguentar mais essa depois de toda a emoção daquele dia. Não sabia onde o jarro ficaria, mas deixei-o no meu criado-mudo.
Baixei as luzes, arrastei-me sobre aqueles cobertores luxuosos e olhei para o jarro. Deixei-me levar pela tristeza. Deixei meu pensamento ir até ele.
Como eu podia ter perdido tanto em tão pouco tempo? Pensava que deixar minha família, viver em um lugar estranho e ser separada da pessoa amada eram acontecimentos que demoravam anos para ocorrer, não apenas um dia.
Eu me perguntava o que exatamente ele queria me dizer antes de eu partir. A única coisa que pude deduzir era que não se sentia à vontade para falar em voz alta. Seria sobre ela?
Olhei fixamente o jarro.
Será que ele queria pedir desculpas? Eu tinha lhe dito poucas e boas na noite anterior. Talvez fosse isso.
Será que ele queria dizer que tinha me superado? Bem, eu tinha visto claramente que sim, não havia por que dizer.
Será que ele queria dizer que não tinha me superado? Que ainda me amava?
Afastei o pensamento. Não podia deixar aquela esperança crescer dentro de mim. Eu precisava odiá-lo. Esse ódio me faria avançar. Ficar o mais distante dele pelo maior tempo possível era grande parte do motivo de estar ali.
Mas a esperança doía. E com ela vieram as saudades de casa. A vontade de que Maddie fosse escondida até minha cama, como fazia às vezes. E o medo de que as outras meninas me quisessem fora e continuassem me diminuindo. Depois o nervosismo de aparecer na TV para o país inteiro. E o terror de que alguém tentasse me matar como forma de protesto político. Tudo veio rápido demais para que minha cabeça confusa desse conta de processar num dia tão longo.
Minha vista ficou embaçada. Nem reparei quando comecei a chorar. Não conseguia respirar. Estava tremendo. Pulei da cama e corri até a sacada. O pânico era tanto que demorei um pouco para abrir a trava, mas consegui. Pensei que o ar fresco me faria bem, mas não fez. Minha respiração continuava curta e fria.
Não existia liberdade ali. As barras da sacada me mantinham presa. E eu podia ver os muros ao redor do palácio: altos, com guardas em pontos estratégicos. Precisava sair do palácio e ninguém ia permitir que isso acontecesse. O desespero me deixou ainda mais fraca. Olhei para a floresta. Poderia apostar que nem de lá conseguiria ver nada além do verde.
Voltei para dentro e travei a porta da sacada. Estava um pouco insegura com aquelas lágrimas nos olhos, mas consegui sair do quarto. Corri pelo único corredor que conhecia sem ver a arte, a tapeçaria ou os batentes dourados. Quase não percebi os guardas. Eu não conhecia muito bem o castelo, mas sabia que se descesse as escadas e virasse à direita ia encontrar as enormes portas de vidro que davam para o jardim. Eu só queria chegar até essas portas.
Corri pela imponente escadaria. Meus pés descalços soavam como tapinhas no chão de mármore. Havia mais um punhado de guardas, mas nenhum deles me parou. Quer dizer, não até eu chegar ao lugar que buscava.
Como antes, dois homens montavam guarda ao lado das portas, e quando tentei correr até elas, um dos homens se pôs à minha frente, e o bastão em forma de lança impediu minha saída.

— Perdoe-me, mas a senhorita deve voltar para o quarto — ele ordenou, com autoridade. Ainda que não falasse alto, sua voz trovejava em meio ao silêncio do elegante corredor.
— Não... não... Eu preciso... sair — as palavras se misturavam; eu não conseguia respirar direito.
— Senhorita, vá para seu quarto agora.

O segundo guarda caminhava na minha direção.

— Por favor — comecei a arfar. Pensei que ia desmaiar.
— Sinto muito... senhorita Demetria, certo? — ele achou meu broche. — A senhorita deve voltar para o quarto.
— Eu... não consigo respirar — gaguejei e caí nos braços do guarda que se aproximava para me empurrar.
O bastão dele caiu no chão. Agarrei-me a ele já sem forças. O esforço me deixou tonta.
— Deixem-na sair!

Era uma voz jovem, mas cheia de autoridade. Minha cabeça se voltou em sua direção, um pouco de propósito e um pouco sem querer. Ali estava o príncipe Joseph. Ele parecia um tanto estranho graças ao ângulo em que minha cabeça pendia, mas reconheci o cabelo e o jeito travado.

— Ela desmaiou, Alteza. Queria sair.

O primeiro guarda parecia nervoso ao tentar explicar. Ele se meteria em uma encrenca terrível se me machucasse. Eu era propriedade de Illéa.

— Abram as portas.
— Mas... Alteza...
— Abram as portas e deixem-na sair. Agora!
— Imediatamente, Alteza.

O primeiro guarda tratou de obedecer, sacando uma chave. Minha cabeça continuava numa posição estranha enquanto eu ouvia o tilintar das chaves e o ruído que uma delas produziu ao encaixar na fechadura. O príncipe me olhava com atenção enquanto eu tentava ficar em pé. Foi quando o cheiro doce do ar fresco tomou conta de mim e me deu toda a motivação de que precisava. Soltei-me dos braços do guarda e corri como uma bêbada para o jardim.
Eu ainda tropeçava um pouco, mas não me importava de parecer menos graciosa. Só precisava ficar lá fora. Deixei meu corpo sentir o ar morno na pele, a grama sob os pés. De algum modo, até a natureza parecia extravagante ali. Eu queria percorrer todo o caminho até as árvores, mas minhas pernas só podiam me carregar até aquele ponto. Cambaleei diante de um pequeno banco e ali fiquei: com a camisola verde e fina sobre a terra e a cabeça apoiada no braço sobre o assento.
Meu corpo não tinha forças para soluçar, então as lágrimas desceram em silêncio. Ainda assim, tiraram toda a minha concentração. Como tinha chegado até ali? Como eu tinha deixado isso acontecer? O que seria de mim? Algum dia eu conseguiria pelo menos um pedaço da vida que tinha antes disso de volta? Eu simplesmente não sabia. E não havia nada que pudesse fazer quanto a isso. Estava tão perdida em meus pensamentos que só percebi que tinha companhia quando o príncipe Joseph começou a falar comigo.

— Está tudo bem, querida? — ele perguntou.
— Eu não sou sua querida.

Levantei a cabeça para encará-lo. Era impossível não notar o nojo no meu tom de voz e nos meus olhos.

— O que eu fiz para ofender a senhorita? Por acaso não lhe dei exatamente o que queria?

Ele ficou confuso com a minha resposta. Acho que esperava que o adorássemos e agradecêssemos aos astros por sua existência.
Encarei-o novamente, sem medo, embora não tivesse dúvida de que o efeito fora diluído pelas lágrimas nas minhas bochechas.

— Com licença, querida, mas você vai continuar chorando? — ele perguntou, parecendo muito incomodado com minhas lágrimas.
— Não me chame assim! Não sou mais querida para você do que as outras trinta e quatro estranhas que você mantém aqui nessa jaula.

Ele se aproximou, sem parecer minimamente ofendido por minhas palavras vis. Só parecia... pensativo. Havia uma expressão interessante em seu rosto.
O príncipe tinha um andar gracioso para um rapaz, e parecia incrivelmente confortável dando voltas ao meu redor. Minha coragem se desmanchou um pouco diante da estranheza da situação. Ele estava completamente vestido, com seu terno ajustado, e eu estava encolhida e seminua. Se sua posição na hierarquia já não me assustava muito, sua atitude ainda assustava. Ele devia ter vasta experiência em lidar com pessoas infelizes; suas respostas eram excepcionalmente calmas.

— Sua afirmação é falsa. Todas vocês são queridas por mim. Trata-se simplesmente de descobrir quem há de ser a mais querida.
— Você disse mesmo “há de ser”?

Ele segurou uma risada.

— Receio que sim. Perdoe-me. É fruto da minha educação.
— Educação — resmunguei. — Ridículo.
— Perdão?
— É ridículo! — gritei, recuperando um pouco de coragem.
— O que é ridículo?
— O concurso! Tudo! Você nunca amou ninguém na vida? É assim que quer escolher sua mulher? Você é baixo a esse ponto?

Ajeitei-me um pouco no chão. Para facilitar minha vida, ele se sentou no banco, de modo que eu não precisava mais me torcer. Eu estava muito brava para agradecer.

— Entendo que possa dar essa impressão, que tudo possa ser visto como entretenimento barato. Mas meu mundo é muito fechado. Não conheço tantas mulheres. As poucas que conheço são filhas de diplomatas, e geralmente temos pouquíssimos assuntos em comum. Isso quando falamos a mesma língua.

Joseph achava aquilo engraçado e deu uma risadinha. Não fiquei impressionada. Ele limpou a garganta.

— Sendo essas as circunstâncias, nunca tive a oportunidade de me apaixonar. E você?
— Tive — respondi na lata.

Logo que as palavras saíram de minha boca, quis pegá-las de volta. Era um assunto particular, não era da conta dele.

— Então você teve muita sorte — havia um pouco de ciúme em sua voz.
Imagine só! A única coisa que eu podia atirar na cara do príncipe de Illéa era exatamente aquilo que eu queria esquecer.
— Minha mãe e meu pai se casaram assim e são muito felizes. Tenho esperança de alcançar a felicidade, de encontrar uma mulher que toda a Illéa possa amar, alguém que possa ser minha companheira e me ajude a receber os líderes de outras nações. Alguém que seja amiga dos meus amigos e minha confidente. Estou pronto para encontrar minha esposa.

Algo em sua voz me abalou. Não havia nenhum traço de sarcasmo. Aquilo que parecia pouco mais que um programa de TV para mim era a única chance que o príncipe tinha de ser feliz. Ele não podia pedir um segundo lote de mulheres. Bom, talvez pudesse, mas seria vergonhoso. Estava tão desesperado, tão esperançoso... Senti minha raiva por ele diminuir. Um pouco.

— Você realmente acha que aqui é uma jaula? — os olhos dele estavam cheios de compaixão.
— Sim, eu acho — minha voz saiu calma. Rapidamente acrescentei: — Majestade.

Ele riu.

— Eu mesmo já pensei nisso mais de uma vez. Mas você deve admitir que é uma jaula muito bonita.
— Para você. Encha sua jaula com mulheres brigando pela mesma coisa e veja que legal é.

Ele levantou as sobrancelhas.

— Mas já ocorreram discussões por minha causa? Será que vocês não percebem que sou eu que faço a escolha? — ele disse, rindo.
— Na verdade, não é bem assim. Elas brigam por duas coisas. Algumas por você, outras pela coroa. E todas pensam já saber o que falar e dizer para que sua escolha seja óbvia.
— Ah, sim. O homem ou a coroa. Receio que algumas não saibam ver a diferença — afirmou, balançando a cabeça.
— Boa sorte com isso — comentei, seca.

Tudo ficou calmo depois dessa demonstração de sarcasmo. Olhei para ele com o canto dos olhos, desejando que dissesse algo. O príncipe fitava a
grama com o rosto cheio de preocupação. Parecia que essa ideia o estava infernizando já havia algum tempo. Ele respirou fundo e se voltou para mim.

— E você, pelo que luta?
— Na verdade, estou aqui por engano.
— Engano?
— É, mais ou menos. Bem, é uma longa história... Estou aqui. E não estou lutando. Meu plano é aproveitar a comida até você me chutar.

Ele riu tanto que se inclinou para trás e deu um tapa no joelho. Uma mistura bizarra de rigidez e calma.

— O que você é?
— Como?
— Um? Dois?

Será que ele não prestava atenção?

— Sou Cinco.
— Ah, sim. Então a comida deve ser um bom motivo para ficar.

Ele riu de novo e continuou:

— Sinto muito, não consigo ler seu broche no escuro.
— Meu nome é Demetria.
— Muito bem, perfeito.

Os olhos de Joseph se perderam na noite e ele sorriu sem motivo aparente. Algo nisso tudo o impressionava.

— Demetria, minha querida, espero muito que encontre algo nesta jaula por que valha a pena lutar. Depois de tudo isso, não posso deixar de imaginar como seriam as coisas se você realmente se esforçasse.

Ele desceu do banco e se agachou ao meu lado. Estava perto demais. Eu não conseguia pensar direito. Talvez estivesse um pouco ofuscada pela fama dele. Ou ainda um pouco abalada pelo choro. Em todo caso, estava chocada demais para reclamar quando pegou minha mão.

— Se isso a deixar feliz, posso informar aos funcionários que você prefere ficar no jardim. Assim, você pode vir aqui à noite sem ser incomodada pelos guardas. No entanto, acho que seria bom se houvesse sempre um deles por perto.

Eu queria. Qualquer tipo de liberdade me parecia uma bênção, mas eu precisava ter certeza absoluta de meus sentimentos.

— Não... não sei se quero algo que venha de você — eu disse, puxando meus dedos daquela mão que me segurava de leve.

Ele ficou um pouco surpreso e magoado.

— Como quiser.

Senti mais arrependimento. Não gostar daquele cara não significava que eu podia magoá-lo.

— Você vai voltar para dentro daqui a pouco? — ele perguntou.
— Sim — respondi com um suspiro, olhando para o chão.
— Então vou deixá-la com seus pensamentos. Haverá um guarda perto da porta esperando.
— Obrigada, errr... Alteza.

Balancei a cabeça. Quantas vezes eu o tinha tratado indevidamente na conversa?

— Querida Demetria, você poderia me fazer um favor? — ele pegou minha mão novamente. Parecia muito persistente.

Olhei-o com o canto dos olhos, sem saber direito o que dizer.

— Talvez — repliquei.

Seu sorriso voltou.

— Não conte isso às outras. Tecnicamente, não devo conhecê-las até amanhã. Não quero irritar ninguém. Embora não possa dizer que seus gritos tenham qualquer semelhança com um encontro romântico, não acha? Foi minha vez de sorrir:
— Nem de longe! — respirei fundo e acrescentei: — Não contarei.
— Obrigado.

Ele encostou os lábios na minha mão. Antes de se afastar, pousou-a delicadamente sobre minhas pernas.

— Boa noite — concluiu.

Olhei para o local do beijo na minha mão, atônita por uns segundos. Então voltei o rosto para ver Joseph sair e me dar a privacidade que eu passara o dia querendo.


E como a fic tá? Tá pegando fogo!
E ai, Garotas, o que acharam do Príncipe Joseph?

3 comentários para o próximo!

10/12/2013

Capitulo 8

Mesmo depois da considerável festa de boas de boas-vindas no aeroporto, as estradas rumo ao palácio estavam cercadas de multidões torcendo por nós. A parte triste é que não podíamos abaixar a janela do carro para agradecer. O guarda no banco da frente disse que deveríamos nos considerar uma extensão da família real. Muitos nos adoravam, mas havia pessoas lá fora que não se importariam em nos ferir para ferir o príncipe. Ou a própria monarquia.
Eu estava presa ao lado de Blanda no carro. Era um modelo especial com dois bancos de passageiros na parte de trás, um voltado para o outro, e vidros escuros. Taylor e Miley iam sentadas à nossa frente. Miley olhava radiante pela janela. O motivo era óbvio: seu nome estava escrito em diversos cartazes. Seria impossível contar quantos admiradores ela tinha.
O nome de Taylor também aparecia aqui e ali, quase tanto quanto o de Blanda e bem mais que o meu. Taylor, sempre uma dama, não se deixou levar pelo pensamento de ser uma das favoritas no concurso. Blanda, eu podia notar, estava irritada.
— O que você acha que ela fez? — cochichou no meu ouvido enquanto Miley e Taylor conversavam sobre suas casas.
— Como assim? — cochichei de volta.
— Para ser tão popular. Você acha que ela subornou alguém? Seus
olhos frios se fixaram em Miley, como se estivesse aferindo o valor dela mentalmente.
— Ela era uma Quatro — afirmei, com ar cético. — Não teria dinheiro para subornar alguém.
Blanda estalou a língua.
— Por favor... Uma mulher possui outros meios de conseguir o que quer — ela disse, virando para olhar a janela.
Levei um tempo para compreender o que quis dizer e não gostei nada daquilo. Não porque era óbvio que uma pessoa tão inocente como Miley seria incapaz de pensar em dormir com alguém — ou seja, quebrar uma lei — para se dar bem, mas porque ficava claro que a vida no palácio ia ser pior do que eu tinha imaginado.
Eu não tive uma boa visão do local na chegada, mas reparei nas paredes: tinham um tom amarelo-claro e eram muito, muito altas. Havia guardas no alto de cada um dos lados do amplo portão, que se abria para dentro conforme nos aproximávamos. O carro entrou e seguiu uma pista de cascalho que contornava uma fonte e conduzia à porta principal, onde alguns oficiais esperavam para nos dar as boas-vindas.
Com pouco mais que um “oi”, duas mulheres me agarram pelo braço e me arrastaram para dentro.
— Perdoe-nos pela pressa, senhorita, mas seu grupo está atrasado — uma delas disse.
— Ah, acho que foi culpa minha. Falei demais no aeroporto.
— Você estava conversando com a multidão? — a outra perguntou com ar de surpresa.
Elas trocaram um olhar que não compreendi antes de começarem a indicar para onde devíamos ir.
A sala de jantar ficava à direita, contaram, e o Grande Salão à esquerda. Vi um pedacinho florescente de jardim do outro lado das portas de vidro. Queria ter parado. Antes de conseguir processar para onde íamos, as duas me empurraram para um salão gigantesco com pessoas que passavam de um lado para o outro.
Abriu-se uma brecha naquele formigueiro humano. Pude ver fileiras de profissionais cortando o cabelo e fazendo as unhas das garotas. Roupas pendiam de cabides, e as pessoas gritavam coisas como “Encontrei o tom!” e “Assim ela parece gorda”.
— Aqui estão elas!
Vi uma mulher caminhando na nossa direção. Com certeza era a responsável.
— Meu nome é Silvia. Conversamos pelo telefone — ela se apresentou e imediatamente se pôs a trabalhar. — Uma coisa de cada vez. Primeiro, as fotos do “antes”. Venham aqui — ela ordenou, apontando uma cadeira em frente a um biombo no canto do salão. — Não se preocupem com as câmeras, senhoritas. Faremos um especial sobre a transformação de vocês. Todas as meninas de Illéa vão querer ficar parecidas com vocês quando tivermos terminado.
De fato, várias pessoas com câmeras perambulavam pelo salão, filmando de perto os sapatos das garotas e fazendo entrevistas. Após as fotos, Silvia começou a disparar ordens diferentes.
— Levem a senhorita Blanda para a estação quatro, a senhorita Taylor para a cinco... e parece que acabaram de liberar a estação dez. Leve a senhorita Miley para lá. A senhorita Demetria vai para a seis.
— Então, é o seguinte — disse um moreno baixo, conduzindo-me para o assento número seis. — Precisamos conversar sobre sua imagem.
Ele ia direto ao assunto.
— Minha imagem?
Já não estava boa? Não foi ela que me levou até ali?
— Que impressão você quer dar? Com esses cabelos ruivos, podemos te deixar bem sedutora. Mas se essa não for sua jogada, pensamos em outra coisa — ele disse sem rodeios.
— Não vou mudar tudo em mim para arranjar um cara que nem conheço — eu disse, enquanto em minha cabeça completava a frase com um “e de quem não gosto”.
— Nossa, temos alguém especial aqui? — ele disse, como se fosse uma criança.
— E não somos todos especiais?
O homem deu um sorriso.
— Tudo bem, então. Não vamos mudar sua imagem; vamos apenas melhorá-la. Preciso dar uma polida em você, mas sua aversão a tudo que é falso pode até ser uma grande vantagem aqui. Continue assim, querida.
Ele me deu um tapinha nas costas e saiu, não sem antes chamar um grupo de mulheres que se moveu em bloco na minha direção.
Não sabia que a “polida” de que ele tinha falado era literalmente uma polida. Uma mulher começou a esfregar meu corpo, o que aparentemente eu era incapaz de fazer direito sozinha. Em seguida, cada pedacinho de pele descoberta foi untado com loções e óleos que me deixaram com cheiro de baunilha. Segundo a moça que os passava em mim, era o aroma favorito do príncipe.
Assim que terminaram de me deixar macia e suave, as atenções se voltaram para as minhas unhas. Apararam, lixaram e — milagrosamente — conseguiram até tirar os pedaços mais duros de cutícula. Eu disse que preferia não pintar as unhas, mas as moças ficaram tão chateadas que deixei que fizessem meu pé. Uma das moças escolheu um tom mais neutro, então o resultado não ficou tão ruim.
O grupo que trabalhou em minhas unhas saiu para dar lugar a outra moça, enquanto eu permanecia quieta na cadeira à espera da próxima rodada de embelezamento. Uma equipe de filmagem passou por mim e focalizou minhas mãos.
— Não se mexa — ordenou uma mulher, olhando torto para minhas unhas. — Mas você não vai passar nada nelas?
— Não.
Ela deu um suspiro, sem me convencer, e foi embora.
Percebi alguma coisa tremendo à minha esquerda. Vi então uma menina de olhos perdidos balançando as pernas sob uma grande capa que alguém tinha jogado por cima dela.
— Está tudo bem? — perguntei.
Minha voz a tirou do transe. Ela suspirou.
— Querem tingir meu cabelo de loiro. Disseram que ia combinar mais com meu tom de pele. Acho que só estou nervosa.
Ela abriu um sorriso tenso, que retribuí.
— Seu nome é Mariane, certo?
— Isso — ela sorriu, ainda ansiosa. — E o seu é Demetria?
Concordei com a cabeça.
— Disseram que você veio com aquela Blanda. Ela é terrível!
Respirei fundo. O salão inteiro escutava os gritos de Blanda com as pobres assistentes, ordenando que lhe levassem algo ou simplesmente saíssem da frente.
— Você não faz ideia — murmurei, e demos uma risadinha. — Olha, eu acho seu cabelo lindo.
E era mesmo. Nem escuro demais, nem claro demais, e bem cheio.
— Obrigada.
— Se não quiser mudar a cor dele, não mude.
Mariane sorriu, mas dava para notar que ela não sabia ao certo se eu estava tentando ser sua amiga ou prejudicá-la. Antes de ela dizer qualquer coisa, mais equipes chegaram, gritando suas instruções tão alto que não houve como terminar a conversa.
Meu cabelo foi lavado, condicionado, hidratado e amaciado. Antes, era bem comprido e tinha corte reto. Minha mãe o cortava, e era o melhor que ela podia fazer. Quando terminaram, ele estava vários dedos mais curto e tinha camadas. Gostei delas; faziam meu cabelo brilhar em diferentes contrastes. Algumas garotas fizeram luzes. Outras, como Mariane, mudaram completamente a cor do cabelo. Nesse quesito, tanto eu como minhas assistentes concordamos que não era necessário fazer nada.
Uma moça muito linda fez minha maquiagem. Pedi que não carregasse muito, e o resultado ficou bom. Um monte de meninas ficou parecendo um pouco mais velha ou mais jovem. Eu ainda parecia comigo mesma. E, claro, Blanda também, uma vez que já estava com o rosto inteiro rebocado quando chegou.
Usei um roupão durante a maior parte do processo. Quando terminaram de me ajeitar, levaram-me para as araras. Meu nome estava marcado em uma barra de onde pendiam vestidos para uma semana. Parecia que as candidatas a princesa não usavam calça.
Acabei escolhendo um vestido creme. Tinha bom caimento nos ombros, batia nos joelhos e ficava confortável na cintura. A moça que me ajudava disse que era um vestido para o dia, e garantiu que os vestidos de noite já estavam no meu quarto, para onde as outras araras logo seriam levadas. Em seguida, ela pôs um broche prateado perto da alça do vestido. Meu nome estava escrito nele em letras brilhantes. Por fim, ela me deu uns sapatos de salto médio que chamava de “saltos de gatinha”, e me mandou de volta para o canto, onde iam tirar minha foto do “depois”. De lá, mandaram-me para uma das quatro estações menores alinhadas contra a parede. Cada uma delas tinha uma cadeira, um biombo e uma câmera bem na frente.
Sentei e esperei, como me pediram. Uma mulher se sentou na minha frente com uma prancheta cheia de informações. Ela me pediu um pouco de paciência enquanto encontrava minha papelada.
— Pra que isso? — perguntei.
— É para o especial sobre a transformação. Vamos transmitir um programa sobre a chegada de vocês hoje à noite e, na quarta-feira, um sobre a transformação. Na sexta-feira, vocês vão participar do Jornal Oficial. As pessoas viram as fotos de vocês e sabem um pouco do que está nos formulários de inscrição — ela contou enquanto colocava minha recém-encontrada papelada no alto da pilha na prancheta.
A mulher cruzou os dedos e continuou.
— Mas queremos que o povo realmente torça por vocês. E isso não vai acontecer se eles não conhecerem bem cada uma. Então faremos uma rápida entrevista aqui, e você vai fazer o seu melhor no Jornal Oficial. Não fique tímida quando nos vir circulando pelo palácio. Não estaremos aqui todos os dias, mas vamos aparecer bastante.
— Tudo bem — concordei, obediente.
Eu não queria mesmo ter que falar com equipes de filmagem. Era muito invasivo.
— Então, Demetria Singer, está pronta? — ela perguntou segundos antes de uma luz vermelha na câmera acender.
— Sim — respondi tentando não parecer nervosa.
— Para ser sincera, não percebo muitas mudanças no seu visual. Você poderia nos dizer como foi sua transformação hoje?
Pensei um pouco.
— Cortaram meu cabelo em camadas e coisas assim.
Passei as mãos por minhas madeixas vermelhas e senti como meu cabelo estava mais suave depois dos cuidados profissionais.
— Também passaram loção de baunilha no meu corpo. Fiquei com cheiro de sobremesa — continuei, cheirando os braços.
Ela riu.
— Que linda. E esse vestido cai muito bem em você.
— Obrigada — eu disse, olhando minhas roupas novas. — Não sou muito de usar vestido, então vou demorar um pouquinho para me acostumar.
— Está certo — disse a entrevistadora. — Você é uma das três Cinco na Seleção. Como a experiência tem sido até agora?
Procurei na minha cabeça uma palavra para descrever como tinha sido o dia, desde minha decepção na praça até a sensação de voar e a simpatia de Miley.
— Surpreendente.
— Acho que dias ainda mais surpreendentes virão — comentou a entrevistadora.
— Espero que sejam um pouco mais tranquilos do que hoje — repliquei entre suspiros.
— O que você achou da concorrência até agora?
Engoli em seco.
— As outras garotas são muito simpáticas — eu disse, completando na minha cabeça: “Com uma notável exceção”.
— Ahã... Ela percebeu que minha resposta escondia algo.
— E o que você acha do resultado da transformação? Tem medo de que outra menina tenha ficado melhor?
Ponderei minha resposta. Dizer não seria esnobe, e dizer sim seria dar uma de coitada.
— Acho que conseguiram realçar a beleza individual de cada garota.
Ela sorriu.
— Muito bem. É o suficiente.
— Já?
— A gente tem que encaixar trinta e cinco entrevistas em uma hora e meia. O que fizemos está de bom tamanho.
— Certo.
Até que não foi ruim.
— Obrigada. Você pode se sentar naquele sofá ali que alguém logo virá cuidar de você.
Levantei-me e fui para o grande sofá circular no canto. Duas meninas que eu ainda não conhecia estavam sentadas ali, conversando calmamente. Olhei para os lados e vi alguém dizer que o último lote acabara de chegar. Mais correria nas estações. Prestei tanta atenção no tumulto que quase não notei quando Miley se sentou ao meu lado.
— Miley! Seu cabelo!
— Eu sei. Puseram um aplique. Você acha que o príncipe vai gostar? — ela parecia realmente preocupada.
— Claro! Quem não gostaria de uma loira estonteante?
— Demetria, você é tão simpática. Aquelas pessoas no aeroporto amaram você.
— Ah, eu só estava sendo legal com elas. Você também cumprimentou bastante gente — repliquei.
— Sim, mas bem menos que você.
Baixei a cabeça, um pouco envergonhada de receber um elogio por uma coisa tão óbvia. Quando a levantei de novo, olhei para as duas garotas sentadas conosco: Emmica Brass e Samantha Lowell. Ainda não tínhamos sido apresentadas, mas eu sabia quem elas eram. Fiquei com a pulga atrás da orelha. As duas me olhavam de um jeito esquisito. Antes de eu ter tempo para pensar no motivo disso, Silvia aproximou-se.
— Muito bem, garotas, estão prontas?
Ela conferiu a hora e nos olhou, esperando uma reação. Depois, continuou.
— Vou fazer um passeio rápido com vocês pelo palácio e depois
mostrar seus quartos.
Miley bateu palmas, e nós quatro nos levantamos para sair. Silvia contou que aquele lugar onde nos maquiaram e paparicaram era o Salão das Mulheres. Geralmente a rainha, suas damas de companhia e outras mulheres da realeza se divertiam ali.
— Acostumem-se àquele salão. Vocês passarão boa parte do tempo lá. Agora, quando vocês entraram, viram o Grande Salão, que geralmente é usado para festas e banquetes. Se houvesse muitas mais de vocês por aqui, seria lá que faríamos as refeições. Mas a sala de jantar normal é grande o suficiente para suas necessidades. Vamos dar uma passada por lá.
Silvia mostrou onde a família real fazia suas refeições, em uma mesa à parte. As Selecionadas ficariam em mesas compridas dispostas como um “U” bem estreito. Nossos lugares já estavam marcados com plaquinhas muito elegantes. Eu ia me sentar entre Taylor e Tiny Lee, que tinha visto de passagem no Salão das Mulheres, e à frente de Selena Ambers.
Deixamos a sala de jantar e descemos as escadas até a sala de onde transmitiam o Jornal Oficial de Illéa. De volta ao andar de cima, nossa guia apontou a sala onde o rei e o príncipe trabalhavam na maior parte do tempo. A área estava além dos nossos limites.
— Outra coisa fora dos limites: o terceiro andar. Lá ficam os cômodos reservados à família real, então nenhuma intrusão será tolerada. Os quartos de vocês estão localizados no segundo andar. Vocês ocuparam boa parte dos quartos de visitas, mas não se preocupem: ainda temos espaço para quem chegar.
— Estas portas aqui dão para o jardim dos fundos. Olá, Hector. Olá, Markson.
Os dois guardas à porta cumprimentaram com a cabeça. Demorou um pouco para eu reconhecer que a grande arcada à nossa direita era a porta lateral para o Grande Salão, o que significava que o Salão das Mulheres ficava no próximo corredor à direita. Fiquei orgulhosa de mim mesma por ter percebido isso. O palácio era uma espécie de labirinto opulento.
— Vocês não podem sair do palácio em nenhuma circunstância — prosseguiu Silvia. — Às vezes, durante o dia, poderão ir até o jardim, mas nunca sem permissão. Isso é exclusivamente para manter vocês seguras. Apesar de nossos esforços, os rebeldes entraram no palácio uma vez.
Um calafrio percorreu minha espinha.
Entramos em um corredor e subimos as enormes escadas que davam para o segundo andar. Eu sentia tapetes tão espessos sob meus pés que tinha a impressão de afundar um centímetro a cada passo. A luz atravessava janelas no alto; tudo cheirava a flores e raios de sol. As paredes estavam repletas de pinturas grandes que retratavam os reis do passado e alguns líderes americanos e canadenses. Pelo menos era isso que eu achava, já que nenhum deles usava coroa.
— As coisas de vocês já estão nos quartos. Se não gostarem da decoração, basta avisar as criadas. Cada uma de vocês tem três, e elas também já estão nos quartos. Vão ajudar vocês a desfazer as malas e a se preparar para o jantar. Antes do jantar de hoje, vocês se reunirão no Salão das Mulheres para uma projeção especial do Jornal Oficial de Illéa. Semana que vem, estarão ao vivo no programa! Esta noite vocês verão algumas das imagens feitas desde quando saíram de suas casas até a chegada aqui. Será bem especial. Saibam que o príncipe Joseph ainda não viu nada. Ele verá o mesmo que Illéa esta noite. Amanhã vocês o conhecerão oficialmente. Vocês jantarão em grupo, para que possam se conhecer melhor, e amanhã os jogos começam!
Engoli em seco. Regras demais, estrutura demais, gente demais. Eu só queria ficar sozinha com um violino.
Começamos a percorrer o segundo andar; e cada menina ia ficando em seu quarto. O meu era depois de uma curva no corredor, em um pequeno saguão onde também estavam os quartos de Bariel, Tiny e Jenna. Fiquei feliz de não ser bem no meio do tumulto, como o de Miley. Talvez assim eu tivesse um pouco mais de privacidade.
Assim que nossa guia saiu, abri a porta do meu quarto, para o susto de três mulheres. Uma estava costurando em um dos cantos, as outras limpavam um quarto já perfeito. Elas largaram apressadamente o que faziam para se apresentar: Lucy, Anne e Mary. Esqueci quem era quem quase imediatamente. Custou bastante convencê-las a me deixar sozinha.
Não queria ser grossa, já que estavam ansiosas por ajudar, mas eu precisava de um tempo sozinha.
— Eu só preciso tirar uma soneca. Tenho certeza de que o dia de vocês também foi longo. O melhor que podem fazer por mim é me deixar descansar e dar uma relaxada também. Mas, por favor, me acordem quando for hora de descer.
Depois de uma nova enxurrada de agradecimentos e reverências, que tentei interromper, eu estava a sós. Não ajudou. Tentei me esticar na cama, mas cada milímetro do meu corpo estava tenso, como se não quisesse que eu me sentisse confortável em um lugar que obviamente não era para mim.
Havia um violino no canto, e também um violão e um piano maravilhoso, mas não consegui me empolgar com eles. Minha mala estava bem fechada, esperando ao pé da cama, mas me pareceu trabalho demais. Sabia que eles tinham guardado algumas coisas especiais para mim no armário e nas gavetas, mas também não tive vontade de explorar.
Só fiquei lá deitada, quieta. Sabia que deviam ter passado horas, mas elas pareceram uns poucos minutos quando minhas criadas bateram levemente à porta. Deixei-as entrar e, apesar de parecer estranho, me vestir. Elas estavam tão felizes em ser úteis que eu não podia pedir que saíssem outra vez.
As criadas puxaram partes do meu cabelo para trás e prenderam com presilhas delicadas, além de retocar minha maquiagem. O vestido — que, como o resto do guarda-roupa, fora criado pelas mãos delas — era verde-escuro e sua barra tocava o chão. Sem aqueles saltos médios, eu tropeçaria nele. Silvia bateu à minha porta pontualmente às seis para me levar para o salão, junto com minhas três vizinhas. Esperamos as demais no vestíbulo ao pé da escada e então marchamos até o Salão das Mulheres. Miley me viu e caminhamos juntas.
O som de trinta e cinco pares de salto alto contra o mármore da escada era como a música de uma manada elegante. Escutavam-se alguns cochichos, mas a maior parte das moças permanecia em silêncio. Notei que as portas da sala de jantar estavam fechadas quando passamos. Será que a família real estava lá, fazendo sua última refeição a três?
Era estranho sermos convidadas e, no entanto, ainda não termos conhecido nenhum deles.
O Salão das Mulheres tinha mudado na nossa ausência. Os espelhos e cabides já não estavam lá. Em seu lugar, havia mesas e cadeiras preenchendo o salão, além de uns sofás que pareciam bem confortáveis. Miley olhou para mim e apontou com a cabeça para um deles. Nós nos sentamos juntas. Quando todas estávamos acomodadas, ligaram a TV e assistimos ao Jornal Oficial. As mesmas notícias de sempre — novidades sobre o orçamento dos projetos, a situação das guerras e outro ataque rebelde no leste — para depois dedicarem os trinta minutos finais aos comentários de Gavril sobre as imagens do nosso dia.
— Aqui vemos a senhorita Blanda Newsome se despedir de seus muitos admiradores de Clermont. Essa adorável garota precisou de mais de uma hora para dizer adeus aos fãs.
Blanda sorriu convencida ao se ver na TV. Ela estava ao lado de Bariel Pratt, com seus cabelos alisados até o talo e de um loiro tão claro que pareciam brancos. E não havia como dizer de um jeito mais educado: ela tinha seios enormes. Eles se insinuavam no seu vestido tomara que caia, desafiando todos a tentar ignorá-los.
Bariel era linda, mas de um jeito comum. Tinha um estilo parecido com o de Blanda. Ao ver as duas juntas pensei na expressão “Mantenha seus inimigos por perto”. Acho que uma viu na outra a concorrente mais forte logo de cara.
— E as outras garotas do meio-leste também são muito populares. A atitude calma e refinada de Taylor Brouillette a define imediatamente como uma dama. Sua expressão humilde ao caminhar em meio à multidão não é muito diferente da expressão da própria rainha. E Miley Tames, de Kent, estava toda eufórica em sua partida hoje, tendo até mesmo cantado o hino com a banda enviada ao local.
Fotos de Miley sorrindo e abraçando a multidão da sua província natal apareceram na tela.
— Ela é uma das favoritas de muitas pessoas que entrevistamos hoje.
Miley estendeu o braço e apertou minha mão. Estava feito: eu ia torcer por ela.
— Quem também viajou com a senhorita Tames foi Demetria Singer, uma das três Cinco a chegar à Seleção.
Eles me fizeram parecer melhor do que eu realmente estava naquele momento. Tudo de que eu me lembrava era da minha triste busca por alguém na multidão. Mas o trecho que escolheram me fez parecer madura e responsável. A imagem do abraço com meu pai era linda e comovente.
Ainda assim, não foi nada comparado às minhas imagens no aeroporto.
— Sabemos que castas nada significam na Seleção, e parece que não devemos desprezar a senhorita Demetria. Assim que aterrissou em Angeles, tornou-se a queridinha da multidão, parando para tirar fotos, distribuir autógrafos e conversar com quem estava por lá. Ela não tem medo de sujar as mãos, uma qualidade que muitos creem ser necessária à nossa próxima princesa.
Quase todas olharam para mim. Pude ver em seus olhos o mesmo olhar que recebi de Emmica e Samantha. De repente, aquelas encaradas fizeram sentido. Minhas intenções não importavam. As outras garotas não sabiam que eu não queria ganhar. Na visão delas, eu era uma ameaça. E dava para notar que me queriam fora.


Hey, hey, hey lindos e lindas da Tia Gabs! Tudo bem com vocês amores?
Disse que ia postar no sábado mas eu infelizmente tive uns probleminhas e não pude postar. Alias, essa semana está insana para mim já que a minha formatura é no sábado. Vocês não sabem como eu estou enlouquecendo!
Mas o negócio é o seguinte: 3 comentários para o próximo capitulo que já está pronto e é o capitulo que Joseph e Demetria se conhecessem #Treta
É isso!

3 comentários apenas eu posto o capitulo!

Beijos

05/12/2013

Quer ser uma Selecionada? e Afiliados e Capitulo

(sendo sexy com o homem-aranha)

Hey pessoinhas!

Como vocês estão? Eu tô bem, obrigada por perguntar.
Como vocês viram no titulo do post, eu preciso de algumas Selecionadas para a fic. E eu vou explicar como você pode ser uma. 
Eu não tenho uma noção exata de quantas vão ser ao longo da fic mas cada pessoa que seguir o blog "O Estranho Mundo da Gabs" e comentar #UP na ultima postagem automaticamente ganhará uma personagem. Não sei em que capitulo cada uma vai aparecer mas, para vocês terem noção, algumas (acho que uma quatro ou cinco) já apareceram no próximo capitulo. Serão personagens recorrentes e que não apareceram com muita frequência na fic já que o nosso foco é a Demetria certo?

Mas, Gabs, o que eu preciso fazer para ser uma Selecionada e entrar na fic? 
Recapitulando: cada pessoa que seguir o blog "O Estranho Mundo da Gabs" e comentar #UP na ultima postagem automaticamente ganhará uma personagem.

E eu tenho 11 vagas para blogs afiliados. Caso vocês queiram se afiliar é só mandarem por comentário esse micro formulário 

Nome:
Nome do Blog:
Link do Blog:

E me colocarem na sua elite afiliados. Em até três dias eu respondo dizendo se aceitei sua afiliação.

E sobre o Capitulo.....Sábado será postado baby!

Bem, é o fim desse post

Beijos de Luz 

27/11/2013

Capitulos 7

Fui a primeira a chegar ao aeroporto e fiquei extremamente assustada. A alegria superficial da multidão desaparecera. Agora eu enfrentaria a terrível experiencia de voar. Eu ia viajar ao lado de outras três Selecionadas. Procurei controlar meu nevosismo: não queria de forma nenhuma ter um ataque de pânico na frente delas.
Já tinha decorado os nomes, os rostos e as castas de todas as Selecionadas. Primeiro como um exercício terapêutico, um meio de me acalmar. Eu já fazia isso antes, mas com escalas musicais e cultura inútil. Na verdade, o que procurava na lista de ?Selecionadas eram rostos amigáveis, meninas com quem pudesse conversar enquanto estivesse no palácio. Nunca tive uma amiga de verdade. Tinha passado a maior parte da infância brincando com Dallas e Logan. Minha mãe tinha me ensinado tudo, e eu só tinha trabalhado com a minha familia. quando meus irmãos mais velhos saíram de casa, passei a me dedicar a Maddison e Frankie. E a Nicholas...
Só que nós dois nunca fomos apenas amigos. Desde o primeiro momento em que o vi, eu o amei.
Agora ele estava por aí, segurando a mão de outra garota.
Ainda bem que eu estava sozinha. Nunca teria conseguido segurar as lágrimas na frente das outras meninas. Doía. Tudo doía. E não havia nada que eu pudesse fazer.
Mas como é que eu havia idio parar ali? um mês antes, eu tinha uma porção de certezas na minha vida. Agora, o pouco que conhecia tinha ficado para trás. Casa nova, casta nova, vida nova. Tudo por conta de um pedaço de papel idiota e de uma foto. Quis sentar e chorar, lamentar todas as coisas que perdi.
Eu me perguntava se algumas das outras garotas também estava triste. Achava que todas, exceto eu, deveriam estar comemorando. E eu precisava pelo menos fingir que comemorava também, pois o país inteiro estaria me vendo.
Tomei coragem para enfrentar o que estava por vir. eu me fiz de forte. Enfrentaria o que surgisse. Quanto  ao que tinha ficado para trás, decidi que era melhor assim: deixar para trás. O palácio seria meu refúgio. Jamais pensaria nele ou diria seu nome outra vez. Ele não tinha autorização para me acompanhar até lá. Era minha regra para essa pequena aventura.
Acabou.
Adeus, Nicholas.

Meia hora depois, duas meninas de camisa branca e calça preta entraram pela porta. Sua malas eram puxadas pelas assistentes. Ambas sorriam, confirmando assim minha teoria de que eu era a única Selecionada deprimida.
Era hora de levar a sério minha promessa. Reuni forças e me levantei para cumprimenta-las

- Oi! - disse, radiante - Meu nome é Demetria
- Eu Sei! - disparou a garota da esquerda, uma loira de olhos verdes. Notei imediatamente que se tratava de Miley Tames, de Kent. Uma Quatro. ela nem ligou para minha mão estendida; partiu logo para um abraço.
- Opa! - deixei escapar. Não esperava aquilo. Embora Miley fosse uma das garotas com um rosto sincero amigo, minha mãe passara a semana anterior me dizendo para ver todas as garotas como inimigas, e um pouco desse jeito ofensivo de pensar entrou em minha cabeça. Eu esperava quando muito um desejo cordial de boas-vindas por parte daquelas meninas que estavam prontas para lutar até morrer por um homem que eu não queria. Em vez disso, ganhei um abraço.
 - Meu nome é Miley, e o dela é Taylor.
Sim. Taylor Brouillette, de Allens, uma Três. Seu cabelo também era loiro, mas muito mais claro que o de Miley. Seu olhos muito azuis davam ao rosto um ar pacifico e delicado. Ela parecia frágil ao lado de Miley.
Ambas eram do norte; talvez por isso estivessem juntas. Taylor fez um aceno simpático e sorriu. Só. Não sei se era tímica ou se queria descobrir qual era a minha primeiro. Ela era uma Três de nascimento, então talvez só fosse mais comportada..
- Amei seu cabelo! - irrompei Miley - Queria ter nascido ruiva. Você fica tão bem assim. Ouvi dizer que as ruivas têm um gênio difícil. É verdade?

Apenas do dia péssimo, o jeito de Miley era tão animado que eu não pude deixar de sorrir.

 - Acho que não. Quer dizer, posso ser difícil, mas minhas irmã também é ruiva e é um doce.

Miley e eu nos demos bem logo de cara, o que me deu esperanças de talvez sair de tudo aquilo com uma amiga. Embora tenhamos conversado por quase meia hora, o tempo voou. Não teríamos parado senão pelo som marcado dos saltos altos pontilhando o chão. Viramos a cabeça ao mesmo tempo, e pude ouvir a boca de Miley se abrir com um estalo.
Uma morena de óculos escuros caminhava em nossa direção. Usava uma margarida no cabelo, só que tingida de vermelho para combinar com seu batom. Seus lábios balançavam a cada passo, e a sua pisada reforçava uma marcha confiante. Ao contrário de Miley e Taylor, ela não sorriu.
Não é que estivesse infeliz. Ela tinha foco. Sua entrada foi pensada para intimidar. E funcionou com Taylor, de quem escutei um suspiro de "Ah, não" à medida que a recém-chegada se aproximava.
Blanda Newsome, de Clermonte, uma Dois, não me incomodava. Ela pensava que estávamos lutando pela mesma coisa.
Blanda finalmente chegou até nós. Miley soltou uma "olá" esganiçado, tentando fazer amizade em meio a toda aquela intimidação. Blanda apenas a olhou de alto a baixo e deu um suspiro.

- Quando partimos? - perguntou
- Não sabemos - respondi, sem um pingo de medo. - Você estava demorando para aparecer.

Blanda pareceu não gostar nem um pouco, e começou a me medir, mas fez questão de sugerir que não tinha se abalado.

- Desculpem, mas muita gente queria se despedir de mim. Não pude evitar - e deu um sorriso largo, como se fosse obvio que era cultuada.

E eu estava a ponto de me ver cercada por garotas assim. Ótimo.
Um homem entrou pela porta logo em seguida, como se quisesse aproveitar a deixa.

- Fui informado de que nossas quatro Selecionadas já chegaram
- É isso mesmo - Blanda disse com doçura.

Deu pra ver nos olhos do homem que ele tinha amolecido um pouco. Ah, ent~~ao esse era o jogo dela...Ele ficou calado por um instante, e então pareceu despertar

- Pois bem, senhoritas, tenham a bondade de me acompanhar. Vamos levar vocês até o avião, que vai partir para sua nova casa

O voo, que só foi assustador durante a decolagem e o pouco, durou poucas horas. Havia filmes e comida, mas eu só queria olhar pela janela. Observava o país de cima, impressionada com seu tamanho.
Blanda preferiu dormir durante o voo, o que foi um favor. Taylor baixou uma das mesas dobráveis do avião e começou a escrever cartas sobre suas aventuras. Foi inteligente da parte dela trazer folhas de papel na bagagem. aposto que Maddie adoraria adoraria saber dessa parte da jornada, ainda que o príncipe estivesse ausente dela.

- Ela é tão elegante - Miley cochichou no meu ouvido enquanto apontava com o queixo em direção a Taylor.

Estávamos sentadas uma de frente para a outra em assentos estofados logo na entrada do pequeno avião.

- Ela tem sido superlegal, desde que a conheci. Vai ser uma forte concorrente - Miley prosseguiu.
- Você não pode pensar assim - respondi - Sim. claro que você quer chegar até o fim, mas não porque venceu alguém. Só precisa ser você mesma. Quem sabe? Talvez Joseph prefira uma pessoa menos formal.

Miley pensou um pouco:

- Acho que é um bom argumento. É difícil não gostar de Taylor. Ela é muito gentil. e é linda.

Concordei com a cabeça. Depois, a voz de Miley virou um sussurro.

- Blanda, por outro lado...

Arregalei os olhos e balancei a cabeça.

- Eu sei. Só faz uma hora que a conhecemos e eu já estou torcendo para ela voltar para casa.

Miley pôs a mão na boca para esconder a risada.

- Não quero falar mal de ninguém mas ela é tão agressiva! E Joseph nem está por perto. Fico meio tensa por causa dela.
- Não fique - confortei-a - Esse tipo de garota cai fora da competição naturalmente.

Miley deu um suspiro:

- Espero que sim. Às vezes eu gostaria...
- Do quê?
- Bem, às vezes eu gostaria que os Dois tivessem ideia de como é ser tratado como nós.

Concordei. Nunca tinha pensado que estava no mesmo nível de uma Quatro, mas acho que ocupávamos posições semelhantes. além dos Dois e Três, havia apenas graus distintos de vida ruim.

-  Obrigada por conversar comigo - ela disse - Estava preocupada pensando que ia ser cada uma por si, mas você e Ashley têm sido muito legais. Talvez seja divertido - ela concluiu, erguendo a voz com esperança.

Eu não tinha muita certeza disso, mas sorri de volta. Não tinha razões para me afastar de Miley ou ser grossa com Taylor. As outras garotas podiam não ser tão tranquilas.
Quando aterrissamos, encontramos uma atmosfera silenciosa ao longo do caminho - cercado de guardas - entre o avião e o terminal. Mas assim que as portas se abriram vieram os gritos ensurdecedores.
O terminal estava cheio de gente pulando e torcendo. Um tapete dourado indicava o caminho aberto por cordões de isolamento. Por esse trecho circulavam a intervalos regulares guardas que olhavam de maneira inquieta para os lados, prontos para atacar ao primeiro sinal de perigo. Será que não tinham nada mais importante para fazer?
Por sorte, Blanda ia à frente e começou a acenar. Percebi no ato que essa era a reação certa, e não ficar encolhida como eu planejava. Como as câmeras estavam lá para captar cada movimento nosso, fiquei feliz por não conduzir o grupo.
A multidão estava louca de alegria. Aquelas pessoas viviam perto dali e estavam ansiosas para vislumbrar em primeira mão a chegada das meninas à cidade. Um dia, uma de nós será a rainha.
Virei a cabeça inúmeras vezes em questões de segundos `a medida que as pessoas espremidas no terminal gritavam meu nome. havia também cartazes com meu nome. Eu estava maravilhada. Já havia gente - que não era da minha casta nem da minha província - que queria que eu fosse a escolhida. Senti um nó de culpa no estômago por desapontá-las.
Baixei a cabeça por um instante e vi uma menininha esmagada contra o parapeito. Ela não devia ter mais de doze anos. Nas mãos, levava um cartaz com a frase AS RUIVAS DOMINAM!, uma pequena coroa desenhada em um canto e estrelinhas para todos os lados. eu sabia. eu sabia que era a única ruiva da competição, e percebi que meus cabelos e os delas tinham praticamente o mesmo tom.
A menina queria um autógrafo. O rapaz ao lado dela queria uma foto, assim como a pessoa ao lado dele, e outra ainda queria apertar minha mão. No fim, acabei percorrendo todo o tapete vermelho umas duas ou três vezes para falar com gente dos dois lados do trecho.
Fui a ultima a sair. As outras garotas devem ter me esperado por pelo menos uns vinte minutos. Para ser bem franca, eu só sairia dali depressa se o próximo avião de Selecionadas estivesse para pousar. Seria falta de educação usar o tempo delas.
Quando entrei no carro, Blanda bufou, mas não liguei. Ainda estava em êxtase diante da minha adaptação tão rápida a uma situação que me assustara momentos antes. Tinha superado as despedidas, o encontro com as primeiras garotas, meu primeiro voo e a interação com a massa de fãs. Tudo isso sem cometer nenhuma gafe.
Pensei nas câmeras que me seguiam no terminal e imaginei minha família assistindo tudo pela TV. Eu queria que estivessem orgulhosos de mim.


GABS ARE BACK BITCH!
Depois de um mês ausentes por motivos pessoais e escolares, eu estou de volta e trago a novidade que a partir de hoje eu postarei direto!
Quem sentiu saudade de mim?
Espero que gostem do capitulo!
Beijos



10/11/2013

Gabs viciada em fanfic....blog abandonado

É exatamente isso que acontece quando vicio em fanfics: eu esqueço de tudo.
Isso é sério, a fanfic que eu estou lendo se chama I love you and hate you e é uma fanfic interativa, ou seja, uma fanfic que eu personalizo.

Eu acho que vocês deveriam ler. Ta aqui o link pra quem quiser I love you and hate you

Alias, acho que dessa vez vou desativar o blog pra valer...