05/04/2014

Capitulo 02 (Atrasado "por demais da conta sô")

- Me digam que alguém esqueceu a porta aberta e um cachorro entrou e destruiu tudo - Bianca disse olhando pros amigos.
- Caraca! Lembrei-me de uma coisa. - Erin disse e todos olharam pra ela - Esqueci-me de pegar o telefone daquele gatinho que eu cai encima.

Bianca bufou e caminhou até o apartamento. Tudo estava revirado e destruído. Gabriel, Lai, Erin e Clary entraram no apartamento e sentiram a mesma coisa que Bianca ao ver tudo aquilo.
Clary caminhou até Bianca e disse:

- Está tudo bem. Nós vamos dar um jeito.
- Eu preciso de um pouco de ar. - Bianca olhou para a amiga e saiu do apartamento.

Bianca saiu do prédio e caminhou pelas ruas vazia do bairro aonde moravam. Aquele dia que aparentava ser perfeito, no fim, foi um desastre! Tudo que estava dentro daquele apartamento era resultado de uma batalha dela e dos amigos e , agora, tudo teria que ser reconstruído.

Enquanto isso no apartamento...

Os quatro amigos encaravam tudo. Gabriel, chapado como nunca, cantava uma musica qualquer.

- Puta que pariu! Meu gato pôs um ovo, mas gato põe ovo, puta que pariu de novo! Eu sou um vampiro doidão.
- Pera! – Todos deram atenção pra Erin – Cadê a Bia???
- Sério mesmo que você não viu saindo? – Clary disse olhando pra cara de Erin.
- Nunca saberia que ela tinha saído caso você não tive me comunicado agora – Erin disse.
- Pensando no cara, certo? – Lai perguntou.
- Pensando naqueles magníficos olhos verdes. – Erin disse – Mas, e agora, o que vamos fazer??
- Precisamos começar ligando pra polícia – Clary disse e pegou seu celular.

Com Bianca...

Ela andava distraída quando trombou com dois caras suspeitos.

- Me desculpem – Bianca disse se recompondo.
- CARAMBA! CARA, ELA É A DEMI LOVATO! – Um dos caras disse.
- O quê??? Não, definitivamente não – Bianca disse.
- Vamos leva-la – Um dos caras falou – Ela vale uma grana.

E sem perceber Bianca foi “apagada” pelos homens. Eles a carregaram por dois quarteirões até uma van preta aonde itens do apartamento se encontravam.

- Vamos leva-la para o esconderijo e depois vamos falar pro chefe a surpresinha que nós temos pra ele – Um deles falou.
- Ele vai adorar saber que sequestramos a cantora favorita dele – O outro disse.

No apartamento...

- Bem, já liguei pra polícia – Clary disse – Não mexam em nada, eles estão vindo fazer uma perícia.
- Tarde demais – Gabriel solta um bibelô que se estilhaça no chão.
- Gabriel! – Clary diz – Por favor, não toquem em nada.
- Vamos aos nossos quartos ver se sumiu algo. – Lai disse.
- É melhor – Erin vai na frente sendo seguida por Gabriel e Lai.
- Espero que a Bianca esteja bem – Clary diz e vai até seu quarto.

Com Bianca...

Quando ela acorda, Bianca pensa estar cega, pois tudo está escuro.

- Socorro! Alguém? Eu não sou a Demi Lovato – Ela diz num tom de voz razoavelmente alto.
- Negação. A primeira confirmação de que ela é realmente a Demi Lovato – Um deles diz.
- Sério mesmo que vocês acham que eu sou a Demi?? – Bianca perguntou inconformada.
- Nós temos certeza que sim – O outro falou tentando esconder a empolgação na voz.
- Legal. – Ela lamenta – Dá pra acender a luz?
- Você que manda Diva! – Um deles disse completamente empolgado.

Assim que as luzes são acesas, Bianca vê que está presa num galpão enorme. Ela também vê as suas coisas roubadas num canto.

- Ei! Foram vocês que assaltaram meu apartamento?? – Ela diz.
- Não fomos nós não. Nós assaltamos o apartamento de uma inimiga do nosso chefe – Um deles disse – Agora dá pra cantar This Is Me pra mim?
- Certo, eu canto mas só se vocês me disserem seus nomes – Bianca resolveu entrar no papel.
- Eu sou o Clark e ele é o John. – Clark disse empolgado.
- Okay. Prazer, Clark e John. - Bianca disse.
- Agora canta - John diz com um certo tom de empolgação na voz.

E Bianca cantou com o tom mais próximo da Demi Lovato que ela conseguiu e os bandidos se convenceram.

No apartamento...

Todos olharam seus quartos e depois se encontraram na sala.

- Alguém mais teve o quarto revirado? - Lai perguntou.
- Não - Erin disse olhando pros outros.
- O meu estava intacto assim como o da Bianca - Gabriel afirmou.
- O meu estava igualzinho como eu deixei - Clary disse.
- Estranho. o meu estava destruído - Lai disse e começou a ter uma ideia de quem mandará assaltar o apartamento, mas resolveu não falar.
- Bem, de qualquer jeito, a polícia descobrirá quem fez isso - Clary falou otimista.
- Mas possa ser que ela não descobra - Lai falou baixinho.

Assim que eles terminaram de falar a polícia chegou acompanhados por uma equipe de perícia. Eles olharam tudo mas não encontraram nada que desse um sinal de quem tinha invadido o apartamento naquela noite.
Depois da polícia ir embora, não restou nada mais pra eles fazerem a não ser dormir. E quando eles deitaram suas cabeças nos travesseiros, não faziam ideia do perigo que Bianca corria.

Com Bianca...

Ela foi obrigada a cantar durante três horas todas as musica da Demi. E a cada musica terminada, era aclamada por palmas e gritos dos dois bandidos "Lovatics". Quando terminou, ela deu graças a Deus e os bandidos voltaram a ser bandidos.

- Bem, você tem direito a uma ligação e você pode escolher pra quem ligar - Clark disse rindo maleficamente no final.
- E quais opções eu tenho? - Bianca perguntou.
- Seus pais ou seus amigos - John disse sorrindo.
- Não quero ligar pros meus pais - Bianca lamentou. - E meus amigos me deixariam morrer aqui...
- O tempo está acabando, escolha um logo! - John falou impaciente. - Famosos.
- Vou ligar pros meus amigos - Bianca disse sem ter outra escolha fazer. Não queria preocupar os pais.
- Certo. Então disque o numero de um deles. - John colocou o telefone na frente de Bianca e ela digitou o primeiro numero que veio a cabeça.

No apartamento...

Erin descansava tranquilamente quando seus celular começou a tocar desesperadamente. Ela olhou o numero no visor e viu que era desconhecido. Seguindo seus instintos, ela atendeu.

- Alô - a voz de Bianca ecoou no outro lado.
- BIANCA, SEU VACA DESMAMADA!, CADÊ VOCÊ MENINA! - Erin gritou assim que reconheceu a miga
- O negócio é o seguinte, - Uma voz masculina falou do outro lado e ela se assustou - nós estamos com sua amiga.

27/03/2014

Selinho e uma resposta para Diana


A linda da Rockvato me deu um selo. E minha reação foi tipo assim...


E depois foi assim...




Mas vamos deixar isso de lado e fazer o que se pede.

Qual fanfic que você mais gosta de sua autoria?
Não posso dizer qual é minha favorita porque elas são como meu filhos mas eu gostei muito mesmo de escrever a fic "Adolescentes Em Casa" e estou adorando escrever a "We All Have A Story To Tell".
Qual fanfic da minha autoria (quem passou o selo)  você mais gosta?



Repassando:






Agora respondendo a Sweetheart Diana que me perguntou qual o nome da musica que toca no player...
A musica se chama Happily Ever After e quem canta é a banda He Is We.




Capitulo inédito no domingo, dia 30/03


23/03/2014

Capitulo 01

01 de Fevereiro de 2013 

- Precisamos morar juntos algum dia! - Bianca disse em meio a uma conversa

                                                                                                                          01 de Fevereiro de 2016

- Maldito dia em que eu dei a ideia de morarmos juntos - Bianca disse encarando a bagunça na casa.

Já faziam seis meses que os amigos, Lai, Clary, Erin, Bianca e Gabriel, moravam juntos. Eles tomaram essa decisão ainda no Ensino Médio e a partir daquele dia, eles juntaram todo o dinheiro possível para aquilo acontecer. E quando finalmente aconteceu, parecia um pesadelo para Bianca.

- Posso pedir uma coisa? - Bianca disse segurando uma cueca de Gabriel
- Claro - Todo os três derão atenção pra ela.
- SÓ PORQUE EU CUIDO DA CASA E HIGIENIZAÇÃO, NÃO SIGNIFICA QUE EU SEJA OBRIGADA A ATURAR ISSO!

Ela pegou a cueca e tacou na cara de Lai que tacou na cara de Gabriel.

- É impressão minha ou somente eu deu falta da Erin - Clary perguntou
- Só você - Gabriel disse enquanto analizava a cueca.

Erin entrou no apartamento completamente eufórica.

- Você encontrou o Guns por ai? - Lai perguntou
- Não - Erin desanimou mas logo voltou a ficar animada - Meninas! Tenho novidades.
- Sobre? - Bianca perguntou enquanto passava café
- A banda - Os olhos de Erin praticamente brilhavam
- Conta - Clary se animou
- Consegui um show num barzinho aqui perto - Erin disse
- Sério? Quanto que pagam? - Gabriel largou a cueca
- Sérissimo! Pagaram 75 reais para torcarmos das sete até as dez
- Não é nada tão grandioso mas dá pro gasto - Bianca disse
- Ahhh, só pra constar... já aceitei - Erin disse fazendo uma careta de "ops!".
- Erin! - Bianca disse rindo - Pelo menos podemos nos exercitar
- Ok, então Bianca volta cedo da Faculdade pra podermos ensaiar. - Clary disse batendo palminhas.
- Ok! - Bianca disse e foi para seu quarto.

Como era de costume, todos se arrumaram e foram para a faculdade. Gabriel cursava Engenharia Bélica enquanto Lai cursava Filosofia. Erin cursava Gastrônomia enquanto Clary cursava Publicidade e Propaganda. E Bianca, bem, ela cursava Medicina.

Elas ensaiaram todas as noites antes do show e já sabiam as musicas que iriam tocar. A banda era formada por Bianca, Erin e Clary e se chamava Fireflies. Na noite do show, as três estavam nervosas mas não era nada que elas não pudessem controlar.

- Nós vamos estar lá - Gabriel disse empurrando as três para fora do apartamento
- Não se atrasem como sempre - Clary falou saindo

As três caminharam até o bar. Assim que chegaram, viram que estava cheio e se assustaram.

- Acho que esse vai ser o show mais cheio que fizemos - Clary disse subindo no palco
- Vamos apostar quanto tempo vai levar pra eles irem embora - Erin falou empolgada
- Que tipo de aposta é essa? - Bianca repreendeu - Eles ficaram uma hora
- Meia hora - Erin disse - Valendo uma caipirinha

Elas riram e arrumaram tudo que tinha que arrumar. Cinco minutos antes do show começar elas conheceram o proprietário do bar, e ele era a pessoa mais animada naquele lugar. Quando começaram a tocar, tudo parecia bem até que na terceira musica, Erin se empolgou no solo final de guitarra e, quando fez sua melhor pose de Rock Star, ela caiu no colo de uma cara sentado na primeira mesa.

- MEU ZEUS MORRI E FUI PRO CÉU - Erin disse vendo o cara
- Por que eu deixei ela ler aquele livro de mitologia mesmo? - Bianca perguntou a si mesma - Carinha bonitinho, você pode devolver nossa guitarrista? Depois você pode falar com ela, ok? - Ela anunciou no microfone
- NÃOOOO, me deixa aqui Bia por Favor - Erin fez biquinho e Bianca riu
- Anda, nós temos um show pra fazer - Ela disse e Enrin subiu no palco - Certo, então lá vamos nós!

O show continuou por mais uma hora e meia e, ao contrário do que Erin e Bianca pensavam, todas as pessoas que estavam no bar se mantiveram agitadas durante todo o espetacúlo.
Quando elas finalmente foram dispensadas, as três desceram do palco e foram até a mesa aonde Gabriel, Lai e seus respectivos namorados se encontravam.

- Não é porque eu tô quase bêbado que eu não posso falar a verdade- Gabriel disse levantando uma caipirinha - VOCÊS FORAM FODAS!
- Valeu Gabriel bêbado - Erin disse tomando o copo da mão dele
- De nada - ele disse pegando o copo de volta.
- Quem deixou ele beber tanto? - Bianca perguntou se servindo.
- Ninguém, como sempre - Lai disse.
- E por que ninguém mandou ele parar de beber? - Bianca perguntou ficando zangada.
- Porque ninguém é minha mãe - Gabriel disse de uma forma quase não intelígivel.

A noite ia se alongando e Gabriel e Lai iam tomando. Já passava da meia-noite quando, já irritada, Bianca mandou todo mundo pra casa. E não é necessário dizer que o caminho foi um tormento com Gabriel e Lai gritando uma musica do Matanza.

- ESTAMOS TODOS BÊBADOS. BÊBADOS DE CAIR. SE TODOS NÃO ESTIVEREM BÊBADOS, CAIRAM FORA DAQUI - E os dois quase cairam
- Da próxima vez preciso filmar isso - Erin disse rindo
- Bando de crianças irresponsáveis - Bianca disse entre os dentes
- Hey, relaxa Bia! Você não é a mãe deles e ambos são maiores de idade - Erin disse e Bianca mandou um olhar fatal.

Eles seguiram cantando até a portaria do prédio aonde moravam. Bianca sentia uma vontade imensa de socar eles mas se conteve até o apartamento deles. Quando desceram no andar, eles perceberam todas as suas coisas jogadas pelo corredor e quando finalmente viram a porta, perceberam que ela estava aberta.

- Me digam que alguém esqueceu a porta aberta e um cachorro entrou e destruiu tudo - Bianca disse olhando pros amigos.

13/03/2014

Vou continuar postando fic aqui mas...

(Sei que não tem nenhuma ligação entre o post e o gif mas o Marshall estava muito fofo para não estar aqui)

Certo, depois de ver que algumas pessoas ficariam tristes por eu deixar o blog, resolvi não bloquiar o acesso de vocês ao blog e continuar postando fics.
Porém, eu não vou continuar postando A Elite. Depois de falar com as meninas do Sweethearts e pensar muito mesmo, decidi postar minha primeira fic original minha aqui também.
A fic ainda não tem nome definido (algo entre It's A Crazy World ou I Need Find Him) e deve estrear provavelmente na semana que vem.
Eu realmente espero que vocês gostem dessa fic.

08/03/2014

Isso é uma despedida mas não é necessário dizer adeus...


Sim, é isso mesmo que você leu. Eu decidi parar de postar nesse blog.
Eu juro que pensei muito nisso e decidi que era o melhor que eu podia fazer, já que eu não tenho mais todo tempo do mundo para me dedicar a ele.
Não existe nada que me faça mudar de opinião. Eu vou bloquear o acesso das pessoas a ele pois não teria coragem de excluir ele definitivamente, já que grande parte da minha adolescência está aqui. Só que hoje eu tenho dezoito anos e preciso fazer algo muito mais sério.
Não vou parar de escrever fanfics, só que a partir de agora vou escrever histórias originais, e não sobre os Jonas, Demi, Selena e Miley.
Sei que vocês querem ler a continuação da fic, então minha recomendação é que vocês leiam o livro da Kiera Cass ( A Seleção e A Elite).
Eu vou continuar com os blogs "Lá Vem a Tempestade" e "O Estranho Mundo de Gabs" e vou postar minhas fics no Nyah Fanfiction a partir de agora. Quem quiser ser avisado sobre novas fics e posts no blog, basta me adicionar no facebook.
Peço desculpas do fundo do meu coração mas é que dessa vez, eu precisei pensar no meu futuro.

O blog será inativado dia 15/03/2014 e esse é meu ultimo post nele.

Com amor

Gabs Muniz

04/03/2014

Capitulo 08

A FESTA DE HALLOWEEN FOI TÃO INCRÍVEL quanto Joseph tinha prometido. Quando adentrei o Grande Salão, com Maddie ao meu lado, fiquei pasma com toda aquela beleza diante de meus olhos. Tudo era dourado. Enfeites de parede, joias brilhantes sobre os candelabros, copos, pratos, e até a comida: tudo tinha toques de ouro. Nada era menos do que magnífico. Um aparelho de som tocava música pop, mas, no canto do salão, uma pequena banda aguardava o momento de tocar as danças tradicionais que tínhamos aprendido. Câmeras — de foto e vídeo — espalhavam-se pelo ambiente. Sem dúvida, a festa seria o destaque da programação de Illéa no dia seguinte. Impossível existir uma comemoração como aquela. Imaginei por uns instantes como seria se eu estivesse aqui até o Natal.
As fantasias estavam maravilhosas. Miley estava de anjo, dançando com o soldado Woodwork. Sua fantasia tinha até asas — pareciam feitas de papel brilhante — que pendiam das suas costas. Celeste usava um vestido curto feito de penas; a pluma comprida na parte de trás de sua cabeça indicava que a fantasia era de pavão. Selena estava ao lado de Natalie, e ambas pareciam ter combinado: o corpete do vestido de Natalie estava coberto de flores abertas, ao passo que a saia de pregas era feita de tule azul. O vestido de Selena era dourado como o salão e recoberto com camadas e camadas de folhas. Chutei que estavam fantasiadas de primavera e outono. Uma ideia fofa.
A herança asiática de Elise foi explorada ao máximo. Seu vestido de seda era um exagero perto das roupas discretas que ela costumava usar. As mangas longas e drapejadas eram dramáticas ao extremo, e sua capacidade de andar com todos aqueles enfeites na cabeça me impressionou. Elise não era de chamar a atenção, mas naquela noite estava linda, com um ar de rainha. Espalhados pelo salão, estavam parentes e amigos, também fantasiados, e mesmo os guardas estavam bem-vestidos. Vi um jogador de beisebol, um vaqueiro, alguém de terno com um crachá em que se lia GAVRIL FADAYE. Um dos guardas ousou ao ponto de botar um vestido de mulher; estava rodeado por um punhado de meninas que morriam de rir. Muitos dos outros guardas, no entanto, estavam com a versão de gala de seus uniformes, que consistia simplesmente em calças vincadas brancas e casaca azul. Usavam luvas, mas não chapéu, o que ajudava a distingui-los dos guardas em serviço que rondavam o salão.

— Então, o que você está achando? — perguntei a Maddie, mas quando me virei ela já tinha desaparecido na multidão para explorar o lugar.

Comecei a rir sozinha enquanto tentava identificar seu vestidinho bufante no salão. Quando ela me disse que queria ir à festa fantasiada de noiva — “tipo as da TV” —, achei que era piada. Mas ela ficou simplesmente ótima de véu.

— Olá, senhorita Demetria — alguém sussurrou em minha orelha. Voltei à realidade e ao me virar para responder deparei com Nicholas ao meu lado com seu uniforme de gala.
— Você me assustou! — reclamei, com a mão no coração como se isso fosse diminuir seu ritmo.

Nicholas apenas riu.

— Gostei da fantasia — ele disse, com um tom simpático.
— Obrigada.

Também gostei. Anne tinha me transformado em uma borboleta. Meu vestido, bem ajustado, era de um material esvoaçante, com a barra preta ondulando à minha volta. Uma máscara minúscula imitando asas de borboleta me cobria o rosto e criava um ar misterioso.

— Por que você não se fantasiou? — perguntei. — Não conseguiu pensar em algo?

Nicholas sacudiu os ombros.

— Prefiro o uniforme. — Hmm. Me parecia triste desperdiçar esse ótimo pretexto para uma extravagância. Aliás, Nicholas tinha menos oportunidades nesse sentido do que eu. Por que não aproveitar?
 — Só vim para dar um “oi”, ver como você estava.
— Legal — repliquei. Me sentia tão estranha.
— Ah — ele disse, descontente. — Tudo bem, então.

Talvez ele esperasse uma resposta melhor depois do que dissera no outro dia, mas eu ainda não estava preparada para dizer nada. Nicholas se despediu com um aceno e saiu para falar com outro guarda, que o abraçou como um irmão. Comecei a pensar se o fato de ele ser um guarda lhe dava uma sensação de pertencer a uma família, como a que eu tinha adquirido na Seleção. Logo em seguida, Miley e Elise me encontraram e me arrastaram para a pista de dança. Enquanto eu balançava o corpo — com cuidado para não acertar ninguém —, avistei Nicholas no canto da pista, conversando com minha mãe e Maddie. Minha mãe passou a mão na manga da camisa dele, para ajeitá-la, talvez, e Maddie estava radiante. Podia imaginar as duas dizendo a ele como estava bonito de uniforme, como sua mãe ficaria orgulhosa se o visse. Ele devolveu o sorriso, e dava para notar que também estava muito contente com os elogios.
Nicholas e eu éramos duas raridades: uma Cinco e um Seis arrancados de suas vidas monótonas e colocados no palácio. A Seleção transformava tanto a minha vida que eu me esquecia de apreciar esses momentos. Dancei num círculo com algumas das outras meninas e com outros guardas, até que a música parou e o DJ começou a falar:

 — Senhoritas da Seleção, cavalheiros da guarda, amigos e parentes da família real: por favor, deem as boas-vindas ao rei Paul, à rainha Denise e ao príncipe Joseph Schreave!

A banda explodiu em notas musicais, e todos reverenciamos e inclinamos a cabeça para a passagem da família real. Aparentemente, o rei estava vestido de rei, só que de outro país. Não captei a diferença. O vestido da rainha era de um azul tão escuro que parecia preto, e ainda estava enfeitado com brilhantes de alto a baixo. Parecia o céu de noite. E Joseph, beirando o ridículo, estava de pirata. Sua calça estava cheia de rasgões, e ele usava uma camisa folgada com um colete por cima e uma bandana na cabeça. Para impressionar mais ainda, ele tinha ficado um ou dois dias sem se barbear, de modo que uma sombra de pelos castanhos em forma de sorriso cobria a metade de baixo de seu rosto.
O DJ nos pediu para abrir espaço na pista para o rei e a rainha terem sua primeira dança. Joseph se afastou e permaneceu ao lado de Selena e Natalie, sussurrando coisas para ambas, que riam. Por fim, notei que ele estava como que inspecionando o salão. Não sei se procurava por mim, mas não queria ser pega olhando para ele. Ajeitei a saia do vestido e voltei os olhos para os pais de Joseph. O rei e a rainha pareciam bem felizes. Pensei sobre a Seleção, sobre a loucura de tudo aquilo, mas não podia contestar seus resultados: o rei Paul e a rainha Denise pareciam feitos um para o outro. Ele parecia enérgico, e ela compensava isso com sua natureza calma. Ela era uma ouvinte silenciosa, ao passo que ele sempre parecia ter algo a dizer. Embora tudo aquilo merecesse ser considerado arcaico e errado, funcionava. Será que, durante a Seleção deles, tinha existido algum momento em que eles se distanciaram, como eu sentia Joseph se distanciar de mim? Por que ele não tinha feito sequer uma tentativa de me ver em meio aos encontros com todas as outras?
Talvez seja esse o motivo de ele ter falado com meu pai: explicar por que ele precisava me mandar embora. Joseph era uma pessoa educada; certamente faria uma coisa assim. Corri os olhos pela multidão, à procura de Nicholas. No meio desse gesto, vi que meu pai tinha acabado de chegar; estava de braços dados com a minha mãe, no outro lado do salão. Maddie estava ao pé de Miley, que a abraçava por trás, como uma irmã; os vestidos brancos de ambas brilhavam ainda mais com a luz. Não me surpreendia o fato de as duas se darem tão bem em menos de um dia. Respirei fundo. Onde estaria Aspen? Olhei para trás — era minha última tentativa — e lá estava ele, bem atrás de mim, sempre à minha espera. Quando nossos olhos se encontraram, ele piscou para mim, e esse gesto levantou meu astral. Assim que o rei e a rainha terminaram, todos fomos à pista de dança. Os guardas passavam de lá para cá e logo arrumavam um par. Joseph permanecia em pé, no canto, com Selena e Natalie. Fiquei na esperança de que ele me tirasse para dançar. Eu é que não queria chamá-lo.
Controlei os nervos, ajeitei o vestido e andei em direção a Joseph. Decidi ao menos lhe dar a chance do convite. Abri caminho pela pista de dança com a intenção de entrar na conversa dos três. Já estava perto o bastante para dizer algo quando Joseph olhou para Natalie.

— Quer dançar? — ele perguntou.

Ela riu e inclinou a cabeça para o lado como se sua resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo. Já eu, passei reto por eles, com os olhos cravados na mesa de chocolates, como se ela fosse meu destino desde o começo. Fiquei de costas para todos enquanto comia aqueles doces maravilhosos, com a esperança de que ninguém reparasse em minhas bochechas vermelhas. Depois de umas seis músicas, o soldado Woodwork surgiu. Como Nicholas, ele escolhera usar seu uniforme.

— Senhorita Demetria — disse ele, inclinando a cabeça —, posso ter a honra desta dança?

Sua voz era alegre e terna. Me senti contaminada por seu entusiasmo e não pensei duas vezes antes de pegar em sua mão.

— Com certeza, senhor — respondi. — Devo preveni-lo, porém, de que não sou muito boa.
 — Não tem problema. Iremos devagar.

Seu sorriso era tão convidativo que eu nem me preocupei com a minha péssima aptidão para dança. Me deixei levar alegremente para a pista. A música era animada, assim como a personalidade dele. Ele falou o tempo todo e foi difícil acompanhar seu ritmo.

— Você parece completamente recuperada da nossa trombada do outro dia — brincou Woodwork.
— Foi uma pena você não ter me machucado — repliquei. — Se estivesse de muletas, pelo menos não precisaria dançar.

Ele riu.

— Fico feliz em ver que de fato você é engraçada, como todos dizem. Falam também que você é a favorita do príncipe — disse, como se a opinião do príncipe fosse de conhecimento comum.
— Não estou sabendo disso.

Parte de mim ficava com muito ódio quando as pessoas falavam isso. Outra parte ansiava para que ainda fosse verdade. Olhei por cima do ombro do soldado Woodwork e vi Nicholas e Blanda dançando. Senti um nó no estômago.

 — Parece que você se dá bem com quase todo mundo. Alguém me disse até que durante o último ataque você levou suas criadas consigo para o abrigo da família real. É verdade?

Ele parecia maravilhado. Para mim, tinha sido completamente normal naquele dia proteger as garotas que eu adorava, mas todo mundo considerava meu ato como ousado ou estranho.

— Eu não podia deixá-las para trás — expliquei. Ele balançou a cabeça, espantado.
— Você é uma verdadeira dama.
— Obrigada — respondi, corando.

Fiquei esbaforida depois da música e fui sentar em uma das muitas mesas espalhadas pelo salão. Me servi do ponche de laranja e comecei a me abanar com um guardanapo enquanto observava as pessoas dançarem na pista. Vi Joseph com Elise. Pareciam felizes em meio aos rodopios. Ele já tinha dançado duas vezes com Elise e nada de vir atrás de mim. Levei tempo para descobrir onde Nicholas estava no salão; havia vários homens de uniforme. Por fim, o encontrei em um canto, conversando com Blanda. Ela piscava para ele com um sorriso charmoso nos lábios. Quem ela pensava que era?
Me levantei para mandá-la parar, mas tomei consciência do que esse gesto acarretaria para Nicholas e para mim, antes de dar o primeiro passo. Me sentei novamente e voltei a bebericar meu ponche. Quando a música acabou, andei rapidamente na direção de Nicholas. Queria ficar próxima o bastante para que ele pudesse me tirar para dançar. Foi o que ele fez. E foi bom, porque acho que eu não teria conseguido segurar meu gênio.

 — Mas que diabos foi aquilo? — perguntei em voz baixa, mas claramente indignada.
— Aquilo o quê?
— Blanda esfregando as mãos pelo seu corpo!
— Alguém está com ciúmes — cantou ele em meu ouvido.
— Ah, sem essa! Ela não pode agir assim. É contra as regras!

Olhei ao redor para me certificar de que ninguém, principalmente meus pais, notaria o tom íntimo da nossa conversa. Vi minha mãe sentada, conversando com a mãe de Natalie. Meu pai tinha sumido.

— Isso vindo de você? — disse Nicholas em tom de gozação, jogando a cabeça para trás.
— Se não estamos juntos, você não pode me proibir de falar com ninguém.

Fiz uma careta de raiva.

— Você sabe que não é assim.
— Como é, então? — ele sussurrou. — Quando penso em você, nunca sei se devo insistir ou deixar pra lá— depois balançou a cabeça. — Não quero desistir, mas se posso ter esperanças, me diga.

Dava para notar o esforço que fazia para manter o rosto tão calmo, para esconder a tristeza na voz. Aquilo também me machucava. Pensar em pôr fim em tudo era como uma facada no peito. Respirei fundo e confessei.

— Ele tem me evitado. Diz oi e tal, mas tem dado muita atenção às outras meninas ultimamente. Acho que cheguei a pensar que ele gostava de mim de verdade.

Nicholas parou de dançar por uns instantes, chocado com minhas palavras. Se recuperou logo e passou a contemplar meu rosto.

— Não tinha percebido que era esse o problema — disse, calmamente. — Você sabe que quero ficar com você, só que não quero ver você magoada.
— Obrigada — agradeci, encolhendo os ombros. — Me sinto a mais idiota.

Nicholas me puxou para si, mantendo ainda uma distância respeitosa ente nós, embora eu soubesse não ser esse o seu desejo.

 — Acredite em mim, Demi: qualquer homem que deixe passar a chance de ficar com você é o idiota de verdade.
— Você tentou deixar passar essa chance — lembrei a ele.
— É por isso que sei — afirmou, com um sorriso.

Fiquei feliz de podermos fazer piada sobre o assunto. Olhei por cima do ombro de Nicholas e vi Joseph dançando com Kriss. De novo. Por acaso, ele não me chamaria nem para uma dança? Nicholas falou no meu ouvido.

— Você sabe o que essa festa me lembra?
— O quê?
— O aniversário de dezesseis anos de Fern Tally.

Olhei para ele como se fosse louco. Me lembrava da festa de dezesseis anos de Fern. Fern era uma Seis, e às vezes ajudava minha família quando a mãe de Nicholas estava ocupada demais para nos atender. Seu aniversário de dezesseis anos foi uns sete meses depois de Nicholas e eu termos começado a namorar. Nós dois fomos convidados, mas não foi bem uma festa. Um bolo e água, o rádio ligado porque ela não tinha discos, sob a luz fraca do porão inacabado. O diferencial foi essa ter sido a primeira festa em que estive, a não ser pelas festas de família: a garotada do bairro sozinha naquele lugar. E como foi empolgante. Mas não dava para compará-la ao esplendor do que acontecia ao nosso redor no grande salão.

— Como esta festa pode ser parecida com aquela? — perguntei, cética.

Nicholas engoliu em seco e falou:

— Nós dançamos. Lembra? Fiquei tão orgulhoso de ter você em meus braços na frente de outras pessoas. Mesmo parecendo que você estava tendo uma convulsão — ele concluiu, piscando para mim.

Aquelas palavras agitaram meu coração. Eu me lembrava daquele dia. Vivi aquela festa na minha cabeça por semanas. E, de repente, milhares de segredos que Nicholas e eu tínhamos construído e guardado entre nós inundaram minha mente: os nomes escolhidos para nossos filhos imaginários; nossa casa na árvore; o lugar atrás do pescoço onde ele sentia cócegas; os bilhetes escritos e escondidos; minhas tentativas fracassadas de fazer sabão caseiro; as partidas de jogo da velha que jogávamos num tabuleiro invisível em sua barriga e usando o dedo para marcar as jogadas... As partidas em que esquecíamos nossas jogadas invisíveis... Os jogos que ele sempre me deixava ganhar.

— Me diga que vai esperar por mim. Se você esperar por mim, Demi, posso aguentar qualquer coisa — sussurrou ele.

A música seguinte foi uma canção tradicional, e um soldado que estava próximo me chamou para dançar. Eu estava arrasada. Deixei tanto Nicholas quanto eu própria sem respostas. A noite continuou, e mais de uma vez me peguei caçando Nicholas com o olhar. Embora eu tentasse parecer natural, apostaria que qualquer pessoa atenta teria notado, em especial meu pai, se estivesse no salão. Mas ele parecia mais interessado em passear pelo palácio em vez de dançar. Tentei me distrair com a festa e provavelmente dancei com todos os garotos do salão, exceto Joseph. Me sentei para descansar meus pés exaustos, e foi nesse momento que ouvi uma voz ao meu lado.

— Senhorita?

Me virei, e Joseph continuou:

— Posso ter a honra desta dança?

O sentimento, aquela coisa impossível de definir, percorreu meu corpo. Por mais rejeitada que me sentisse, por mais vergonha que tivesse passado, quando ele me ofereceu aqueles instantes com ele, tive de aceitá-los.

— Claro.

Ele tomou minha mão e me conduziu à pista. A banda começou a tocar uma música lenta. Senti uma pontada de felicidade. Ele não parecia irritado ou incomodado. Pelo contrário, Joseph me puxou para tão perto de si que pude sentir seu perfume e sua barba rala contra minha bochecha.

— Fiquei imaginando se conseguiria ao menos uma dança com você — comentei, tentando soar brincalhona.

Joseph deu um jeito de me puxar ainda mais para si.

— Eu estava guardando este momento. Passei um tempo com todas as outras garotas para acabar logo com minhas obrigações. Agora, posso desfrutar do resto da noite com você.

Corei, como sempre acontecia quando ele me dizia coisas assim. Às vezes, suas palavras eram como poemas de um verso só. Não me lembro de tê-lo ouvido falar assim comigo ao longo da semana anterior. Meu coração acelerou.

 — Você está perfeita, Demetria. Linda demais para estar nos braços de um pirata desleixado.

Achei graça e comentei:

— Mas que fantasia você usaria para combinarmos? De árvore?
— No mínimo, de algum tipo de arbusto.
— Pagaria para ver você vestido de arbusto! — falei, entre risos.
— Ano que vem — ele prometeu.

Olhei para ele. Ano que vem?

— Você gostaria? Gostaria de outra festa de Halloween no próximo mês de outubro? — perguntou Joseph.
— E eu estarei aqui no próximo mês de outubro?

Joseph parou de dançar.

— Por que não estaria?

Encolhi os ombros.

— Você me evitou a semana toda. Saiu com outras meninas. E... vi você e meu pai conversando. Pensei que talvez você estivesse lhe contando que teria de dar um pé na filha dele.

Engoli em seco. Não ia chorar ali.

— Demetria.
— Entendi. Alguém tem que sair. Eu sou uma Cinco, Miley é a favorita do povo...
— Demetria, chega — ele protestou com a voz serena. — Eu sou um idiota. Não fazia ideia de que você veria as coisas assim. Pensei que você estava segura na sua condição.

Havia algo aí que ainda não fazia sentido para mim. Joseph respirou fundo.

— Você quer saber a verdade? Eu estava tentando dar uma chance para as meninas competirem. Desde o começo, só olhava para você, só queria você.

Ao ouvir essas palavras, corei mais uma vez. Joseph prosseguiu:

— Quando você me revelou seus sentimentos, fiquei tão aliviado que parte de mim não acreditou. Ainda me esforço para aceitar que aquilo foi real. Você ficaria surpresa se soubesse como é raro eu conseguir algo que eu queira de verdade.

Os olhos de Joseph escondiam alguma coisa, uma tristeza que ele não estava preparado para expressar. Ele afastou aqueles pensamentos e continuou sua explicação:

— Tinha medo de estar errado, de você mudar de ideia a qualquer minuto. Procurei uma alternativa adequada, mas a verdade é... — Joseph me olhou firmemente nos olhos — que só existe você. Talvez eu não esteja procurando de verdade, talvez elas não sirvam para mim. Não importa. Só sei que quero você. E isso me assusta. Esperava que você fosse voltar atrás, implorar para sair.

Levei uns momentos para recuperar o fôlego. De repente, todo aquele tempo afastada dele me pareceu diferente. Compreendia essa sensação: de que era bom demais para ser verdade, bom demais para confiar. Me sentia assim todos os dias em que estava com ele.

— Joseph, isso não vai acontecer — sussurrei, com a boca próxima ao pescoço dele. — No máximo, você vai perceber que não sou boa o suficiente.

Os lábios dele chegaram ao meu ouvido.

— Você é perfeita.

Puxei-o contra meu peito, e ele fez o mesmo. Ficamos mais próximos do que nunca. No fundo da minha mente, uma voz me dizia que estávamos em um salão lotado, que ali, em algum lugar, estava minha mãe, provavelmente desmaiando com a cena. Mas nada importava. Naquele momento, parecíamos ser as únicas duas pessoas no mundo.
Afastei um pouco o rosto para ver Joseph, e percebi que para isso teria que limpar as lágrimas dos olhos. Só que eu gostava daquelas lágrimas. Joseph explicou tudo.

— Quero que as coisas aconteçam no tempo certo. Logo que eu anunciar a dispensada de amanhã, para a alegria do povo e de meu pai. Não quero apressá-la, de forma alguma. Quero que você veja a suíte da princesa, que fica bem ao lado da minha — ele disse, em voz baixa. Fiquei um pouco zonza só de pensar que ficaria tão perto dele o tempo todo. — Você deveria começar escolhendo o que vai querer dentro dela. Quero que você se sinta completamente à vontade. Você também terá que escolher mais algumas criadas, e decidir se vai querer sua família no palácio ou em uma casa aqui perto. Vou ajudá-la em tudo.

Uma batida fraca do meu coração me sussurrava: “E Nicholas?”. Só que eu estava tão entregue a Joseph que mal a escutei.

 — Em breve, quando eu encerrar a Seleção, quando pedir sua mão em casamento, quero que isso seja tão fácil quanto respirar para você. Prometo fazer tudo que estiver ao meu alcance para que as coisas sejam assim. O que você precisar, o que você quiser: basta dizer, e farei tudo que puder para ajudá-la.

Fiquei chocada. Joseph me entendia tão bem. Sabia como eu estava nervosa com aquele compromisso, como me amedrontava a perspectiva de ser princesa. Ele estava disposto a me dar até o último segundo que podia e, até lá, me encher de todos os presentes possíveis. Tive outra vez a sensação de que era impossível crer que aquilo estava acontecendo.

— Isso não é justo, Joseph — eu murmurei. — O que eu seria capaz de dar em troca?

Ele abriu um sorriso.

— Tudo o que quero é que você prometa ficar comigo, ser minha. Às vezes, você não parece real. Me prometa que vai ficar.
— Claro que prometo.

Depois disso, apoiei a cabeça sobre seu ombro e dançamos agarrados uma música atrás da outra. Houve um momento em que meu olhar e o de Maddie se cruzaram; ela parecia prestes a morrer de felicidade por nos ver juntos. Minha mãe e meu pai também nos viram, sendo que meu pai sacudia a cabeça como se dissesse “e você achando que ia ser mandada embora”. E então algo me veio à cabeça.

— Joseph? — chamei, levantando os olhos para ele.
— Sim, querida?

Ser chamada daquele jeito me fazia sorrir.

— Por que você estava conversando com meu pai?

Joseph achou graça na pergunta.

— Ele sabe das minhas intenções. E saiba que ele as aprova de coração, desde que você seja feliz. Foi essa a única condição dele. Assegurei a ele que faria tudo o que estivesse ao meu alcance para vê-la feliz, e disse que você já parecia feliz de estar aqui.
— E estou.

Senti o peito de Joseph inflar.

— Então ele e eu já temos o que precisamos.

A mão de Joseph deslizou para o fim das minhas costas, me incentivando a não me afastar dele. Seu toque me revelava tantas coisas. Eu sabia que aquilo era real, que estava acontecendo, que eu podia acreditar. Eu sabia que abriria mão das amizades feitas no palácio se necessário, embora tivesse certeza de que Miley não se importaria nem um pouco com a derrota. E sabia que teria que extinguir a chama que mantinha acesa para Nicholas em meu coração. Seria um processo lento, e eu teria de contar para Joseph. Ainda assim, eu a apagaria. Porque então eu era dele. Eu sabia. Nunca estive tão certa.
Pela primeira vez, eu via. Via o corredor, os convidados se levantando, e Joseph de pé, na outra ponta. Graças àquele toque, tudo fazia sentido. A festa avançou pela madrugada, até Joseph arrastar nós seis para a sacada na frente do palácio para que pudéssemos ter a melhor visão dos fogos de artifício. Blanda tropeçava pelos degraus de mármore, enquanto Natalie tinha arranjado um chapéu de algum guarda infeliz. O champanhe rolava solto, e Joseph comemorava antecipadamente nosso noivado com uma garrafa apenas para ele. Assim que os fogos iluminaram o céu, Joseph ergueu sua garrafa.

— Um brinde! — exclamou.

Nós erguemos as taças e esperamos ansiosas. Notei que a taça de Elise estava manchada com o batom preto que ela tinha usado. Até mesmo Miley levantava sua taça, discretamente, bebericando em vez de dar goles grandes.

— A todas vocês, belas senhoritas. E à minha futura esposa! — Joseph puxou.

As garotas vibraram; cada uma pensou que o brinde era para si. Só que eu sabia a verdade. Quando todas baixaram as taças, vi Joseph — meu quase noivo — me dando uma piscadela antes de beber mais um gole de champanhe. O brilho e a emoção ao longo da noite inteira eram estonteantes. Era como se uma fogueira de felicidade me engolisse por completo.
Não podia imaginar nada forte o bastante para roubar aquela felicidade.

25/02/2014

Capitulo 7


LÁ ESTAVA EU, enfileirada com as outras garotas no imenso foyer do palácio, mexendo os pés de um lado para o outro.

 — Senhorita Demetria — sussurrou Silvia.

E foi o bastante para eu entender que meu comportamento estava sendo inaceitável. Como ela era a nossa principal tutora na Seleção, levava muito a sério tudo o que fazíamos. Tentei sossegar. Invejava Silvia, os empregados e o punhado de guardas a passar de um lado para o outro, pelo simples fato de eles terem autorização para andar. Sabia que me sentiria mais calma se pudesse fazer o mesmo. Talvez, se Joseph já estivesse aqui, não fosse tão ruim. Mas talvez eu ficasse mais ansiosa. Ainda não compreendia por que, depois de tudo, ele não tivera tempo para mim nos últimos dias.

— Eles chegaram! — veio a voz pelas portas do palácio. Não fui a única a soltar um suspiro aliviado.
— Muito bem, senhoritas! — gritou Silvia. — Hora de caprichar nos modos! Mordomos e criadas, perto da parede, por favor.

Tentamos ser as jovens adoráveis e nobres que Silvia desejava, mas tudo ruiu no instante em que os pais de Selena e Miley entraram pela porta. Eu sabia que ambas eram apenas crianças, e era óbvio que seus pais estavam com saudades demais para se importarem com o decoro. Eles correram aos berros, e Miley saiu da fila sem parar para pensar. Os pais de Blanda foram mais comedidos, embora tenham ficado claramente emocionados aos ver a filha. Blanda também saiu da fila, mas de um modo muito mais civilizado que Miley. Sequer notei os pais de Natalie ou Elise, porque uma figura baixinha de cabelos ruivos esvoaçantes brilhava ao pé da porta com olhos inquisitivos.

— Maddie!

Ela ouviu meu chamado, viu meu braço acenando e logo correu para mim. Minha mãe e meu pai a seguiram, enquanto eu ajoelhei para abraçá-la.

— Demi! Não acredito! — ela gemeu, com a voz repleta de admiração e inveja. — Você está tão, tão linda!

Não consegui falar. Mal podia vê-la. Eu chorava tanto. Momentos depois, senti os braços firmes de meu pai envolvendo ambas. Em seguida, minha mãe — deixando de lado sua costumeira reserva — se juntou a nós, e logo formávamos um todo, abraçados no palácio. Ouvi alguém bufando e percebi que era Silvia, mas nem me importei com isso àquela altura. Falei, assim que pude voltar a respirar:

— Estou tão feliz de vocês estarem aqui.
— Também estamos, gatinha — retribuiu meu pai. — Não dá para dizer o quanto sentimos sua falta — e concluiu as palavras com um beijo em minha cabeça.

Me virei para abraçá-lo melhor. Até aquele momento, ainda não tinha percebido o quanto eu precisava vê-los. Abracei minha mãe por último. Eu estava chocada por ela estar tão quieta; era incrível que ainda não tivesse exigido um relatório detalhado do meu progresso com Joseph. Mas quando nos afastamos, notei as lágrimas em seus olhos.

— Você está tão linda, querida. Parece uma princesa.

Sorri. Era bom não ouvir somente perguntas e ordens dela, pelo menos uma vez. Naquele momento, ela estava apenas feliz. E isso significava muito para mim, porque eu também estava. Reparei que Maddie olhava para alguma coisa por cima do meu ombro.

— É ele — cochichou.
— Hein? — perguntei, me inclinando para ela.

Quando virei para trás, Joseph nos observava detrás da grande escadaria. Com um sorriso maravilhado, ele abriu caminho para onde estávamos. Meu pai se endireitou rapidamente.

— Vossa Alteza — disse ele, com a voz carregada de admiração.

 Joseph foi ao seu encontro com a mão esticada.

— Senhor Singer, é uma honra. Ouvi tanto a seu respeito. E é uma honra conhecê-la também, senhora Singer — continuou Joseph, dirigindo-se à minha mãe, que também se aprumou e ajeitou o cabelo.
— Alteza — ela desafinou, um pouco atarantada. — Nos perdoe por tudo isso — disse, apontando para o chão, onde Maddie e eu permanecíamos abraçadas.

Joseph riu.

— Não é nada. Não esperaria menos entusiasmo de qualquer pessoa que seja ligada à senhorita Demetria.

Com certeza minha mãe ia querer explicações sobre isso mais tarde.

— E você deve ser Maddie? — continuou Joseph.

Maddie corou ao estender a mão a ele; esperava um aperto de mão, mas ganhou um beijo.

— Nunca lhe agradeci por não ter chorado — brincou o príncipe.
— O quê? — perguntou Maddie, corando ainda mais pela confusão.
— Ninguém disse a você? — falou Joseph, radiante.
— Graças a você, ganhei meu primeiro encontro com sua irmã. Estarei sempre em dívida com você.
— Bom, de nada, acho — respondeu Maddie, entre risos.

Joseph pôs as mãos atrás das costas, como se sua formalidade tivesse voltado.

 — Receio ter que conhecer os outros, mas por favor aguardem aqui por um momento. Farei um breve pronunciamento ao grupo. Espero conseguir falar mais com vocês logo. Estou muito feliz por terem vindo.
— Ele é ainda mais bonito pessoalmente — Maddie cochichou alto; e eu pude notar que Joseph ouviu, pelo leve chacoalhar de sua cabeça.

Ele passou à família de Elise, de longe a mais refinada do grupo. Seus irmãos mais velhos pareciam mais rígidos que os guardas, e seus pais fizeram uma reverência quando Joseph se aproximou. Fiquei imaginando se tinha sido Elise que os tinha mandado agir assim ou se era mesmo o jeito deles. Davam a impressão de ser tão polidos, com seus cabelos negros, os rostos parecidos entre si que se sobressaíam em relação às roupas bonitas.
Ao lado deles, Natalie e sua lindíssima irmã mais nova cochichavam com Selena enquanto seus pais se cumprimentavam. O foyer inteiro estava repleto de uma energia entusiasmada.

— O que quer dizer isso de ele esperar entusiasmo de nós? — minha mãe perguntou em voz baixa. — É porque você gritou com ele quando se encontraram? Você não fez mais isso, fez?

Soltei um suspiro.

— Na verdade, mãe, a gente discute quase sempre.
— O quê? — ela perguntou, de queixo caído. — Pois pare com isso!
— Ah, e eu dei uma joelhada nas partes dele uma vez.

Ficamos em silêncio por uma fração de segundo, até Maddie explodir numa gargalhada. Ela cobriu a boca e tentou parar, mas as risadas continuaram a sair, fazendo uns sons estranhos e agudos. Meu pai apertava os lábios, mas dava para notar que ele estava a ponto de também deixar escapar gargalhadas. Minha mãe estava mais branca que a neve.

— Demetria, me diga que isso é piada. Me diga que você não atacou o príncipe.

Não sei por que, mas a palavra “ataque” foi a gota d’água: Maddie, meu pai e eu começamos a rir até doer a barriga, enquanto minha mãe nos encarava.

— Desculpe, mãe — falei. — Ai, meu Deus.

E, de repente, minha mãe pareceu superanimada para conhecer os pais de Miley, e eu não a impedi.

— Então ele gosta de mulheres que não baixam a cabeça — disse meu pai, assim que sossegamos. — Já passei a gostar mais dele.

Meu pai correu os olhos pelo lugar, contemplando o palácio; eu permaneci ao seu lado, tentando entender suas palavras. Quantas vezes meu pai e Nicholas estiveram na mesma sala durante os anos do nosso namoro secreto? Uma dúzia pelo menos. Talvez mais. E nunca imaginei que ele não fosse aprovar Nicholas. Sabia que seria difícil conseguir seu consentimento para me casar com alguém de uma casta abaixo, mas sempre parti da ideia de que no final teria sua permissão.
Por algum motivo, me senti mil vezes mais estressada. Apesar de Joseph ser Um, e capaz de sustentar todos nós, de repente percebi que existia a possibilidade de meu pai não gostar dele. Meu pai não era um rebelde, não saía por aí queimando casas e tal. Mas eu sabia que ele não gostava do jeito como as coisas eram feitas. E se seus problemas com o governo incluíssem Joseph? E se ele dissesse que eu não deveria ficar com ele? Antes de eu me perder em pensamentos, Joseph subiu alguns degraus na escada para poder ver todos nós.

— Gostaria de agradecer a todos por terem vindo. Estamos muito contentes de recebê-los no palácio, não apenas para comemorar o primeiro Halloween em Illéa após décadas, mas também para nos conhecermos. Sinto muito por meus pais não terem podido cumprimentá-los também. Vocês os conhecerão em breve.

“As mães, irmãs e meninas da Elite estão convidadas a tomar chá com minha mãe esta tarde, no Salão das Mulheres. Suas filhas saberão conduzi-las até lá. Já os cavalheiros poderão fumar charutos com meu pai e comigo. Pediremos a um mordomo que os levem, de modo que ninguém precisa ter receio de se perder. “As criadas os acompanharão aos quartos que vocês ocuparão durante a estadia. Elas também vestirão vocês adequadamente para a visita e a festa de amanhã à noite.”

Joseph encerrou com um aceno e saiu. Uma criada surgiu ao nosso lado quase que imediatamente.

— Senhor e senhora Singer? Estou aqui para acompanhá-los com sua filha até seus aposentos.
— Mas eu quero ficar com Demetria! — protestou Maddie.
— Lindinha, tenho certeza de que o rei nos deu um quarto tão bonito quanto o de Demetria. Você não quer vê-lo? — minha mãe encorajou-a.

Maddie se virou para mim.

— Quero viver exatamente como você. Pelo menos por um tempinho. Posso ficar com você?

Respirei fundo. Então eu teria de abdicar da minha privacidade por uns dias. E daí? Não tinha como dizer não para aquela carinha.

— Tudo bem. Talvez, com nós duas lá, minhas criadas terão algo para fazer de verdade.

Ela me abraçou tão forte que já valeu a pena.

— O que mais você aprendeu? — perguntou meu pai.

Passei meu braço pelo dele, ainda desacostumada com seu terno. Se eu não o tivesse visto milhares de vezes com suas calças sujas de tinta, poderia jurar que ele nascera para ser Um. Ele parecia jovem e bonitão naquelas roupas formais. Estava até mais alto.

— Acho que já lhe contei tudo o que ensinaram sobre a nossa história, sobre como o presidente Wallis foi o último líder do antigo Estados Unidos e depois governou o Estado Americano da China. Eu não sabia nada sobre ele, e você, sabia?

Meu pai fez que sim com a cabeça.

— Seu avô me falou dele. Ouvi dizer que era um cara decente, mas ele não teve saída quando as coisas pioraram daquele jeito.

Apenas no palácio pude conhecer a verdade definitiva sobre a história de Illéa. Por algum motivo, a história da origem do nosso país era quase sempre transmitida oralmente. Ouvi várias coisas diferentes, e nenhuma delas era tão completa como a educação que recebi nos últimos meses. Os Estados Unidos foram invadidos no começo da Terceira Guerra Mundial, quando não conseguiram pagar sua exorbitante dívida com a China. Por não receberem o dinheiro — que os Estados Unidos não tinham —, os chineses instalaram um governo aqui, criando o Estado Americano da China e usando os americanos como força de trabalho. Um dia, os Estados Unidos se rebelaram, não apenas contra a China, mas também contra os russos, que tentavam roubar a mão de obra conquistada pelos chineses. Os americanos juntaram-se ao Canadá, ao México e a vários outros países latinos para formar um único país. Essa foi a Quarta Guerra Mundial. E embora tenhamos sobrevivido e formado um novo país, a guerra devastou a economia.

— Joseph me disse que pouco antes da Quarta Guerra Mundial as pessoas não tinham quase nada.
— Ele tem razão. Esse é um dos motivos de o sistema de castas ser tão injusto. Ninguém tinha muito a oferecer para ajudar no começo, e é por isso que tanta gente acabou nas castas inferiores.

Não estava a fim de discutir esse assunto com meu pai; sabia que ele se empolgaria. Ele não estava errado — as castas eram injustas —, mas era uma visita alegre e não queria desperdiçá-la em conversas sobre coisas que não poderíamos mudar.

— Além de um pouco de história, a maior parte das aulas é de etiqueta. Temos estudado um pouco mais de diplomacia agora. Acho que em breve vamos usá-la para alguma coisa. Eles estão forçando bastante a matéria. Bem, vai ser útil para as garotas que ficarem, em todo o caso.
— Ficar?
— Acontece que uma das garotas voltará para casa com a família. Joseph deve eliminar alguém depois de conhecer todos os pais.
— Você não parece muito feliz com isso. Acha que ele vai mandar você para casa?

Dei de ombros.

 — Vamos, filha. A essa altura você já deve saber se ele gosta de você ou não. Se gosta, você não tem com que se preocupar. Se não gosta, por que vai querer ficar?
— Acho que você está certo. Ele parou de andar.
— E qual das duas opções é a certa?

Era meio vergonhoso falar disso com meu pai, mas também não falaria disso com minha mãe.

— Acho que ele gosta de mim. Ele diz que gosta.

Meu pai riu.

— Então você está indo bem.
— Mas ele tem estado um pouco... distante esta semana.
— Demetria, querida, ele é o príncipe. Provavelmente ele esteve ocupado aprovando leis e coisas assim.

Eu não sabia como explicar que Joseph parecia ter tempo para todas, menos para mim. Era humilhante demais.

— Acho que sim...
— Por falar em leis, você aprendeu algo sobre legislação? Sobre como escrever propostas?

O assunto não me empolgou nem um pouco, mas pelo menos não havia garotos em discussão.

— Ainda não, apesar de lermos muitas delas. Elas são difíceis de entender às vezes. Mas Silvia, a mulher que estava no foyer, é um tipo de guia, tutora, sei lá. Ela tenta explicar as coisas. E Joseph sempre ajuda quando faço perguntas a ele.

Meu pai pareceu se animar.

— Ajuda?
— Ah, sim. Acho que para ele é importante todas nos sentirmos capazes de ter sucesso, sabe? Por isso, ele é ótimo para explicar as coisas. Ele até...

Refleti um pouco. Eu não devia falar da sala dos livros. Mas estava com meu pai.

— Veja — continuei —, você tem que prometer que não vai falar nada para ninguém.

Ele achou graça.

— A única pessoa com quem converso é sua mãe, e todos sabemos que não podemos confiar um segredo a ela, de modo que prometo não contar a ela.

Eu ri. Era impossível imaginar minha mãe guardando um segredo.

— Pode confiar em mim, gatinha — disse ele, com a mão em meu ombro.
— Há uma sala aqui, secreta, cheia de livros, pai! — confessei em voz baixa, olhando para os lados para ver se alguém estava por perto.
— Lá eles guardam livros banidos e mapas-múndi antigos, de como os países eram antes. Pai, eu não sabia que havia tantos países naqueles tempos! E também tem um computador lá. Você já viu um na vida real?

Ele balançou a cabeça, chocado.

 — É fantástico — prossegui. — Você digita o que procura e ele busca em todos os livros da sala até encontrar.
— Como?
— Não sei, mas foi assim que Joseph descobriu o que era o Halloween. Ele até...

Olhei para os dois lados do corredor novamente. Tinha certeza de que meu pai não contaria a ninguém sobre a biblioteca. Mas talvez fosse demais eu revelar que estava com um dos livros secretos.

— Ele até?
— Emprestou-me um deles, só para ver.
— Ah, isso é muito interessante! O que você leu? Pode contar?

Mordi os lábios.

— Um dos diários de Gregory Illéa.

O queixo de meu pai caiu antes de ele ter tempo para absorver a notícia.

— Demetria, isso é incrível. O que diz lá?
— Ah, eu não terminei. A maior parte tenta descobrir o que era o Halloween.

Ele ponderou minhas palavras por um momento e balançou a cabeça.

 — Por que você está preocupada, Demetria? Está claro que Joseph confia em você.

Soltei um suspiro, sentindo-me idiota.

— Acho que você está certo.
— Fantástico — sussurrou ele. — Então há uma sala escondida em algum lugar por aqui? — disse, enquanto observava as paredes de um modo todo novo.
— Pai, este lugar é maluco. Há portas e painéis por toda parte. Pelo que sei, se eu empurrasse este vaso, poderíamos cair em um alçapão.
— Hmm, então serei cuidadoso ao fazer o caminho de volta para o meu quarto — concluiu, maravilhado.
— O que você provavelmente precisa fazer logo. Tenho que aprontar Maddie para o chá com a rainha.
— Ah, sim, você e seus chás com a rainha — brincou. — Tudo bem, gatinha. Vejo você à noite no jantar. Agora... qual é o melhor jeito de evitar uma portinhola secreta? — ele perguntou-se em voz alta e saiu com os braços esticados, para se proteger. Assim que meu pai chegou à escadaria, apoiou-se no corrimão, bem devagar. — Só para você saber, este é seguro.
— Obrigada, pai.

Acenei com a cabeça e tomei o caminho do quarto. Era quase impossível não dar pulos de alegria pelos corredores: estava tão feliz de ter minha família aqui que mal podia me conter. Se Joseph não me mandasse embora, seria mais difícil do que nunca me separar deles. Dobrei a esquina para o quarto e vi a porta aberta.

— Como ele era? — ouvi Maddie perguntar, enquanto me aproximava.
— Bonito. Pelo menos para mim. Seus cabelos eram meio ondulados e nunca assentavam.

Maddie riu, e Lucy fez o mesmo ao terminar de falar.

— Às vezes, eu corria os dedos por eles — continuou a criada. — Penso nisso de vez em quando. Não tanto como antes.

Andei na ponta dos pés para não atrapalhá-las.

— Você ainda sente saudades dele? — perguntou Maddie, sempre curiosa sobre garotos.
— Cada dia menos — Lucy reconheceu, com um quê de esperança na voz. — Quando cheguei aqui, pensei que fosse morrer com a dor. Vivia pensando em formas de escapar do palácio e voltar para ele, mas isso nunca daria certo. Não podia abandonar meu pai, e mesmo que eu chegasse do lado de fora, não haveria como encontrar o caminho de volta.

Eu sabia pouco do passado de Lucy, de como sua família concordou em servir uma família de Três em troca do dinheiro de uma operação para a mãe de Lucy, que acabou falecendo. Depois, quando a mãe da família de Três descobriu que seu filho estava apaixonado por Lucy, vendeu Lucy e o pai para o palácio. Espiei pela porta e lá estavam Maddie e Lucy sobre a cama. As portas da sacada estavam abertas, e a brisa de Angeles soprava quarto adentro. Maddie tinha ficado muito natural com o visual palaciano: o caimento de seu vestido de dia estava perfeito mesmo com ela sentada na cama fazendo tranças no cabelo de Lucy, que estava solto. Nunca vi Lucy sem coque. Ela ficava linda assim: parecia jovem e despreocupada.

— Como é amar? — perguntou Maddie.

Parte de mim ficou magoada. Por que ela nunca tinha me perguntado isso? Depois, me lembrei: para Maddie, eu nunca tinha amado. Lucy abriu um sorriso triste.

 — É a coisa mais maravilhosa e terrível que pode acontecer com você — afirmou com simplicidade. — Você sabe que encontrou algo incrível e quer levá-lo para sempre consigo. E um segundo depois de ter aquilo, você fica com medo de perder.

Deixei escapar um suspiro. Ela estava completamente certa.
O amor é um medo belo. Como eu não queria pensar muito sobre perder coisas, entrei no quarto.

— Lucy! Olhe para você!
— Gostou? — perguntou ela, com a mão nas tranças delicadas.
— Está maravilhosa. Maddie costumava fazer tranças em mim o tempo todo. Ela é muito talentosa.

Maddie deu de ombros.

— O que eu podia fazer? Como não podíamos comprar bonecas, eu brincava com a Demi.
— Bem — disse Lucy, virando-se para Maddie —, enquanto você estiver aqui, será nossa bonequinha. Anne, Mary e eu vamos deixar você linda como a rainha.

Maddie chacoalhou a cabeça.

— Ninguém é linda como ela — protestou para em seguida virar-se rapidamente para mim. — Não conte para a mamãe que eu disse isso.
— Não conto — falei, rindo. — Agora, porém, temos que ficar prontas. É quase hora do chá.

Maddie bateu palmas, empolgada, e se sentou diante do espelho. Lucy puxou os cabelos para trás, mas conseguiu fazer o coque sem bagunçar as tranças. Depois, pôs seu lenço sobre a cabeça e cobriu quase tudo. Eu não a culparia por querer que seu cabelo ficasse assim por um pouco mais de tempo.

— Ah, a senhorita recebeu uma carta — disse Lucy, entregando-me o envelope com cuidado.
— Obrigada — agradeci, incapaz de esconder o espanto na voz.

A maior parte das pessoas que me escreveria estava no palácio. Rasguei o envelope e deparei com um bilhete, escrito de propósito com uns garranchos que eu conhecia bem.

 Demetria, 

Descobri tarde demais que as famílias da Elite foram há pouco convidadas para conhecer o palácio e que o papai, a mamãe e Maddie partiram para visitá-la. Sei que Dallas está com a gravidez muito avançada para poder viajar, e que Frankie é criança demais. Estou tentando entender por que o convite não se estendeu a mim. Sou seu irmão, Demetria. 
Só consigo imaginar que nosso pai decidiu deixar-me de fora. Espero muito que não tenha sido você. Nós dois — tanto você como eu — estamos próximos de grandes conquistas. Temos condições de ajudar um ao outro. Se qualquer outro privilégio especial for concedido à sua família, você tem que se lembrar de mim, Demetria. Podemos ajudar um ao outro. 
Por acaso você falou de mim para o príncipe? Só por curiosidade.
Escreva em breve. 
Logan 

Pensei em amassar a carta e jogá-la no lixo. Tinha a esperança de que Logan tivesse deixado de lado seu alpinismo de castas e aprendido a contentar-se com o que já tinha. Parece que não dei sorte. Enfiei a carta no fundo de uma gaveta, com a intenção de esquecê-la completamente. A inveja dele não iria estragar a visita.
Lucy chamou Anne e Mary, e nós todas nos divertimos muito enquanto nos aprontávamos. O jeito efervescente de Maddie nos animava; eu até cantei enquanto me vestia. Logo chegou nossa mãe, perguntando se estava bonita, por garantia mesmo. E é claro que estava. Ela era mais baixa e cheinha que a rainha, mas estava tão nobre quanto ela em seu vestido. Ao descermos as escadas, Maddie agarrou meu braço, com uma cara triste.

— O que há de errado? Ansiosa para conhecer a rainha?
— Estou. É que...
 — O quê?

Maddie soltou um suspiro.

— Como posso voltar a usar calças cáqui depois disso?

As meninas estavam animadas, todas explodindo de energia. A irmã de Natalie, Lacey, tinha quase a mesma idade de Maddie; as duas se sentaram em um canto e ficaram conversando. Eu via como Lacey era parecida com a irmã. Na aparência, as duas eram magras, loiras e bonitas. Mas no ponto em que Maddie e eu éramos opostas, Natalie e Lacey eram idênticas. Porém, eu descreveria Lacey como menos caprichosa. Menos sem noção que sua irmã.
A rainha passeava pelo salão e falava com todas as mães. Ela fazia perguntas com seu jeito doce, como se alguém ali pudesse ter uma vida mais impressionante que a dela. Eu estava em um grupinho ouvindo a mãe de Elise falar sobre sua vida na Nova Ásia, quando Maddie puxou meu vestido e me chamou de canto.

— Maddie — falei, cerrando os dentes. — O que é isso? Você não pode agir assim, especialmente quando a rainha está perto!
— Você precisa ver! — ela insistiu.

Ainda bem que Silvia não estava. Eu não me surpreenderia se ela censurasse Maddie por algo assim, apesar de ela não saber de nada.
Fomos até a janela, e Maddie apontou para fora.

— Veja!

Estiquei o olhar para além dos arbustos e vi duas figuras. A primeira era meu pai, que falava e gesticulava com as mãos como se perguntasse ou explicasse alguma coisa. A segunda era Joseph, que fazia pausas para pensar antes de responder. Olhei para trás. As mulheres permaneciam entretidas com a situação, mesmo a rainha, e nenhuma parecia prestar atenção em nós. Joseph parou em frente ao meu pai e falou de uma maneira franca. Não houve agressão ou raiva, mas ele parecia determinado. Depois de uma pausa, meu pai estendeu a mão a ele. Joseph sorriu e a apertou com entusiasmo. Logo em seguida, ambos pareciam mais relaxados, e meu pai deu um tapinha nas costas de Joseph, que ficou um pouco tenso com o gesto; ele não estava acostumado a ser tocado. Mas então meu pai pôs a mão no ombro de Joseph, como costumava fazer comigo. E Joseph pareceu gostar muito.

— O que quer dizer isso? — perguntei em voz alta. Maddie encolheu os ombros.
— Parece importante.
— Parece.

Esperamos para ver se Joseph conversava com o pai de outra garota. Se conversou, não foi no jardim.



22/02/2014

Spoilers do próximos capitulos!

PRIMEIRO:

— Nunca lhe agradeci por não ter chorado — brincou o príncipe.
— O quê? — perguntou Maddie, corando ainda mais pela confusão.
— Ninguém disse a você? — falou Joseph, radiante. — Graças a você, ganhei meu primeiro encontro com sua irmã. Estarei sempre em dívida com você.

SEGUNDO:

Demetria,

Descobri tarde demais que as famílias da Elite foram há pouco convidadas para conhecer o palácio e que o papai, a mamãe e Maddie partiram para visitá-la. Sei que Dallas está com a gravidez muito avançada para poder viajar, e que Frankie é criança demais. Estou tentando entender por que o convite não se estendeu a mim. Sou seu irmão, Demetria.
Só consigo imaginar que nosso pai decidiu deixar-me de fora. Espero muito que não tenha sido você. Nós dois — tanto você como eu — estamos próximos de grandes conquistas. Temos condições de ajudar um ao outro. Se qualquer outro privilégio especial for concedido à sua família, você tem que se lembrar de mim, Demetria. Podemos ajudar um ao outro. Por acaso você falou de mim para o príncipe? Só por curiosidade.

Escreva em breve.

Logan

TERCEIRO:

Kevin foi amarrado à armação em forma de A por outro mascarado. Suas pernas e braços foram esticados ao máximo para imitar a forma daquela peça. Cingiram sua cintura com tiras de couro acolchoadas, tão apertadas que incomodavam mesmo a quem apenas presenciava a cena. Já Miley foi forçada a ajoelhar-se diante do grande bloco de madeira, sem o casaco, arrancado de suas costas. Passaram seus punhos pelos buracos e amarraram suas mãos dos dois lados, com as palmas para cima.

GOODBYE SWEETHEARTS!

21/02/2014

Capitulo 6

— ADORÁVEL, SENHORITA. Continue a apontar para os desenhos. As outras tentem não olhar para mim — pediu o fotógrafo.

Era sábado e toda a Elite havia sido dispensada da obrigação de permanecer no Salão das Mulheres o dia inteiro. No café da manhã, Joseph tinha anunciado a festa de Halloween; à tarde, nossas criadas começaram a desenhar as fantasias, e alguns fotógrafos apareceram para registrar todo o processo.
Naquele momento, eu tentava parecer natural enquanto examinava os desenhos de Anne, e as criadas estavam atrás da mesa com pedaços de tecido, caixas de lantejoulas e uma quantidade absurda de penas. A câmera clicava várias vezes enquanto fazíamos poses diversas, na tentativa de dar opções ao fotógrafo. No instante em que eu posaria com um tecido dourado enrolado na cabeça, recebemos um visitante.

— Bom dia, senhoritas — disse Joseph, caminhando porta adentro.

 Não pude deixar de me endireitar um pouco e tive a sensação de que meu sorriso tomava todo o meu rosto. O fotógrafo captou esse momento antes de se dirigir a Joseph.

— Sua Alteza, é sempre uma honra. O senhor se importaria de posar com a jovem senhorita?
— Seria um prazer.

As criadas abriram espaço. Joseph pegou alguns desenhos e se colocou bem atrás de mim. Uma de suas mãos segurava uma folha e a outra repousava em minha cintura. Esse detalhe significava muito para mim. É como se ele dissesse: “Veja, logo vou tocá-la assim diante do mundo. Você não precisa se preocupar com nada”. Depois de mais algumas fotos, o fotógrafo foi atrás da próxima garota. Percebi que também as criadas, discretamente e por conta própria, haviam deixado o quarto.

 — Suas criadas têm muito talento — disse Joseph. — A ideia é maravilhosa.

Tentei me comportar da mesma maneira de sempre, mas as coisas passaram a ser diferentes, ao mesmo tempo melhores e piores.

— Eu sei — respondi. — Não poderia estar em melhores mãos.
— Já se decidiu por algum? — perguntou ele, espalhando os papéis pela escrivaninha.
— A gente gosta dessa ideia do pássaro. Acho que é uma referência ao meu pingente — eu disse, com a mão sobre o fino cordão de prata. O pingente de passarinho era presente de meu pai, e eu preferia esse objeto a todas as joias pesadas do palácio.
 — Detesto dizer isso, mas acho que Blanda também escolheu uma fantasia de pássaro. A determinação dela era impressionante — disse ele.
— Tudo bem — respondi, dando de ombros. — Não sou louca por penas, mesmo. — De repente parei de sorrir. — Ei, você estava com Blanda?

Ele confirmou com a cabeça.

— Foi apenas uma visita rápida para conversar. Acho que não posso ficar muito tempo aqui também. Meu pai não está contente com tudo isso, mas com a Seleção ainda em curso, compreendeu que seria legal termos um pouco mais de festa. E concordou que também seria um modo bem melhor de conhecer as famílias diante da atual situação...
— Que situação?
— Ele está ansioso por uma eliminação, e devo excluir alguém depois de conhecer os pais de todas. Na opinião dele, quanto antes eles vierem, melhor.

Eu não tinha percebido que mandar uma garota de volta para casa fazia parte dos planos do Halloween. Pensava que seria apenas uma grande festa. Aquilo me deixou nervosa, embora eu repetisse para mim mesma que não tinha motivos para tal. Não depois da nossa conversa do dia anterior. De todos os momentos já compartilhados com Joseph, nenhum me parecia mais real do que aquele. Ainda com os olhos nos desenhos, Joseph falou, com ar distraído:

 — Acho que preciso terminar as visitas.
— Você já vai?
 — Não se preocupe, querida. Vejo você no jantar.

“Sim”, pensei, “mas você verá todas nós no jantar.”

— Está tudo bem? — perguntei.
— Claro — ele respondeu, para depois me beijar. Na bochecha. — Tenho que correr. Falamos mais tarde.

E saiu, tão subitamente como tinha chegado.

No domingo, oito dias nos separavam do Halloween, o que significava que o palácio estava um furacão, cheio de atividades.
Na segunda, a Elite passou a manhã com a rainha Denise provando e aprovando o menu para a festa. De longe, aquela foi a melhor das nossas tarefas até então. À tarde, porém, Blanda ficou horas sumida do Salão das Mulheres. Quando voltou, por volta das quatro da tarde, anunciou a todas que “Joseph mandou lembranças”.
Na tarde de terça-feira, cumprimentamos membros mais distantes da família real que vieram à cidade para os festejos. E naquela manhã, assistimos da janela a Joseph dando uma aula de arco e flecha a Selena nos jardins. As refeições estavam repletas de convidados que chegaram antes da festa, mas Joseph quase nunca aparecia, assim como Miley e Natalie. Eu me sentia cada vez mais envergonhada. Revelar meus sentimentos para Joseph tinha sido um erro. Apesar de toda a conversa, ele não podia estar interessado em mim de verdade se sua primeira opção era sempre passar o tempo com as outras.
Na sexta, já tinha quase perdido as esperanças. Depois do Jornal Oficial, permaneci sentada ao piano, desejando que Joseph viesse ao meu quarto.
Ele não veio.
Tentei distrair a cabeça no sábado. Nós, da Elite, tínhamos a obrigação de fazer sala às mulheres que chegavam no palácio de manhã, e à tarde haveria mais um ensaio de dança. Ainda bem que minha família, como Cinco, tinha escolhido se concentrar em música e artes plásticas: eu era uma péssima dançarina. A única pessoa pior que eu naquele salão era Natalie. Para minha tristeza e meu ódio, Blanda era o máximo da graciosidade. Os instrutores lhe pediram mais de uma vez para ajudar as outras meninas. O resultado foi que Natalie quase torceu o tornozelo graças às más indicações que Blanda lhe dava de propósito. Sutil como uma serpente, Blanda botou a culpa na absoluta falta de jeito de Natalie. Os professores acreditaram nela, e Natalie apenas ria da própria situação. Admirava Natalie por não se abalar por causa de Blanda.
Nicholas esteve presente em todas as aulas. Evitei-o nas primeiras; não tinha muita certeza se queria me aproximar dele. Ouvi rumores de que os guardas tinham começado a mudar suas escalas com uma velocidade enlouquecedora. Alguns estavam desesperados para irem à festa, ao passo que outros tinham namoradas em sua terra natal e arrumariam um grande problema se fossem vistos dançando com outra pessoa, principalmente porque cinco de nós em breve voltariam a ser “solteiras”. Solteiras e bem procuradas. Mas aquele era nosso último ensaio, e Nicholas estava perto o bastante para me tirar para dançar. Não recusei.

— Está tudo bem? — perguntou ele. — Você parecia triste nas últimas vezes em que a vi.
— É só cansaço — menti. Não podia conversar com ele sobre meus problemas afetivos.
— Mesmo? — ele perguntou, cético. — Tinha certeza de que más notícias estavam por vir.
— O que você quer dizer?

Será que ele sabia de algo que eu não sabia? Ele suspirou.

 — Se você pretende dizer que preciso parar de lutar por você, aviso que não quero conversar sobre isso.

Para ser sincera, fazia mais de uma semana que eu nem pensava em Nicholas. Estava tão absorta por minhas palavras e ideias erradas que não podia pensar em mais nada. Lá estávamos nós: enquanto me preocupava com a possibilidade de Joseph me abandonar, Nicholas preocupava-se com a possibilidade de eu o abandonar.

— Não é nada disso — respondi vagamente, me sentindo culpada. Ele acenou com a cabeça, por ora satisfeito com a resposta.
— Ai!
 — Ops! — exclamei.

Tinha pisado no pé dele totalmente sem querer. Me esforcei para prestar atenção na dança.

— Desculpe, Meri, mas você é péssima — ele disse, rindo, apesar de o meu salto provavelmente tê-lo machucado.
— Eu sei, eu sei — eu disse, sem fôlego. — Juro que estou tentando!

Eu me agitava pelo salão como um alce cego, mas o que me faltava de graça eu compensava com esforço. Nicholas, muito gentil, deu o seu melhor para me fazer parecer bem; até perdeu um pouco o compasso da música para acompanhar meu ritmo. Era tão típico dele, sempre tentar ser meu herói. Ao fim da última aula, pelo menos eu sabia todos os passos. Não dava para prometer que não derrubaria sem querer um convidado diplomata com um chute das minhas pernas empolgadas. Mas faria o meu máximo. Imaginar essa cena me fez ver que não era de estranhar que Joseph pensasse duas vezes. Passaríamos vergonha ao visitar outros países e muito mais ao recebermos visitas aqui. Eu realmente não servia para ser princesa. Suspirei e fui buscar um copo d’água. Nicholas me seguiu, ao passo que as outras garotas deixaram o salão.

— Então...

Ele começou a falar. Corri os olhos pelo salão para me certificar de que ninguém nos observava.

— ...suponho que se você não está preocupada comigo, deve estar preocupada com ele. Baixei os olhos e corei. Como ele me conhecia bem.
— Não que eu esteja torcendo por ele e tal, mas se ele não percebe como você é maravilhosa, é um idiota.

Sorri, com os olhos ainda cravados no chão.

— E se você não for a princesa, qual o problema? Você não vai ser menos incrível por isso. E você sabe... você sabe...

Nicholas não conseguia soltar o que tinha a dizer. Arrisquei um olhar para o seu rosto. Nos olhos dele, vi mil finais diferentes para aquela frase. Todos me uniam a ele: ele ainda estaria à minha espera; ele me conhecia melhor que ninguém; nós éramos um; uns meses no palácio não podiam apagar dois anos. Não importa o que acontecesse, Nicholas sempre estaria ao meu lado.

— Eu sei, Nicholas. Eu sei.