19/02/2014
Capitulo 5 - Dedicado para minha Sweetheart Laura
— ENTÃO, SENHORITA BLANDA, lhe parece que os números são insuficientes e que seria necessário aumentar a quantidade de homens selecionados no próximo recrutamento? — perguntou Gavril Fadaye, moderador do debate no Jornal Oficial de Illéa e única pessoa autorizada a entrevistar a família real.
Nossos debates no programa funcionavam como teste, e nós sabíamos disso. Embora Joseph não tivesse prazo, o público clamava para o grupo diminuir; e dava para ver que o rei, a rainha e seus conselheiros também. Se quiséssemos ficar, precisávamos nos sair bem, onde e quando quisessem. Fiquei feliz por chegar ao fim daquele relatório terrível. Me lembrava de algumas estatísticas, então havia chances de eu deixar uma boa impressão naquela noite.
— Exatamente, Gavril. A guerra na Nova Ásia já dura anos. Penso que um ou dois recrutamentos maiores trariam os soldados de que precisamos para terminá-la.
Eu realmente não conseguia suportar Blanda. Ela tinha feito uma menina ser enxotada, arruinou a festa de aniversário de Selena no mês passado e tentou literalmente arrancar meu vestido. Por ser uma Dois, ela se sentia mais que todas nós. Para ser sincera, não tinha opinião sobre o número de soldados de Illéa, mas agora que sabia a de Blanda, decidi ser absolutamente contra ela.
— Discordo — anunciei no tom de voz mais elegante que pude fazer.
Blanda se voltou para mim tão rapidamente que seus cabelos saltaram por cima de seu ombro. Mesmo com as câmeras focadas nela, parecia se sentir perfeitamente à vontade com os olhos cravados em mim.
— Ah, senhorita Demetria, você acha que aumentar o contingente é uma má ideia? — perguntou Gavril.
Senti o calor de minhas bochechas coradas.
— Gente que é Dois pode pagar para fugir do recrutamento. Assim, estou certa de que a senhorita Blanda nunca viu o que acontece com as famílias que cedem seus únicos filhos homens. Recrutar mais seria um desastre, especialmente para as castas inferiores, que costumam ter famílias maiores e precisam do trabalho de cada um deles para sobreviver.
Miley, ao meu lado, me cutucou como aprovação. Blanda tomou a palavra:
— Bom, o que deveríamos fazer? Com certeza você não acha que devemos nos sentar e deixar a guerra se arrastar.
— Não, não. É claro que desejo que Illéa acabe com a guerra.
Fiz uma pausa para organizar as ideias. Olhei para Joseph em busca de algum apoio. Ao lado dele, o rei parecia possesso. Precisava reverter a situação. Falei a primeira coisa que me veio à cabeça.
— E se fosse voluntário?
— Voluntário? — perguntou Gavril.
Blanda e Natalie soltaram uma risadinha, o que piorou a situação. Mas então pensei no assunto. Seria uma ideia tão ruim assim?
— Sim. Certamente haveria pré-requisitos, mas talvez conseguíssemos mais com um exército de homens que querem ser soldados do que com garotos cujo único desejo é sobreviver e retornar à vida normal que deixaram para trás.
Um sussurro intrigado preencheu o estúdio. Aparentemente, meu argumento foi bom.
— É uma boa ideia — palpitou Elise. — Assim, poderíamos enviar novos soldados a cada um ou dois meses à medida que as pessoas se alistassem. Seria um incentivo aos homens que estão servindo há mais tempo.
— Concordo — acrescentou Miley, com sua brevidade típica de debates. Estava claro que ela não se sentia à vontade nessas situações.
— Bem, sei que pode parecer um pouco moderno, mas e se a inscrição fosse aberta às mulheres? — comentou Selena.
Blanda riu alto.
— Quem você acha que se alistaria? Por acaso você iria para um campo de batalha? — sua voz estava carregada de um descaso ultrajante.
Selena não perdeu a cabeça.
— Não, não nasci para ser soldado. Mas — continuou, voltada para Gavril —, se há uma coisa que aprendi na Seleção é que algumas garotas possuem um instinto assassino assustador. Não se deixem enganar pelos vestidos de festa — completou, sorrindo.
De volta ao meu quarto, permiti que as criadas me acompanhassem por mais tempo que o habitual para me ajudarem a tirar o monte de grampos do cabelo.
— Gostei da sua ideia de o exército ser voluntário — disse Mary, enquanto seus dedos trabalhavam depressa.
— Eu também — Lucy acrescentou. — Lembro-me de ver meus vizinhos sofrerem quando seus filhos mais velhos eram recrutados. O clima ficava insuportável quando grande parte deles não retornava. Dava para notar que várias lembranças estavam passando diante de seus olhos. Eu mesma tinha algumas parecidas.
Miriam Carrier enviuvou cedo, mas ela e seu filho, Aiden, conseguiram se virar sozinhos. Quando os soldados apareceram em sua porta, com uma bandeira, uma carta e pêsames por seu filho, ela desabou. Ela não poderia ir em frente sozinha. Mesmo se tivesse capacidade, não teria coragem. Às vezes eu a via mendigando como se fosse uma Oito na mesma praça onde disse adeus a Carolina. Mas eu não podia lhe dar nada.
— Entendo — foi o meu comentário à reflexão de Lucy.
— Acho que Selena foi um pouco longe demais — comentou Anne. — Mulheres na guerra parece ser uma ideia péssima.
Achei graça da careta que ela fazia enquanto cuidava de cada detalhe nos meus cabelos.
— De acordo com meu pai, as mulheres antes...
De repente, uma sequência de batidas na porta nos assustou.
— Tive uma ideia — anunciou Joseph, entrando no quarto sem esperar resposta. Parecia que nós dois tínhamos um encontro fixo todas as sextas à noite, depois do Jornal Oficial.
— Alteza — disseram as três em coro, sendo que Mary derrubou os grampos de cabelo ao se curvar para o príncipe.
— Deixe-me ajudá-la — prontificou-se Joseph, indo na direção dela.
— Está tudo bem — insistiu Mary, extremamente vermelha, já de saída.
Com uma sutileza bem menor do que gostaria — disso tenho certeza —, ela arregalou os olhos para Lucy e Anne, como que implorando para ambas acompanharem-na.
— Ah, hm, boa noite, senhorita — se despediu Lucy, puxando a bainha da saia de Anne para levá-la junto.
Assim que as três saíram, Joseph e eu caímos na gargalhada. Virei para o espelho e continuei a tirar os grampos do cabelo.
— São um trio engraçado — comentou Joseph.
— É que elas admiram tanto você.
Modesto, ele fingiu não ter ouvido o elogio implícito em minhas palavras.
— Desculpe a interrupção.
— Tudo bem — respondi, enquanto tirava o último grampo.
Passei os dedos pelos cabelos, que se espalharam sobre meus ombros.
— Estou bem assim?
Joseph aprovou com a cabeça, depois de olhar para mim por mais tempo que o necessário. Quando voltou a si, falou:
— Em todo caso, aquela ideia...
— Diga.
— Lembra-se daquele negócio de Halloween?
— Sim. Ah, ainda não li o diário. Mas ele está bem escondido — assegurei.
— Tudo bem. Ninguém está procurando por ele. Mas eu estava pensando. Todos aqueles livros diziam que a data caía em outubro, certo?
— Sim — confirmei, sem muita empolgação.
— Pois estamos em outubro. Por que não damos uma festa de Halloween?
Me virei para ele.
— Mesmo? Ah, Joseph, será que podemos?
— Você gostaria?
— Eu amaria!
— Poderíamos mandar fazer fantasias para todas as meninas da Seleção. Os guardas de folga serviriam como pares extras para a dança, já que eu sou um só e seria injusto fazer todo mundo esperar enquanto danço com alguém. E poderíamos também fazer umas aulas de dança por uma ou duas semanas. Você já me disse uma vez que às vezes não há nada para fazer durante o dia. E doces! Teremos os melhores doces nacionais e importados. Você estará empanturrada no fim da noite. Vamos ter que trazer você rolando de volta para o quarto.
Eu estava hipnotizada por aquelas palavras.
— E faremos um pronunciamento. Diremos ao país inteiro para comemorar. Que as crianças voltem a usar fantasias e bater às portas pedindo doces, como no passado. Sua irmã adoraria isso, não?
— Claro que sim! Todo mundo!
Ele refletiu por um momento, seus lábios se contorciam.
— E você acha que ela gostaria de comemorar a data aqui, no palácio?
Fiquei pasma.
— Quê?
— Tenho que conhecer os pais das meninas da Elite em algum momento da competição. Bem que os irmãos poderiam vir junto e fazer desse encontro uma coisa mais festiva em vez de terem que esperar...
Joseph não pôde continuar a frase porque eu me atirei em seus braços. Estava tão exultante com a chance de ver May e meus pais que não consegui segurar o entusiasmo. Ele jogou seus braços em torno de minha cintura e me olhou nos olhos; seu olhar brilhava de alegria. Como essa pessoa — que eu tinha imaginado ser meu extremo oposto — sempre descobria as coisas que mais me alegravam?
— É sério? Eles podem vir de verdade?
— Claro — afirmou ele. — Faz tempo que gostaria de conhecê-los, e faz parte da competição. E além disso, ver suas famílias também faria bem a todas vocês.
Quando tive certeza de que não choraria, cochichei:
— Obrigada.
— É sempre um prazer... Sei que você ama eles.
— Amo.
— E é óbvio que você faria praticamente qualquer coisa por eles — continuou Joseph, com um sorriso. — No fim das contas, você permaneceu na Seleção por causa deles.
Me afastei um pouco para abrir um espaço entre nós que me permitisse ver seus olhos. Não havia nenhuma crítica neles, apenas um espanto com meu movimento abrupto. Mas eu não podia deixar a chance escapar: tinha que ser absolutamente franca.
— Joseph, eles foram parte do motivo de eu ter ficado, no começo, mas não são o motivo de eu estar aqui agora. Você sabe disso, certo? Estou aqui porque...
— Porque...
Olhei para Joseph, para aquele rosto incrível, cheio de esperança. Diga, Demetria. Apenas diga.
— Por quê? — perguntou ele, dessa vez com um sorriso malicioso nos lábios, o que mexeu ainda mais comigo.
Me lembrei da conversa com Miley e de como me sentira no dia em que falamos da Seleção. Era difícil ver Joseph como meu namorado sabendo que ele se encontrava com outras garotas, mas ele também não era apenas um amigo. Mais uma vez, fui tomada por uma sensação de esperança, me maravilhei com a possibilidade de termos algo especial. Joseph significava mais para mim do que aquilo que eu me permitia ver. Dei um sorriso e me dirigi para a porta com passos lentos.
— Demetria Singer, volte aqui.
Ele correu na minha frente e passou o braço por minha cintura. Seu peito pressionava o meu.
— Me diga — cochichou.
Apertei os lábios.
— Ótimo, então terei que me valer de outro meio de comunicação.
Sem qualquer aviso, Joseph me beijou. Senti meu corpo inclinar um pouco para trás, completamente sustentado por seus braços. Passei as mãos em torno de seu pescoço, com o desejo de guardá-lo só para mim... e, então, algo passou por minha cabeça.
Geralmente, eu conseguia deixar de lado todas as outras pessoas quando ficávamos a sós. Mas naquela noite, pensei na possibilidade de haver alguém em meu lugar. Só de imaginar outra garota nos braços de Joseph, fazendo-o rir, casando-se com ele... Isso despedaçava meu coração. Não deu para evitar: comecei a chorar.
— O que foi, querida? Querida?
Aquela palavra, tão terna e pessoal, me tocou. Naquele instante desapareceram quaisquer desejos de lutar contra o que eu sentia por Joseph. Eu queria ser sua querida. Queria ser só de Joseph. Essa escolha poderia implicar um futuro generoso em que eu nunca tinha pensado. Talvez tivesse que dar adeus a diversas coisas que nunca imaginei abandonar. Eu não podia, porém, lidar com a ideia de ficar longe dele. Sim, realmente eu não era a melhor candidata à coroa, mas não queria continuar na competição se fosse incapaz de ao menos confessar meus sentimentos a ele. Respirei fundo, na tentativa de manter a voz firme.
— Não quero deixar tudo isso.
— Se bem me lembro, na primeira vez em que nos encontramos, você disse que o palácio parecia uma jaula.
Joseph sorriu e completou:
— No entanto, acabamos nos apegando a ele, não?
Inclinei um pouco a cabeça, concordando.
— Às vezes, a gente consegue ser bem idiota — eu disse, e um riso fraco conseguiu abrir caminho entre meus soluços.
Joseph me deixou recuar o suficiente para eu olhar no fundo de seus olhos castanhos.
— Não é o palácio, Joseph. O que menos me importa são as roupas, a cama e, acredite, a comida.
Joseph riu. Não era segredo a minha empolgação com as refeições exóticas que fazíamos.
— É você — eu disse. — Não quero deixar você.
— Eu?
Fiz que sim com a cabeça.
— Você me quer?
Achei engraçada a sua expressão maravilhada.
— É isso o que estou dizendo.
Ele se calou por um momento.
— Como... Mas... O que fiz?
— Não sei — respondi, dando de ombros. — Só acho que formaríamos um bom “nós”.
Ele abriu um sorriso.
— Formaríamos um “nós” maravilhoso.
Joseph me puxou para si, de uma maneira até bruta para seus padrões, e me beijou outra vez.
— Tem certeza? — me perguntou, me segurando com os braços esticados e me olhando ansioso. — Certeza absoluta?
— Se você tem, eu também tenho.
Por uma fração de segundo, algo mudou em seu rosto. Mas foi tão rápido que não sabia dizer se aquilo — seja lá o que fosse — tinha sido real. Logo em seguida, Joseph me levou até a cama e sentamos. As mãos dadas e minha cabeça apoiada em seu ombro. Eu esperava que ele dissesse alguma coisa. Afinal, não era o momento que ele tanto esperava? Mas as palavras não vieram. De vez em quando, ele soltava um longo suspiro, e só esse som já me dizia o quão feliz estava. Isso me ajudou a não ficar ansiosa. Depois de um tempo — talvez porque nenhum de nós soubesse o que dizer —, Joseph endireitou a postura.
— Melhor eu ir embora. Se vamos convidar as famílias para a festa, preciso planejar mais.
Eu também me endireitei, sorrindo, ainda alegre por saber que logo abraçaria minha mãe, meu pai e May.
— Obrigada de novo.
Levantamos juntos e caminhamos para a porta. Segurei forte a mão dele. Por algum motivo, me doía ter que soltá-la.
Parecia haver uma fragilidade naquele momento, como se pudéssemos quebrá-lo se nos agitássemos demais.
— Vejo você amanhã — prometeu Joseph, com um sussurro.
Seu nariz estava a milímetros do meu. Ele me olhava com tamanha adoração que me senti tola por me preocupar.
— Você é fantástica — completou ele.
Assim que ele saiu, fechei os olhos e recapitulei tudo o que acontecera naquele pequeno espaço de tempo: o modo como ele olhava para mim, os sorrisos contentes, os beijos doces. Repassava tudo, uma e outra vez, enquanto me preparava para dormir. E me perguntava se Joseph estaria fazendo o mesmo.
18/02/2014
Capitulo 4
— SOU UM CASO PERDIDO! — resmungou Miley.
— Não, não é. Você está indo bem — menti.
Fazia mais de uma semana que eu dava aulas de piano para Miley quase todos os dias e realmente parecia que ela só piorava. Meu Deus, a gente ainda não tinha passado das escalas. E quando ela tocou outra nota errada, não pude disfarçar minha careta.
— Ah, olhe a sua cara! — ela exclamou. — Sou péssima. Não faria diferença se eu tocasse com os cotovelos.
— Talvez devêssemos tentar. Quem sabe os seus cotovelos são mais precisos?
Miley deu um suspiro.
— Desisto. Desculpe, Demetria, você tem sido tão paciente, mas eu não suporto me ouvir tocando. Soa como se o piano estivesse doente.
— Morrendo, eu diria.
Miley caiu na gargalhada e eu fui no embalo. Quando aceitei o pedido por aulas de piano, mal sabia eu que submeteria meus ouvidos a uma tortura tão dolorosa — e hilária.
— Talvez você se saísse melhor no violino. Ele produz um som tão lindo — sugeri.
— Acho que não. Do jeito que sou azarada, acabaria destruindo o violino.
Miley se levantou e caminhou em direção à mesinha onde os papéis que eu deveria ler estavam jogados de canto, ao lado de uma bandeja com biscoitos e chá que minhas criadas haviam deixado para nós.
— Ah, tudo bem. Este aqui é do palácio mesmo. Você pode jogá-lo na cabeça de Celeste se quiser.
— Não me tente — replicou Miley enquanto servia o chá para nós duas.
— Vou sentir sua falta, Demetria. Não sei o que vou fazer quando não nos virmos mais todos os dias.
— Bem, Joseph é muito indeciso, então acho que você não precisa ficar preocupada com isso agora.
— Não sei — disse ela, séria. — Ele ainda não me falou com todas as letras, mas sei que só estou aqui porque o público gosta de mim. Com a maioria das garotas fora, não vai demorar para as pessoas mudarem de opinião. E então ele vai me dispensar.
Escolhi com cuidado as palavras, porque queria que Miley me explicasse por que via uma distância tão grande entre eles sem que ela se comparasse a mim.
— E para você tudo o.k.? Quer dizer, ficar sem Joseph?
Ela deu de ombros.
— Ele não é a pessoa certa. Não me importo de sair da competição, mas também não quero partir — explicou. — Além disso, não gostaria de acabar com um homem que é apaixonado por outra.
Quase caí dura.
— Mas quem ele...
Os olhos de Miley brilhavam triunfantes. Seu sorriso por trás da xícara dizia “peguei você”. E ela tinha me pegado mesmo. Por uma fração de segundo, me dei conta de que a ideia de Joseph se apaixonar por outra me deixava com um ciúme insuportável. E o instante seguinte — quando compreendi o que Miley queria dizer — foi reconfortante. Eu tinha construído vários obstáculos entre mim e ele: caçoava de Joseph e enchia a bola das outras garotas. Mas com uma única frase, Miley passou por cima de tudo isso.
— Por que você ainda não acabou com isso, Demetria? — ela perguntou com uma voz doce. — Você sabe que ele te ama.
— Ele nunca disse isso — falei. E era verdade.
— Claro que não — afirmou ela, como se fosse óbvio. — Ele faz tanto esforço para conquistar você, mas sempre que chega perto, você o afasta. Por quê?
Será que eu podia contar? Será que podia confessar que, apesar de meus sentimentos por Joseph serem intensos — aparentemente mais do que eu imaginava —, havia outra pessoa que eu não conseguia esquecer?
— É que... não tenho certeza, acho...
Eu confiava em Miley. Mesmo. Mas era melhor para ambas que ela não soubesse. Miley fez um sinal de positivo com a cabeça. Ela parecia saber que havia mais coisas por trás de minha resposta, mas mesmo assim não me pressionou. Isso me reconfortou.
— Dê um jeito de ter certeza. Rápido. Não é porque Joseph não me serve que ele deixa de ser um cara bacana. E eu odiaria ver você o perdendo por medo.
Mais uma vez ela estava certa. Eu tinha medo. Medo de que os sentimentos de Joseph não fossem tão autênticos como pareciam; medo das implicações de ser princesa; medo de perder Nicholas.
— Outra coisa — disse ela, baixando a xícara de chá —, toda aquela conversa sobre casamento ontem me fez pensar em algo.
— Sim?
— Você gostaria de, tipo, ser minha madrinha? Se eu casar algum dia...
— Ah, Miley, claro que sim! E você seria a minha?
Estendi as mãos para ela, que as apertou com alegria.
— Mas você tem irmãs... elas não vão se importar?
— Elas vão entender. Por favor?
— Claro! Não perderia seu casamento por nada no mundo — o tom de sua voz sugeria que meu casamento seria o evento do século.
— Me prometa que você estará lá mesmo se eu casar com um Oito zé-ninguém em um beco qualquer.
Miley me olhou com descrença, segura de que tal coisa jamais aconteceria.
— Prometo, mesmo se isso acontecer.
Ela não me pediu um juramento desse tipo, o que me fez pensar outra vez: será que o coração de Miley já era de um Quatro de sua cidade? Mas eu não a pressionaria para dizer. Estava na cara que ambas tínhamos segredos, mas Miley era minha melhor amiga; faria qualquer coisa por ela. À noite, fiquei esperando que pudesse passar algum tempo com Joseph. Miley me fez questionar várias das minhas ações. E ideias. E sentimentos.
Depois do jantar, quando todas levantamos para sair da sala, olhei para Joseph e cutuquei minha orelha. Era o nosso sinal secreto para pedir um encontro, e raramente um de nós deixava a chance passar. Mas naquela noite Joseph fez uma cara de frustração e moveu os lábios, dizendo a palavra “trabalho”.
De brincadeira, lancei um olhar de raiva e acenei com a mão antes de voltar para o meu quarto. Talvez tenha sido melhor assim. Eu precisava mesmo pensar em algumas coisas sobre Joseph. Quando dobrei a esquina do corredor que levava ao meu quarto, lá estava Nicholas mais uma vez, de vigia. Ele me olhou de alto a baixo, analisando meu vestido verde e colado que fazia maravilhas com as poucas curvas que eu tinha.
Passei por ele sem dizer uma só palavra. Antes de eu girar a maçaneta, ele acariciou o meu braço. Foi muito breve. Mas naqueles poucos segundos, senti aquela necessidade, aquele desejo, que Nicholas costumava despertar em mim. Bastou um olhar para eu sentir meus joelhos tremerem. Me enfiei no quarto o mais rápido possível, angustiada com a nossa ligação. Ainda bem que mal tive tempo para pensar sobre aquilo: assim que fechei a porta, minhas criadas amontoaram-se à minha volta para me preparar para a cama. Enquanto as três papeavam e penteavam meus cabelos, eu tentava me esquecer de tudo pelo menos por um momento.
Era impossível. Eu tinha que escolher. Nicholas ou Joseph? Mas como decidir entre duas boas opções? Como decidir se qualquer escolha deixaria parte de mim destruída? Me consolei com o pensamento de que ainda tinha tempo. Eu ainda tinha tempo.
Hey, Sweethearts? Como vão?
Só passei pra avisar que quem quiser entrar no grupo do facebook basta clicar aqui, me adicionar e avisar por mensagem que quer entrar no grupo.
Beijo!
— Não, não é. Você está indo bem — menti.
Fazia mais de uma semana que eu dava aulas de piano para Miley quase todos os dias e realmente parecia que ela só piorava. Meu Deus, a gente ainda não tinha passado das escalas. E quando ela tocou outra nota errada, não pude disfarçar minha careta.
— Ah, olhe a sua cara! — ela exclamou. — Sou péssima. Não faria diferença se eu tocasse com os cotovelos.
— Talvez devêssemos tentar. Quem sabe os seus cotovelos são mais precisos?
Miley deu um suspiro.
— Desisto. Desculpe, Demetria, você tem sido tão paciente, mas eu não suporto me ouvir tocando. Soa como se o piano estivesse doente.
— Morrendo, eu diria.
Miley caiu na gargalhada e eu fui no embalo. Quando aceitei o pedido por aulas de piano, mal sabia eu que submeteria meus ouvidos a uma tortura tão dolorosa — e hilária.
— Talvez você se saísse melhor no violino. Ele produz um som tão lindo — sugeri.
— Acho que não. Do jeito que sou azarada, acabaria destruindo o violino.
Miley se levantou e caminhou em direção à mesinha onde os papéis que eu deveria ler estavam jogados de canto, ao lado de uma bandeja com biscoitos e chá que minhas criadas haviam deixado para nós.
— Ah, tudo bem. Este aqui é do palácio mesmo. Você pode jogá-lo na cabeça de Celeste se quiser.
— Não me tente — replicou Miley enquanto servia o chá para nós duas.
— Vou sentir sua falta, Demetria. Não sei o que vou fazer quando não nos virmos mais todos os dias.
— Bem, Joseph é muito indeciso, então acho que você não precisa ficar preocupada com isso agora.
— Não sei — disse ela, séria. — Ele ainda não me falou com todas as letras, mas sei que só estou aqui porque o público gosta de mim. Com a maioria das garotas fora, não vai demorar para as pessoas mudarem de opinião. E então ele vai me dispensar.
Escolhi com cuidado as palavras, porque queria que Miley me explicasse por que via uma distância tão grande entre eles sem que ela se comparasse a mim.
— E para você tudo o.k.? Quer dizer, ficar sem Joseph?
Ela deu de ombros.
— Ele não é a pessoa certa. Não me importo de sair da competição, mas também não quero partir — explicou. — Além disso, não gostaria de acabar com um homem que é apaixonado por outra.
Quase caí dura.
— Mas quem ele...
Os olhos de Miley brilhavam triunfantes. Seu sorriso por trás da xícara dizia “peguei você”. E ela tinha me pegado mesmo. Por uma fração de segundo, me dei conta de que a ideia de Joseph se apaixonar por outra me deixava com um ciúme insuportável. E o instante seguinte — quando compreendi o que Miley queria dizer — foi reconfortante. Eu tinha construído vários obstáculos entre mim e ele: caçoava de Joseph e enchia a bola das outras garotas. Mas com uma única frase, Miley passou por cima de tudo isso.
— Por que você ainda não acabou com isso, Demetria? — ela perguntou com uma voz doce. — Você sabe que ele te ama.
— Ele nunca disse isso — falei. E era verdade.
— Claro que não — afirmou ela, como se fosse óbvio. — Ele faz tanto esforço para conquistar você, mas sempre que chega perto, você o afasta. Por quê?
Será que eu podia contar? Será que podia confessar que, apesar de meus sentimentos por Joseph serem intensos — aparentemente mais do que eu imaginava —, havia outra pessoa que eu não conseguia esquecer?
— É que... não tenho certeza, acho...
Eu confiava em Miley. Mesmo. Mas era melhor para ambas que ela não soubesse. Miley fez um sinal de positivo com a cabeça. Ela parecia saber que havia mais coisas por trás de minha resposta, mas mesmo assim não me pressionou. Isso me reconfortou.
— Dê um jeito de ter certeza. Rápido. Não é porque Joseph não me serve que ele deixa de ser um cara bacana. E eu odiaria ver você o perdendo por medo.
Mais uma vez ela estava certa. Eu tinha medo. Medo de que os sentimentos de Joseph não fossem tão autênticos como pareciam; medo das implicações de ser princesa; medo de perder Nicholas.
— Outra coisa — disse ela, baixando a xícara de chá —, toda aquela conversa sobre casamento ontem me fez pensar em algo.
— Sim?
— Você gostaria de, tipo, ser minha madrinha? Se eu casar algum dia...
— Ah, Miley, claro que sim! E você seria a minha?
Estendi as mãos para ela, que as apertou com alegria.
— Mas você tem irmãs... elas não vão se importar?
— Elas vão entender. Por favor?
— Claro! Não perderia seu casamento por nada no mundo — o tom de sua voz sugeria que meu casamento seria o evento do século.
— Me prometa que você estará lá mesmo se eu casar com um Oito zé-ninguém em um beco qualquer.
Miley me olhou com descrença, segura de que tal coisa jamais aconteceria.
— Prometo, mesmo se isso acontecer.
Ela não me pediu um juramento desse tipo, o que me fez pensar outra vez: será que o coração de Miley já era de um Quatro de sua cidade? Mas eu não a pressionaria para dizer. Estava na cara que ambas tínhamos segredos, mas Miley era minha melhor amiga; faria qualquer coisa por ela. À noite, fiquei esperando que pudesse passar algum tempo com Joseph. Miley me fez questionar várias das minhas ações. E ideias. E sentimentos.
Depois do jantar, quando todas levantamos para sair da sala, olhei para Joseph e cutuquei minha orelha. Era o nosso sinal secreto para pedir um encontro, e raramente um de nós deixava a chance passar. Mas naquela noite Joseph fez uma cara de frustração e moveu os lábios, dizendo a palavra “trabalho”.
De brincadeira, lancei um olhar de raiva e acenei com a mão antes de voltar para o meu quarto. Talvez tenha sido melhor assim. Eu precisava mesmo pensar em algumas coisas sobre Joseph. Quando dobrei a esquina do corredor que levava ao meu quarto, lá estava Nicholas mais uma vez, de vigia. Ele me olhou de alto a baixo, analisando meu vestido verde e colado que fazia maravilhas com as poucas curvas que eu tinha.
Passei por ele sem dizer uma só palavra. Antes de eu girar a maçaneta, ele acariciou o meu braço. Foi muito breve. Mas naqueles poucos segundos, senti aquela necessidade, aquele desejo, que Nicholas costumava despertar em mim. Bastou um olhar para eu sentir meus joelhos tremerem. Me enfiei no quarto o mais rápido possível, angustiada com a nossa ligação. Ainda bem que mal tive tempo para pensar sobre aquilo: assim que fechei a porta, minhas criadas amontoaram-se à minha volta para me preparar para a cama. Enquanto as três papeavam e penteavam meus cabelos, eu tentava me esquecer de tudo pelo menos por um momento.
Era impossível. Eu tinha que escolher. Nicholas ou Joseph? Mas como decidir entre duas boas opções? Como decidir se qualquer escolha deixaria parte de mim destruída? Me consolei com o pensamento de que ainda tinha tempo. Eu ainda tinha tempo.
Hey, Sweethearts? Como vão?
Só passei pra avisar que quem quiser entrar no grupo do facebook basta clicar aqui, me adicionar e avisar por mensagem que quer entrar no grupo.
Beijo!
16/02/2014
Hoje é meu aniversário mas estou triste
Parabéns para mim, nessa data querida....
Nenhum de vocês se importa certo?
Caraca, só dois comentários no ultimo capitulo?? Vocês não gostaram???
Poxa! Falem algo, por favor!
Já cansei de dizer como a opinião de vocês é importante pra mim.
#SadGabs
Nenhum de vocês se importa certo?
Caraca, só dois comentários no ultimo capitulo?? Vocês não gostaram???
Poxa! Falem algo, por favor!
Já cansei de dizer como a opinião de vocês é importante pra mim.
#SadGabs
11/02/2014
Capitulo 3
AS PORTAS DE MINHA SACADA ESTAVAM ABERTAS, assim como a porta que dava para o corredor, de modo que meu quarto se enchia da brisa que vinha dos jardins. Eu queria que aquele vento suave fosse um consolo para o monte de trabalho que eu tinha a fazer, mas, em vez disso, ele foi uma distração, porque me deixou louca de vontade de estar em qualquer outro lugar que não fosse na frente da escrivaninha.
Suspirei e me larguei na cadeira, jogando a cabeça para trás.
— Anne — chamei.
— Sim, senhorita? — respondeu a chefe das criadas, que costurava no canto do quarto. Eu não precisava olhar para saber que Mary e Lucy, minhas duas outras criadas, ficaram a postos, para poderem me atender também.
— Ordeno que descubra o significado deste relatório — disse eu, estendendo preguiçosamente o braço na direção daquelas estatísticas militares sobre a mesa.
Era um teste para todas as meninas da Elite, mas eu não conseguia me concentrar. As três criadas riram, provavelmente tanto por causa da minha ordem ridícula quanto pelo fato de eu ter finalmente ordenado algo. A liderança realmente não era um dos meus pontos fortes.
— Sinto muito, senhorita, mas penso que isso ultrapassa meus limites — respondeu Anne. Apesar de meu pedido ter sido de brincadeira, assim como a resposta dela, notei um verdadeiro tom de desculpas em sua voz.
— O.k. — lamentei, endireitando-me.
— Terei mesmo que fazer isso sozinha. Vocês são um bando de inúteis. Amanhã pedirei novas criadas. Desta vez é sério.
Todas caíram na gargalhada mais uma vez, e eu voltei a focar nos números. Comecei a desconfiar de que aquele relatório era falso, mas não tinha certeza. Reli os parágrafos e tabelas franzindo a testa e mordendo a tampa da caneta enquanto tentava me concentrar. Ouvi Lucy rir baixo e levantei os olhos para ver o que a divertia. Segui seu olhar até a porta: lá estava Joseph, encostado no batente.
— Você me entregou! — ele reclamou com Lucy, que ainda ria.
Afastei a cadeira com pressa e corri para os braços dele.
— Você leu meus pensamentos!
— Li?
— Por favor, diga que podemos ir lá fora. Só um pouquinho?
Joseph sorriu.
— Tenho vinte minutos e depois tenho que voltar.
O arrastei pelo corredor. O matraquear empolgado das criadas desaparecia atrás de nós. Não havia como negar que os jardins tinham se tornado o nosso cantinho. Íamos para lá quase sempre que podíamos estar a sós; tão diferente da maneira como Nicholas e eu costumávamos passar o tempo juntos: entocados na
minúscula casa da árvore no meu quintal dos fundos, o único lugar em que estávamos seguros. De repente, comecei a imaginar se Nicholas estava por ali, entre os muitos guardas do palácio, observando Joseph segurar minha mão.
— O que é isso? — perguntou o príncipe, acariciando as pontas dos meus dedos enquanto caminhávamos.
— Calos. São de apertar as cordas do violino todos os dias durante quatro horas.
— Nunca tinha reparado nisso.
— Eles são um problema para você?
Dentre as seis garotas restantes, eu era a de casta mais baixa e duvidava que qualquer uma das outras tivesse mãos como as minhas. Joseph parou e levou minha mão até sua boca para beijar as pontas pequenas e ásperas dos meus dedos.
— Pelo contrário. Acho bonito.
Senti minhas bochechas corarem. Ele continuou:
— Eu vi muito pelo mundo. Admito: quase sempre por trás de um vidro à prova de balas ou da torre de algum castelo antigo. Mas vi. E tenho à disposição a resposta para milhares de perguntas. Mas esta mãozinha aqui? — ele olhou fundo nos meus olhos. — Esta mão produz sons que não se
comparam a nada que eu já tenha ouvido. Às vezes, penso que a visão de você tocando violino foi apenas um sonho. Aquilo foi tão lindo. E os calos são a prova de que foi real.
Havia momentos em que ele falava comigo de uma maneira impressionante, romântica demais para acreditar. E apesar de eu guardar aquelas palavras no meu coração, nunca tinha certeza se podia confiar plenamente nelas. Como saber que ele não dizia o mesmo para as outras? Era hora de eu mudar de assunto.
— Você tem respostas para milhares de perguntas, mesmo?
— Com certeza. Me pergunte sobre qualquer coisa. Se eu não souber a resposta, saberei onde encontrar.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa.
Era difícil tirar uma pergunta do nada, ainda mais uma para deixá-lo pasmo, que era a minha intenção. Pensei por uns instantes nas coisas que me deixavam mais curiosa na infância: por que os aviões voavam, como eram os Estados Unidos, como funcionavam os aparelhos de som que as pessoas das castas superiores tinham.
E então veio a luz:
— O que é “Halloween”? — perguntei.
— Halloween?
Ele claramente nunca tinha ouvido falar disso. Não fiquei surpresa. Só vi a palavra uma vez em um livro de história velho dos meus pais. Algumas páginas daquele livro estavam ilegíveis de tão gastas, e muitas delas rasgadas ou arrancadas. Ainda assim, sempre me fascinou aquele feriado sobre o qual nada sabíamos.
— Vossa Esperteza Real não parece tão seguro de si agora... — provoquei. Ele me olhou com uma cara feia, mas estava claro que apenas fingia um incômodo. Ele checou as horas e respirou fundo.
— Me acompanhe. Temos que nos apressar — disse ele antes de agarrar meu braço e começar a correr.
Tropecei um pouco nos saltinhos do sapato, mas não fiz feio e mantive a passada enquanto Joseph me levava de volta ao palácio com um sorriso de orelha a orelha. Eu adorava quando ele liberava seu lado mais descontraído; muitas vezes, ele era sério demais.
— Cavalheiros — saudou ao passarmos pela porta onde estavam os guardas.
Consegui chegar até a metade da sala, e então meus sapatos me venceram.
— Joseph, pare! — arfei. — Eu não aguento mais!
— Vamos, vamos! Você vai adorar — ele replicou e puxou meu braço quando eu diminuí o ritmo.
Ele acabou desacelerando um pouco para me acompanhar, mas era claro que estava louco para ir mais rápido. Seguimos em direção ao corredor norte, próximo da área onde filmavam o Jornal Oficial de Illéa, mas nos embrenhamos por uma escadaria antes de chegarmos até lá. Subimos e subimos, e eu já não conseguia conter minha curiosidade.
— Aonde vamos exatamente? Joseph me encarou, seu rosto de repente ficou sério.
— Você precisa jurar que nunca vai mostrar este quartinho a ninguém. Apenas alguns membros da família e um punhado de guardas sabem que ele existe.
Eu estava mais do que intrigada.
— Juro.
Chegamos ao topo da escadaria. Joseph abriu a porta para mim, pegou minha mão e me conduziu pelo corredor até pararmos em frente a uma parede quase totalmente coberta com pinturas magníficas. O príncipe olhou para trás, para se certificar de que ninguém estava lá. Em seguida, passou a mão pela moldura do último quadro. Ouvi um clique e o quadro se abriu diante de nossos olhos.
Meu queixo caiu. Joseph sorria. Por trás da pintura havia uma porta um pouco acima do nível do chão que possuía um pequeno teclado numérico, como o de um telefone. Joseph digitou uns números e ouvimos um leve bip. O príncipe girou a maçaneta e olhou para mim.
— Vou ajudá-la. O degrau é bem alto.
Ele me deu a mão e fez um gesto para que eu entrasse primeiro. Fiquei chocada. A sala sem janelas estava repleta de estantes carregadas com o que pareciam ser livros antigos. Duas delas continham livros com uma fita vermelha na lombada. Também vi um atlas gigantesco recostado contra uma das paredes, aberto em uma página com o desenho de um país cujo nome eu não sabia. Sobre uma mesa no meio da sala, havia um punhado de livros que pareciam ter sido manuseados fazia pouco tempo e que ali permaneciam para facilitar uma consulta rápida. Por fim, uma tela grande que parecia ser um televisor estava embutida na parede.
— O que significam as fitas vermelhas?
— São os livros proibidos. Pelo que sabemos, são as únicas cópias remanescentes em toda Illéa.
Virei-me para ele, indagando com os olhos o que não tinha coragem de pedir em voz alta.
— Sim, você pode olhá-los — falou Joseph com um tom de voz que sugeria certo incômodo, mas ao mesmo tempo com uma expressão de quem esperava por esse pedido.
Puxei com cuidado um dos livros, com medo de destruir sem querer aquele tesouro. Folheei as páginas, mas me afastei quase na mesma hora. Estava simplesmente impressionada demais. Dei meia-volta e deparei com Joseph digitando em uma espécie de máquina de escrever ligada a uma tela de TV.
— O que é isso? — perguntei.
— Um computador. Você nunca viu?
Fiz que não com a cabeça e Joseph continuou, sem parecer surpreso:
— São poucos os que têm um desses hoje em dia. Este aqui serve exclusivamente para a informação contida nesta sala. Se existir algo sobre o Halloween, ele vai nos dizer onde encontrar.
Eu não entendia muito bem suas palavras, mas não pedi para explicar melhor. Em poucos segundos, sua caça apresentou uma lista com três tópicos na tela.
— Ah, ótimo! — exclamou. — Espere bem aqui.
Permaneci ao lado da mesa enquanto Joseph pegava os três livros que revelariam o que era o Halloween. Eu esperava que não fosse uma coisa idiota e que eu não lhe tivesse dado tanto trabalho por nada. O primeiro livro definia o Halloween como uma festa celta para marcar o fim do verão. Para não nos atrasar, nem me preocupei em mencionar que não fazia ideia do que era um celta. O livro dizia que eles acreditavam que os espíritos entravam e saíam do mundo no Halloween, e as pessoas usavam máscaras para afastar os espíritos maus. Mais tarde, ele teria se transformado num feriado laico, mais voltado para as crianças. Elas vestiam fantasias e circulavam pela cidade cantando a fim de ganhar doces. Daí surgiu a frase “gostosuras ou travessuras”, já que se não ganhassem gostosuras pregariam uma peça no dono da casa. A definição do segundo livro era similar, só que mencionava abóboras e cristianismo.
— Este vai ser o mais interessante — afirmou Joseph, folheando um livro manuscrito muito mais fino que os outros.
— E por quê? — perguntei, enquanto mudava de lado para ver melhor.
— Isto, senhorita Demetria, é um dos volumes do diário pessoal de Gregory Illéa.
— O quê?! — exclamei. — Posso tocá-lo?
— Antes, deixe-me encontrar a página que buscamos. Veja, tem até uma foto!
Ali, como uma aparição, uma imagem de um passado desconhecido mostrava Gregory Illéa com uma expressão fechada, de paletó engomado e ar imponente. Era estranho o quanto eu podia notar do rei e de Joseph na maneira como ele se portava. Ao seu lado, uma mulher sorria desanimada para a câmera. Algo em seu rosto sugeria que, no passado, ela fora uma pessoa encantadora, mas o desejo de viver tinha abandonado seus olhos. Ela parecia cansada. Ao redor do casal havia três pessoas. A primeira era uma adolescente, linda e vibrante, com um sorriso rasgado, uma coroa e um vestido de pregas. Que engraçado! Estava vestida como uma princesa. As outras duas pessoas eram garotos, o primeiro um pouco mais alto que o segundo e ambos fantasiados de personagens que não reconheci. Pareciam a ponto de aprontar alguma. Sob a imagem, havia um registro que — por incrível que pareça — saíra do próprio punho de Gregory Illéa.
— Você acha que é por isso que não comemoramos mais? Por ser um desperdício? — perguntei.
— Pode ser. Se a data servir de pista, esse relato foi feito logo depois que o Estado Americano da China começou a contra-atacar, um pouco antes da Quarta Guerra Mundial. Na época, a maioria das pessoas não tinha nada. Imagine uma nação inteira de Setes com um ou outro Dois.
— Uau.
Tentei imaginar o panorama de nosso país assim, despedaçado pela guerra, lutando para juntar os pedaços. Incrível.
— Quantos diários como este ainda existem?
Joseph apontou para uma prateleira com uma fileira de cadernos parecidos com o que tínhamos em mãos.
— Mais ou menos uma dúzia.
Eu não conseguia acreditar! Toda aquela história em apenas uma sala.
— Obrigada — disse eu. — Isto aqui é algo que nunca sequer sonhei em ver. Não dá para acreditar que tudo isso é real.
Joseph estava radiante.
— Você gostaria de ler o resto? — ele perguntou, olhando para o diário.
— Sim, claro! — praticamente gritei. Só que me lembrei de meus deveres. — Mas não posso ficar aqui. Preciso terminar de estudar aquele relatório terrível. E você precisa voltar ao trabalho.
— Verdade. Bem, e que tal isto? Você pode levar o livro e ficar com ele por uns dias.
— Tenho autorização para fazer isso? — perguntei, maravilhada.
— Não — replicou Joseph com um sorriso.
Hesitei, com medo do que tinha em mãos. E se eu o perdesse? E se o estragasse? Com certeza, Joseph pensava o mesmo. Mas eu nunca teria outra chance como essa. Eu podia ser cuidadosa o bastante com um presente tão grande como aquele.
— Tudo bem. Apenas por uma ou duas noites. Depois devolvo direitinho.
— Esconda bem.
Foi o que fiz. Aquilo era mais que um livro; era a confiança de Joseph. Meti-o dentro da banqueta do piano, debaixo de uma pilha de partituras — era um lugar que as criadas nunca limpavam. As únicas mãos a tocá-lo seriam as minhas.
Suspirei e me larguei na cadeira, jogando a cabeça para trás.
— Anne — chamei.
— Sim, senhorita? — respondeu a chefe das criadas, que costurava no canto do quarto. Eu não precisava olhar para saber que Mary e Lucy, minhas duas outras criadas, ficaram a postos, para poderem me atender também.
— Ordeno que descubra o significado deste relatório — disse eu, estendendo preguiçosamente o braço na direção daquelas estatísticas militares sobre a mesa.
Era um teste para todas as meninas da Elite, mas eu não conseguia me concentrar. As três criadas riram, provavelmente tanto por causa da minha ordem ridícula quanto pelo fato de eu ter finalmente ordenado algo. A liderança realmente não era um dos meus pontos fortes.
— Sinto muito, senhorita, mas penso que isso ultrapassa meus limites — respondeu Anne. Apesar de meu pedido ter sido de brincadeira, assim como a resposta dela, notei um verdadeiro tom de desculpas em sua voz.
— O.k. — lamentei, endireitando-me.
— Terei mesmo que fazer isso sozinha. Vocês são um bando de inúteis. Amanhã pedirei novas criadas. Desta vez é sério.
Todas caíram na gargalhada mais uma vez, e eu voltei a focar nos números. Comecei a desconfiar de que aquele relatório era falso, mas não tinha certeza. Reli os parágrafos e tabelas franzindo a testa e mordendo a tampa da caneta enquanto tentava me concentrar. Ouvi Lucy rir baixo e levantei os olhos para ver o que a divertia. Segui seu olhar até a porta: lá estava Joseph, encostado no batente.
— Você me entregou! — ele reclamou com Lucy, que ainda ria.
Afastei a cadeira com pressa e corri para os braços dele.
— Você leu meus pensamentos!
— Li?
— Por favor, diga que podemos ir lá fora. Só um pouquinho?
Joseph sorriu.
— Tenho vinte minutos e depois tenho que voltar.
O arrastei pelo corredor. O matraquear empolgado das criadas desaparecia atrás de nós. Não havia como negar que os jardins tinham se tornado o nosso cantinho. Íamos para lá quase sempre que podíamos estar a sós; tão diferente da maneira como Nicholas e eu costumávamos passar o tempo juntos: entocados na
minúscula casa da árvore no meu quintal dos fundos, o único lugar em que estávamos seguros. De repente, comecei a imaginar se Nicholas estava por ali, entre os muitos guardas do palácio, observando Joseph segurar minha mão.
— O que é isso? — perguntou o príncipe, acariciando as pontas dos meus dedos enquanto caminhávamos.
— Calos. São de apertar as cordas do violino todos os dias durante quatro horas.
— Nunca tinha reparado nisso.
— Eles são um problema para você?
Dentre as seis garotas restantes, eu era a de casta mais baixa e duvidava que qualquer uma das outras tivesse mãos como as minhas. Joseph parou e levou minha mão até sua boca para beijar as pontas pequenas e ásperas dos meus dedos.
— Pelo contrário. Acho bonito.
Senti minhas bochechas corarem. Ele continuou:
— Eu vi muito pelo mundo. Admito: quase sempre por trás de um vidro à prova de balas ou da torre de algum castelo antigo. Mas vi. E tenho à disposição a resposta para milhares de perguntas. Mas esta mãozinha aqui? — ele olhou fundo nos meus olhos. — Esta mão produz sons que não se
comparam a nada que eu já tenha ouvido. Às vezes, penso que a visão de você tocando violino foi apenas um sonho. Aquilo foi tão lindo. E os calos são a prova de que foi real.
Havia momentos em que ele falava comigo de uma maneira impressionante, romântica demais para acreditar. E apesar de eu guardar aquelas palavras no meu coração, nunca tinha certeza se podia confiar plenamente nelas. Como saber que ele não dizia o mesmo para as outras? Era hora de eu mudar de assunto.
— Você tem respostas para milhares de perguntas, mesmo?
— Com certeza. Me pergunte sobre qualquer coisa. Se eu não souber a resposta, saberei onde encontrar.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa.
Era difícil tirar uma pergunta do nada, ainda mais uma para deixá-lo pasmo, que era a minha intenção. Pensei por uns instantes nas coisas que me deixavam mais curiosa na infância: por que os aviões voavam, como eram os Estados Unidos, como funcionavam os aparelhos de som que as pessoas das castas superiores tinham.
E então veio a luz:
— O que é “Halloween”? — perguntei.
— Halloween?
Ele claramente nunca tinha ouvido falar disso. Não fiquei surpresa. Só vi a palavra uma vez em um livro de história velho dos meus pais. Algumas páginas daquele livro estavam ilegíveis de tão gastas, e muitas delas rasgadas ou arrancadas. Ainda assim, sempre me fascinou aquele feriado sobre o qual nada sabíamos.
— Vossa Esperteza Real não parece tão seguro de si agora... — provoquei. Ele me olhou com uma cara feia, mas estava claro que apenas fingia um incômodo. Ele checou as horas e respirou fundo.
— Me acompanhe. Temos que nos apressar — disse ele antes de agarrar meu braço e começar a correr.
Tropecei um pouco nos saltinhos do sapato, mas não fiz feio e mantive a passada enquanto Joseph me levava de volta ao palácio com um sorriso de orelha a orelha. Eu adorava quando ele liberava seu lado mais descontraído; muitas vezes, ele era sério demais.
— Cavalheiros — saudou ao passarmos pela porta onde estavam os guardas.
Consegui chegar até a metade da sala, e então meus sapatos me venceram.
— Joseph, pare! — arfei. — Eu não aguento mais!
— Vamos, vamos! Você vai adorar — ele replicou e puxou meu braço quando eu diminuí o ritmo.
Ele acabou desacelerando um pouco para me acompanhar, mas era claro que estava louco para ir mais rápido. Seguimos em direção ao corredor norte, próximo da área onde filmavam o Jornal Oficial de Illéa, mas nos embrenhamos por uma escadaria antes de chegarmos até lá. Subimos e subimos, e eu já não conseguia conter minha curiosidade.
— Aonde vamos exatamente? Joseph me encarou, seu rosto de repente ficou sério.
— Você precisa jurar que nunca vai mostrar este quartinho a ninguém. Apenas alguns membros da família e um punhado de guardas sabem que ele existe.
Eu estava mais do que intrigada.
— Juro.
Chegamos ao topo da escadaria. Joseph abriu a porta para mim, pegou minha mão e me conduziu pelo corredor até pararmos em frente a uma parede quase totalmente coberta com pinturas magníficas. O príncipe olhou para trás, para se certificar de que ninguém estava lá. Em seguida, passou a mão pela moldura do último quadro. Ouvi um clique e o quadro se abriu diante de nossos olhos.
Meu queixo caiu. Joseph sorria. Por trás da pintura havia uma porta um pouco acima do nível do chão que possuía um pequeno teclado numérico, como o de um telefone. Joseph digitou uns números e ouvimos um leve bip. O príncipe girou a maçaneta e olhou para mim.
— Vou ajudá-la. O degrau é bem alto.
Ele me deu a mão e fez um gesto para que eu entrasse primeiro. Fiquei chocada. A sala sem janelas estava repleta de estantes carregadas com o que pareciam ser livros antigos. Duas delas continham livros com uma fita vermelha na lombada. Também vi um atlas gigantesco recostado contra uma das paredes, aberto em uma página com o desenho de um país cujo nome eu não sabia. Sobre uma mesa no meio da sala, havia um punhado de livros que pareciam ter sido manuseados fazia pouco tempo e que ali permaneciam para facilitar uma consulta rápida. Por fim, uma tela grande que parecia ser um televisor estava embutida na parede.
— O que significam as fitas vermelhas?
— São os livros proibidos. Pelo que sabemos, são as únicas cópias remanescentes em toda Illéa.
Virei-me para ele, indagando com os olhos o que não tinha coragem de pedir em voz alta.
— Sim, você pode olhá-los — falou Joseph com um tom de voz que sugeria certo incômodo, mas ao mesmo tempo com uma expressão de quem esperava por esse pedido.
Puxei com cuidado um dos livros, com medo de destruir sem querer aquele tesouro. Folheei as páginas, mas me afastei quase na mesma hora. Estava simplesmente impressionada demais. Dei meia-volta e deparei com Joseph digitando em uma espécie de máquina de escrever ligada a uma tela de TV.
— O que é isso? — perguntei.
— Um computador. Você nunca viu?
Fiz que não com a cabeça e Joseph continuou, sem parecer surpreso:
— São poucos os que têm um desses hoje em dia. Este aqui serve exclusivamente para a informação contida nesta sala. Se existir algo sobre o Halloween, ele vai nos dizer onde encontrar.
Eu não entendia muito bem suas palavras, mas não pedi para explicar melhor. Em poucos segundos, sua caça apresentou uma lista com três tópicos na tela.
— Ah, ótimo! — exclamou. — Espere bem aqui.
Permaneci ao lado da mesa enquanto Joseph pegava os três livros que revelariam o que era o Halloween. Eu esperava que não fosse uma coisa idiota e que eu não lhe tivesse dado tanto trabalho por nada. O primeiro livro definia o Halloween como uma festa celta para marcar o fim do verão. Para não nos atrasar, nem me preocupei em mencionar que não fazia ideia do que era um celta. O livro dizia que eles acreditavam que os espíritos entravam e saíam do mundo no Halloween, e as pessoas usavam máscaras para afastar os espíritos maus. Mais tarde, ele teria se transformado num feriado laico, mais voltado para as crianças. Elas vestiam fantasias e circulavam pela cidade cantando a fim de ganhar doces. Daí surgiu a frase “gostosuras ou travessuras”, já que se não ganhassem gostosuras pregariam uma peça no dono da casa. A definição do segundo livro era similar, só que mencionava abóboras e cristianismo.
— Este vai ser o mais interessante — afirmou Joseph, folheando um livro manuscrito muito mais fino que os outros.
— E por quê? — perguntei, enquanto mudava de lado para ver melhor.
— Isto, senhorita Demetria, é um dos volumes do diário pessoal de Gregory Illéa.
— O quê?! — exclamei. — Posso tocá-lo?
— Antes, deixe-me encontrar a página que buscamos. Veja, tem até uma foto!
Ali, como uma aparição, uma imagem de um passado desconhecido mostrava Gregory Illéa com uma expressão fechada, de paletó engomado e ar imponente. Era estranho o quanto eu podia notar do rei e de Joseph na maneira como ele se portava. Ao seu lado, uma mulher sorria desanimada para a câmera. Algo em seu rosto sugeria que, no passado, ela fora uma pessoa encantadora, mas o desejo de viver tinha abandonado seus olhos. Ela parecia cansada. Ao redor do casal havia três pessoas. A primeira era uma adolescente, linda e vibrante, com um sorriso rasgado, uma coroa e um vestido de pregas. Que engraçado! Estava vestida como uma princesa. As outras duas pessoas eram garotos, o primeiro um pouco mais alto que o segundo e ambos fantasiados de personagens que não reconheci. Pareciam a ponto de aprontar alguma. Sob a imagem, havia um registro que — por incrível que pareça — saíra do próprio punho de Gregory Illéa.
"As crianças comemoraram o Halloween deste ano com uma festa. Imagino que seja uma maneira de esquecer o que se passa ao redor, mas me parece frívolo. Somos uma das poucas famílias remanescentes com dinheiro suficiente para festejar, mas essa brincadeira de criança me parece um desperdício."
— Você acha que é por isso que não comemoramos mais? Por ser um desperdício? — perguntei.
— Pode ser. Se a data servir de pista, esse relato foi feito logo depois que o Estado Americano da China começou a contra-atacar, um pouco antes da Quarta Guerra Mundial. Na época, a maioria das pessoas não tinha nada. Imagine uma nação inteira de Setes com um ou outro Dois.
— Uau.
Tentei imaginar o panorama de nosso país assim, despedaçado pela guerra, lutando para juntar os pedaços. Incrível.
— Quantos diários como este ainda existem?
Joseph apontou para uma prateleira com uma fileira de cadernos parecidos com o que tínhamos em mãos.
— Mais ou menos uma dúzia.
Eu não conseguia acreditar! Toda aquela história em apenas uma sala.
— Obrigada — disse eu. — Isto aqui é algo que nunca sequer sonhei em ver. Não dá para acreditar que tudo isso é real.
Joseph estava radiante.
— Você gostaria de ler o resto? — ele perguntou, olhando para o diário.
— Sim, claro! — praticamente gritei. Só que me lembrei de meus deveres. — Mas não posso ficar aqui. Preciso terminar de estudar aquele relatório terrível. E você precisa voltar ao trabalho.
— Verdade. Bem, e que tal isto? Você pode levar o livro e ficar com ele por uns dias.
— Tenho autorização para fazer isso? — perguntei, maravilhada.
— Não — replicou Joseph com um sorriso.
Hesitei, com medo do que tinha em mãos. E se eu o perdesse? E se o estragasse? Com certeza, Joseph pensava o mesmo. Mas eu nunca teria outra chance como essa. Eu podia ser cuidadosa o bastante com um presente tão grande como aquele.
— Tudo bem. Apenas por uma ou duas noites. Depois devolvo direitinho.
— Esconda bem.
Foi o que fiz. Aquilo era mais que um livro; era a confiança de Joseph. Meti-o dentro da banqueta do piano, debaixo de uma pilha de partituras — era um lugar que as criadas nunca limpavam. As únicas mãos a tocá-lo seriam as minhas.
08/02/2014
Grupo no Facebook para Sweethearts!
Hey, Sweethearts!
Eu criei um grupo no facebook para postar coisas relacionada a fanfic tais como spoilers, musicas que me lembrem a fic e várias outras coisas. Se alguém quiser entrar basta comentar seu face aqui, que então eu irei adicionar vocês!.
Ahhhhhh! Ia esquecendo. Terça- Feira. Capítulo 3. Capitulo com altos picos de fofuras. Resumindo. Joseph e Demetria juntos.
Eu criei um grupo no facebook para postar coisas relacionada a fanfic tais como spoilers, musicas que me lembrem a fic e várias outras coisas. Se alguém quiser entrar basta comentar seu face aqui, que então eu irei adicionar vocês!.
Ahhhhhh! Ia esquecendo. Terça- Feira. Capítulo 3. Capitulo com altos picos de fofuras. Resumindo. Joseph e Demetria juntos.
06/02/2014
Capitulo 2
— NÃO, NÃO — respondeu a rainha Denise, rindo. — Tive apenas três madrinhas apesar de a mãe de Paul ter sugerido que eu tivesse mais. Só queria minhas irmãs e minha melhor amiga, que, por acaso, eu conheci durante a Seleção.
Estiquei o pescoço para olhar para Miley e fiquei feliz de ver que ela também me olhava. Antes de chegar ao palácio, eu tinha para mim que em uma competição com um prêmio tão grande não haveria como alguma das meninas ser simpática. Miley me acolheu logo que nos conhecemos. Desde então, sempre estamos juntas. Nunca brigamos, a não ser aquelas nossas pequenas discussões.
Umas semanas atrás, Miley comentou que talvez não quisesse ficar com Joseph. Quando a pressionei para explicar melhor aquilo, ela se fechou totalmente. Não estava brava comigo — isso eu sabia —, mas aqueles dias de silêncio me deixaram bem solitária.
— Quero sete madrinhas — disse Selena. — Quer dizer, se Joseph me escolher e tiver um supercasamento.
— Bom, eu não quero madrinhas — replicou Blanda. — Elas só servem para desviar a atenção dos outros. E como tudo vai ser televisionado, quero todos os olhares voltados para mim.
Aquilo me subiu o sangue. Eram raras as vezes que conseguíamos conversar com a rainha Denise, e lá estava Blanda: a praga que arruinava o momento.
— Eu gostaria de incorporar algumas tradições da minha cultura ao casamento — acrescentou Elise, com a voz calma. — As garotas da Nova Ásia usam vermelho na cerimônia, e o noivo precisa levar presentes para os amigos da noiva como agradecimento por deixarem-na se casar com ele.
— Me lembre de ir no seu casamento. Adoro presentes! — soltou Selena.
— Eu também! — exclamou Miley.
— Senhorita Demetria, você está tão calada — disse a rainha Denise. — O que deseja para o seu casamento?
Eu estava completamente despreparada para responder, minhas bochechas coraram. Só tinha imaginado um tipo de casamento na minha vida, e ele aconteceria no Posto de Serviços da província da Carolina depois de uma sessão de burocracia.
— Bem, só pensei no momento em que meu pai me entrega ao noivo. Sabe quando ele toma sua mão e põe na mão do seu futuro marido? É a única parte por que eu sempre quis passar de verdade. — Por mais embaraçoso que aquilo pudesse parecer, era a verdade.
— Mas todo mundo faz isso — reclamou Blanda. — Não é nem original.
Deveria ter ficado com raiva depois dessa provocação, mas dei de ombros:
— Quero ter certeza de que meu pai aprova totalmente a minha escolha no único momento realmente importante da minha vida.
— Que bonito — comentou Natalie enquanto bebia chá e olhava pela janela.
A rainha Denise soltou uma leve risada:
— Tenho certeza de que aprovará. Não importa quem seja.
Essa última frase foi dita repentinamente, como se a rainha tivesse percebido no meio da fala a sua sugestão de que Joseph seria o escolhido. Fiquei pensando se ela achava isso, se Joseph contara a ela sobre nós. Logo depois, o assunto do casamento morreu, e a rainha nos deixou para ir trabalhar em seu quarto. Blanda estacionou em frente àquele televisor enorme e as outras garotas começaram a jogar cartas.
— Foi divertido — disse Miley, enquanto nos sentávamos à mesa. — Acho que nunca tinha visto a rainha falar tanto. — Ela está começando a se empolgar, acho. — Eu não tinha comentado com ninguém o que a irmã da rainha Denise me dissera sobre as muitas tentativas frustradas da rainha de ter outro filho. Adele tinha previsto que a irmã seria mais carinhosa conosco assim que o grupo diminuísse, e acertou. — O.k., você tem que me contar: você não tem mesmo nenhum outro plano para o seu casamento ou apenas não queria revelar?
— Não tenho mesmo — assegurei. — É difícil para mim planejar um casamento tão grande, sabe? Sou uma Cinco.
Miley balançou a cabeça.
— Você era uma Cinco. Agora é Três.
— Certo — concordei, lembrando do meu novo rótulo.
Nasci em uma família de Cincos — artistas e músicos que geralmente ganhavam mal — e, embora odiasse o sistema de castas, gostava do que fazia para ganhar a vida. Era estranho pensar em mim como uma Três, imaginar uma carreira de professora ou escritora.
— Chega de estresse — falou Miley, como se pudesse ler meus pensamentos. — Você não precisa se preocupar com isso ainda. Eu estava a ponto de contrariá-la, quando fui interrompida por um grito de Blanda.
— Vai! — berrou, batendo o controle remoto no sofá antes de apontá-lo para a TV de novo. — Argh!
— É impressão minha ou ela está piorando? — cochichei com Miley.
Observamos Blanda bater no controle remoto de novo e de novo até desistir e mudar de canal manualmente. Comecei a achar que, se eu tivesse nascido uma Dois, aí sim teria com que me preocupar.
— Acho que é estresse — Miley comentou. — Você notou como Natalie tem estado, sei lá... mais distante?
Fiz que sim com a cabeça, e olhamos para as três meninas jogando cartas. Selena sorria ao embaralhar as cartas, enquanto Natalie examinava as pontas de seu cabelo e de vez em quando arrancava um fio. Ela tinha um ar distraído.
— Acho que todas nós estamos sentindo isso — confessei. — Ficou mais difícil relaxar e curtir o palácio agora que o grupo é tão pequeno. Blanda resmungou algo e nos viramos para olhá-la, mas logo voltamos à posição inicial quando ela nos pegou espiando.
— Licença — disse Miley, mudando de lugar. — Acho que vou ao banheiro.
— Pensei na mesma coisa. Vamos juntas? — propus. Com um sorriso, ela balançou a cabeça para negar. — Vai na frente. Vou terminar o chá primeiro.
— Tudo bem. Já volto.
Saí do Salão das Mulheres, caminhando devagar por aquele corredor magnífico. Eu duvidava que algum dia chegaria a me acostumar com o espetáculo que era aquele castelo. Estava tão distraída que, ao dobrar uma esquina, trombei com um guarda.
— Ops! — exclamei.
— Perdão, senhorita. Espero não tê-la assustado.
Ele me segurou pelos cotovelos para que eu recuperasse o equilíbrio.
— Não — afirmei, rindo.
— Está tudo bem. Eu devia olhar melhor por onde ando. Obrigada por me segurar, soldado...
— Woodwork — completou, fazendo uma breve reverência com a cabeça.
— Eu sou Demetria.
— Eu sei.
Sorri e suspirei. É claro que ele sabia.
— Bom, espero que da próxima vez que nos trombarmos seja apenas no sentido figurado — brinquei.
— Positivo. Tenha um bom dia, senhorita — ele respondeu.
— Você também.
Voltei e contei a Miley sobre a minha trombada vergonhosa com o soldado Woodwork. Avisei a ela para olhar por onde anda. Ela soltou uma gargalhada. Passamos o resto da tarde sentadas perto das janelas, conversando sobre as nossas casas e as outras garotas e bebendo chá sob a luz do sol. Era triste pensar no futuro. Cedo ou tarde, a Seleção chegaria ao fim, e embora eu soubesse que Miley e eu continuaríamos próximas, sentiria falta de conversar com ela todos os dias. Ela foi a primeira amiga de verdade que fiz na vida e gostaria de tê-la sempre ao meu lado.
Enquanto eu tentava curtir aquele momento, Miley olhava pela janela com um ar sonhador. Tentei imaginar no que ela estaria pensando, mas estava tudo tão sereno que não quis perguntar.
Hello Sweethearts! Como estão?
Seis comentários no ultimo capitulo? Já falei como vocês são incriveis?
Perceberam que apareceu um personagem novo? O Soldado Woodwork? Duvido vocês adivinharem qual é o primeiro nome dele...
Estiquei o pescoço para olhar para Miley e fiquei feliz de ver que ela também me olhava. Antes de chegar ao palácio, eu tinha para mim que em uma competição com um prêmio tão grande não haveria como alguma das meninas ser simpática. Miley me acolheu logo que nos conhecemos. Desde então, sempre estamos juntas. Nunca brigamos, a não ser aquelas nossas pequenas discussões.
Umas semanas atrás, Miley comentou que talvez não quisesse ficar com Joseph. Quando a pressionei para explicar melhor aquilo, ela se fechou totalmente. Não estava brava comigo — isso eu sabia —, mas aqueles dias de silêncio me deixaram bem solitária.
— Quero sete madrinhas — disse Selena. — Quer dizer, se Joseph me escolher e tiver um supercasamento.
— Bom, eu não quero madrinhas — replicou Blanda. — Elas só servem para desviar a atenção dos outros. E como tudo vai ser televisionado, quero todos os olhares voltados para mim.
Aquilo me subiu o sangue. Eram raras as vezes que conseguíamos conversar com a rainha Denise, e lá estava Blanda: a praga que arruinava o momento.
— Eu gostaria de incorporar algumas tradições da minha cultura ao casamento — acrescentou Elise, com a voz calma. — As garotas da Nova Ásia usam vermelho na cerimônia, e o noivo precisa levar presentes para os amigos da noiva como agradecimento por deixarem-na se casar com ele.
— Me lembre de ir no seu casamento. Adoro presentes! — soltou Selena.
— Eu também! — exclamou Miley.
— Senhorita Demetria, você está tão calada — disse a rainha Denise. — O que deseja para o seu casamento?
Eu estava completamente despreparada para responder, minhas bochechas coraram. Só tinha imaginado um tipo de casamento na minha vida, e ele aconteceria no Posto de Serviços da província da Carolina depois de uma sessão de burocracia.
— Bem, só pensei no momento em que meu pai me entrega ao noivo. Sabe quando ele toma sua mão e põe na mão do seu futuro marido? É a única parte por que eu sempre quis passar de verdade. — Por mais embaraçoso que aquilo pudesse parecer, era a verdade.
— Mas todo mundo faz isso — reclamou Blanda. — Não é nem original.
Deveria ter ficado com raiva depois dessa provocação, mas dei de ombros:
— Quero ter certeza de que meu pai aprova totalmente a minha escolha no único momento realmente importante da minha vida.
— Que bonito — comentou Natalie enquanto bebia chá e olhava pela janela.
A rainha Denise soltou uma leve risada:
— Tenho certeza de que aprovará. Não importa quem seja.
Essa última frase foi dita repentinamente, como se a rainha tivesse percebido no meio da fala a sua sugestão de que Joseph seria o escolhido. Fiquei pensando se ela achava isso, se Joseph contara a ela sobre nós. Logo depois, o assunto do casamento morreu, e a rainha nos deixou para ir trabalhar em seu quarto. Blanda estacionou em frente àquele televisor enorme e as outras garotas começaram a jogar cartas.
— Foi divertido — disse Miley, enquanto nos sentávamos à mesa. — Acho que nunca tinha visto a rainha falar tanto. — Ela está começando a se empolgar, acho. — Eu não tinha comentado com ninguém o que a irmã da rainha Denise me dissera sobre as muitas tentativas frustradas da rainha de ter outro filho. Adele tinha previsto que a irmã seria mais carinhosa conosco assim que o grupo diminuísse, e acertou. — O.k., você tem que me contar: você não tem mesmo nenhum outro plano para o seu casamento ou apenas não queria revelar?
— Não tenho mesmo — assegurei. — É difícil para mim planejar um casamento tão grande, sabe? Sou uma Cinco.
Miley balançou a cabeça.
— Você era uma Cinco. Agora é Três.
— Certo — concordei, lembrando do meu novo rótulo.
Nasci em uma família de Cincos — artistas e músicos que geralmente ganhavam mal — e, embora odiasse o sistema de castas, gostava do que fazia para ganhar a vida. Era estranho pensar em mim como uma Três, imaginar uma carreira de professora ou escritora.
— Chega de estresse — falou Miley, como se pudesse ler meus pensamentos. — Você não precisa se preocupar com isso ainda. Eu estava a ponto de contrariá-la, quando fui interrompida por um grito de Blanda.
— Vai! — berrou, batendo o controle remoto no sofá antes de apontá-lo para a TV de novo. — Argh!
— É impressão minha ou ela está piorando? — cochichei com Miley.
Observamos Blanda bater no controle remoto de novo e de novo até desistir e mudar de canal manualmente. Comecei a achar que, se eu tivesse nascido uma Dois, aí sim teria com que me preocupar.
— Acho que é estresse — Miley comentou. — Você notou como Natalie tem estado, sei lá... mais distante?
Fiz que sim com a cabeça, e olhamos para as três meninas jogando cartas. Selena sorria ao embaralhar as cartas, enquanto Natalie examinava as pontas de seu cabelo e de vez em quando arrancava um fio. Ela tinha um ar distraído.
— Acho que todas nós estamos sentindo isso — confessei. — Ficou mais difícil relaxar e curtir o palácio agora que o grupo é tão pequeno. Blanda resmungou algo e nos viramos para olhá-la, mas logo voltamos à posição inicial quando ela nos pegou espiando.
— Licença — disse Miley, mudando de lugar. — Acho que vou ao banheiro.
— Pensei na mesma coisa. Vamos juntas? — propus. Com um sorriso, ela balançou a cabeça para negar. — Vai na frente. Vou terminar o chá primeiro.
— Tudo bem. Já volto.
Saí do Salão das Mulheres, caminhando devagar por aquele corredor magnífico. Eu duvidava que algum dia chegaria a me acostumar com o espetáculo que era aquele castelo. Estava tão distraída que, ao dobrar uma esquina, trombei com um guarda.
— Ops! — exclamei.
— Perdão, senhorita. Espero não tê-la assustado.
Ele me segurou pelos cotovelos para que eu recuperasse o equilíbrio.
— Não — afirmei, rindo.
— Está tudo bem. Eu devia olhar melhor por onde ando. Obrigada por me segurar, soldado...
— Woodwork — completou, fazendo uma breve reverência com a cabeça.
— Eu sou Demetria.
— Eu sei.
Sorri e suspirei. É claro que ele sabia.
— Bom, espero que da próxima vez que nos trombarmos seja apenas no sentido figurado — brinquei.
— Positivo. Tenha um bom dia, senhorita — ele respondeu.
— Você também.
Voltei e contei a Miley sobre a minha trombada vergonhosa com o soldado Woodwork. Avisei a ela para olhar por onde anda. Ela soltou uma gargalhada. Passamos o resto da tarde sentadas perto das janelas, conversando sobre as nossas casas e as outras garotas e bebendo chá sob a luz do sol. Era triste pensar no futuro. Cedo ou tarde, a Seleção chegaria ao fim, e embora eu soubesse que Miley e eu continuaríamos próximas, sentiria falta de conversar com ela todos os dias. Ela foi a primeira amiga de verdade que fiz na vida e gostaria de tê-la sempre ao meu lado.
Enquanto eu tentava curtir aquele momento, Miley olhava pela janela com um ar sonhador. Tentei imaginar no que ela estaria pensando, mas estava tudo tão sereno que não quis perguntar.
Hello Sweethearts! Como estão?
Seis comentários no ultimo capitulo? Já falei como vocês são incriveis?
Perceberam que apareceu um personagem novo? O Soldado Woodwork? Duvido vocês adivinharem qual é o primeiro nome dele...
04/02/2014
Capitulo 1
A atmosfera de Angeles estava tranquila. Permaneci imóvel por uns instantes, ouvindo o som da respiração de Joseph. Estava cada vez mais difícil encontrá-lo em um momento calmo e feliz de verdade. Aproveitei aquela ocasião ao máximo, agradecendo por ele estar, aparentemente, em sua melhor forma enquanto estávamos a sós.
Desde que a Seleção conta com só seis garotas, ele tem estado mais ansioso que no começo, quando as trinta e cinco chegaram de uma vez. Imaginei que talvez ele tivesse pensado que teria mais tempo para fazer suas escolhas. E devo reconhecer, apesar de me sentir culpada, que era por minha causa que ele tinha esse desejo.
Príncipe Joseph, herdeiro do trono de Illéa, gostava de mim. Ele me falou na semana passada que se eu dissesse, sem nenhuma ressalva, que me importava com ele assim como ele se preocupava comigo, toda essa história de competição estaria acabada. Eu até considerava essa ideia, ficava imaginando como seria pertencer a Joseph.
Mas o problema é: Joseph não me pertencia, para começo de conversa. Havia mais outras cinco meninas comigo — meninas com quem ele saía e cochichava coisas —, e eu não sabia o que pensar disso. E também havia o fato de que aceitar Joseph significava ter que aceitar uma coroa, uma ideia que eu tendia a ignorar, até por não saber ao certo como isso me afetaria...
E, claro, havia Nicholas.
Tecnicamente, ele não era mais o meu namorado — terminou comigo antes de o meu nome ser sorteado para a Seleção —, mas quando surgiu no palácio como um dos guardas, todos os sentimentos que eu tinha tentado deixar para trás encheram meu coração. Nicholas era meu primeiro amor. Bastava olhar para ele para saber... que eu era dele.
Joseph não sabia que Nicholas estava no palácio, mas sabia bem que havia alguém da minha província que eu desejava esquecer, e estava, muito gentilmente, dando-me tempo para superar a situação enquanto tentava encontrar outra pessoa
com quem ele pudesse ser feliz, caso eu nunca fosse capaz de amá-lo.
com quem ele pudesse ser feliz, caso eu nunca fosse capaz de amá-lo.
Conforme ele mexia a cabeça devagar, respirando sobre meus cabelos, eu pensava: como seria se eu simplesmente amasse Joseph?
— Sabe quando foi a última vez que olhei de verdade para as estrelas? — perguntou ele.
Estávamos deitados sobre uma toalha no jardim. Aconcheguei-me mais para o lado dele, tentando me manter aquecida naquela noite fria de Angeles.
— Não faço ideia.
— Um tutor me fez estudar astronomia há alguns anos. Quando vemos as estrelas mais de perto, percebemos que na verdade elas têm cores diferentes.
— Calma lá. A última vez que você olhou para as estrelas foi para estudá-las? E a diversão?
Joseph riu.
— Diversão. Vou ter que espremê-la entre as votações do orçamento e as reuniões do comitê de infraestrutura. Ah, e a definição das estratégias militares, no que, aliás, eu sou péssimo.
— E no que mais você é péssimo? — perguntei, passando a mão em sua camisa engomada.
Meu carinho encorajou Joseph a mudar de posição e fazer pequenos círculos em meu ombro.
— Por que quer saber isso? — perguntou, fingindo irritação.
— Porque ainda sei tão pouco sobre você. E você parece ser perfeito em tudo. É bom ter uma prova do contrário.
Ele se apoiou sobre um cotovelo e fixou os olhos no meu rosto:
— Você sabe que não sou.
— Mas está quase lá — respondi.
Nossos corpos se tocavam de leve. Joelhos, braços, dedos. Joseph balançou a cabeça com um sorriso nos lábios.
— O.k., o.k. Não consigo planejar guerras. Sou péssimo nisso. E acho que seria um cozinheiro horrível. Nunca cozinhei, logo...
— Nunca?
— Talvez você já tenha notado a multidão de pessoas que trabalham para manter a sua barriga cheia de bolos e doces... Por acaso, são eles que me alimentam também.
Achei graça. Em casa, eu ajudava a preparar praticamente todas as refeições.
— Mais — pedi. — No que mais você é ruim?
Ele me abraçou forte, e pude ver um segredo brilhar em seus olhos castanhos.
— Descobri uma coisa recentemente...
— Conte.
— Descobri que sou um completo fracasso em ficar longe de você. Um problema muito grave.
Sorri.
— Você já tentou?
Joseph fingiu pensar.
— Bem, não. E não espere que eu vá começar.
Rimos baixo, abraçados. Era tão fácil, nesses momentos, me imaginar assim pelo resto da vida.
O farfalhar das folhas e da grama anunciava a chegada de alguém. Embora nossa situação fosse completamente aceitável, fiquei um pouco encabulada e me sentei rapidamente. Joseph fez o mesmo assim que o guarda contornou a cerca para chegar até nós.
— Alteza — disse, inclinando a cabeça. — Perdão pela intromissão, senhor, mas é imprudente permanecer do lado de fora por muito tempo a essa hora da noite. Os rebeldes podem...
— Compreendo — concordou Joseph, com um suspiro. — Já entraremos.
— Compreendo — concordou Joseph, com um suspiro. — Já entraremos.
O guarda nos deixou, e Joseph virou-se para mim.
— Outro defeito meu: estou perdendo a paciência com os rebeldes. Estou cansado de lidar com eles.
Joseph se levantou e me ofereceu a mão. Segurei a mão dele e reparei na frustração em seus olhos. Passamos por dois ataques de rebeldes desde o começo da Seleção: um dos nortistas, que eram apenas baderneiros, e outro dos sulistas, que eram assassinos. Mesmo com minha experiência mínima, eu podia compreender seu cansaço.
Joseph recolheu a toalha e começou a sacudi-la. Era claro que ele não estava feliz com aquele fim antecipado da noite.
— Ei — eu disse, fazendo-o olhar em meus olhos. — Eu me diverti. Ele concordou com a cabeça.
— É sério — continuei, me aproximando. Ele segurou a toalha com uma das mãos e passou o braço livre em volta da minha cintura. — Devíamos fazer isso outras vezes. Você podia me dizer quais são as cores de cada estrela, porque eu realmente não consigo ver diferença de uma para outra.
Joseph sorriu, triste.
— Gostaria que as coisas fossem mais fáceis às vezes. Normais.
Virei para ele e o abracei. Joseph soltou a toalha e retribuiu o gesto.
— Odeio ter que lhe revelar isso, Alteza, mas mesmo sem os guardas você está bem longe de ser normal.
Sua expressão ficou mais relaxada, mas ainda séria.
— Você iria gostar mais de mim se eu fosse normal — falou.
— Sei que é difícil para você acreditar, mas eu realmente gosto de você do jeito que você é. Só preciso de mais...
— Tempo. Eu sei. E estou pronto para dar o tempo necessário a você. Só gostaria de ter certeza de que você vai mesmo querer estar ao meu lado quando esse tempo acabar.
Desviei o olhar. Aquilo eu não podia prometer. Toda hora, eu olhava para o meu coração e comparava Joseph e Nicholas, mas nenhum deles se sobressaía. A não ser, talvez, quando eu estava sozinha com um deles. Neste exato momento, por exemplo, eu estava tentada a prometer a Joseph que ficaria a seu lado no final.
Mas eu não podia.
— Joseph — sussurrei, após notar que ele estava se sentindo rejeitado por eu não ter respondido. — Não posso dizer isso. Mas o que posso dizer é que quero estar com você. Quero saber se há possibilidade de... de... — gaguejei, sem saber ao certo como me expressar.
— Nós? — Joseph sugeriu.
Sorri, feliz por ver como tinha sido fácil para ele me entender.
— Sim — prossegui.
— Quero saber se há a possibilidade de existir um “nós”.
Ele ajeitou meus cabelos para trás dos ombros
— Penso que as chances são bem altas — afirmou, sem rodeios.
— Também penso. Só... tempo, tudo bem?
Joseph fez que sim com a cabeça. Parecia mais feliz. Era assim que eu queria terminar nossa noite, com esperança. Bem, talvez com algo mais. Mordi os lábios e me virei para ele com olhos desejosos.
Sem hesitar nem um segundo, ele se inclinou e me beijou. Foi um beijo terno e suave, que me deixou com a sensação de ser adorada, e com vontade de outro. Eu poderia ter ficado ali por horas, só para ver se conseguia aplacar aquela sensação, mas Joseph recuou cedo demais.
— Vamos — disse ele em tom de brincadeira, enquanto me puxava para o palácio. — Melhor entrar antes de os guardas virem atrás de nós com cavalos e lanças.
Assim que Joseph me deixou nas escadas, o cansaço tomou conta de mim. Eu praticamente me arrastava até o segundo andar e ao canto onde estava meu quarto quando, de repente, fiquei totalmente desperta de novo.
— Ah! — disse Nicholas, também surpreso em me ver. — O fato de eu ter pensado que você estava no seu quarto esse tempo todo provavelmente faz de mim o pior guarda do mundo.
Sorri.
As garotas da Elite eram obrigadas a dormir com pelo menos uma de suas criadas no quarto. Eu não gostava muito da ideia, de modo que Joseph insistiu em manter um guarda de vigia à minha porta para o caso de uma emergência. O problema era que, na maioria das vezes, esse guarda era Nicholas. Saber que quase todas as noites ele estaria bem ali na minha porta me dava uma sensação estranha de alegria misturada com terror.
Aquela tranquilidade momentânea logo desvaneceu quando Nicholas se deu conta de por que eu não estava sã e salva enrolada nos cobertores. Ele limpou a garganta, tenso:
— Vocês se divertiram?
— Nicholas — cochichei, olhando em volta para ter certeza de que ninguém estava perto —, não fique bravo. Faço parte da Seleção e as coisas são assim.
— E como eu vou ter chance desse jeito, Demi? Como posso competir com ele se você raramente fala com os guardas como eu?
Fazia sentido, mas o que eu podia fazer?
— Por favor, não se irrite comigo, Nicholas. Estou tentando resolver tudo isso.
— Não, Demi — ele disse, retomando a voz terna de antes. — Não estou irritado com você. Eu tenho saudade de você.
Ele não ousou pronunciar as palavras, mas seus lábios se mexeram: “eu te amo”.
Me derreti.
— Eu sei — respondi, pondo a mão em seu peito e me permitindo esquecer por um instante tudo o que estávamos arriscando ali. — Só que isso não muda o lugar onde estamos nem o fato de eu ser da Elite agora. Preciso de tempo, Nicholas. Ele ergueu a mão até a minha e assentiu com a cabeça.
— Isso eu posso dar. Só... tente encontrar um tempo para mim também.
Eu não queria começar a explicar como isso seria difícil. Apenas abri um sorrisinho antes de recolher a mão.
— Preciso ir.
Ele me observou caminhar até o quarto e fechar a porta.
Tempo. Eu vinha pedindo muito tempo ultimamente. Tinha a esperança de que, se tivesse tempo suficiente, tudo ia se resolver.
03/02/2014
Sinopse da 2ª Temporada - A Elite + Resposta para Mariane
Não se sentia capaz de ser princesa
Não queria abandonar Nicholas
Não sabia o que fazer
A Seleção começou com 35 garotas. Agora, restam apenas seis e a competição para ganhar o coração do príncipe Joseph está acirrada como nunca. Quanto mais Demetria se aproxima da coroa, mais se sente confusa. Os momentos que passa com Joseph parecem conto de fadas. Mas sempre que vê seu ex-namorado Nicholas no palácio, trabalhando como guarda e se esforçando para protegê-la, ela sente que é nele que está o seu conforto. Demetria precisa de mais tempo. Mas, enquanto ela está às voltas com o seu futuro, perdida em sua indecisão, o resto da Elite sabe exatamente o que quer-e ela está prestes a perder sua chance de escolher.
Hey Selecionadas, Príncipes e Guardas!
A linda da Mari me perguntou qual é o nome da musica que toca quando o blog é aberto, então eu vou responder.
A musica se chama All About Us e quem canta e a banda He Is We juntamente com o Owl City. Essa musica é perfeita para essa temporada no que se trata da Demetria e do Joseph.
De repente, eu me sinto corajoso
Não sei o que deu em mim
Por que me sinto assim
Podemos dançar devagar?
Posso te segurar
Posso te segurar pertinho de mim?
O ambiente está em silêncio
E agora é o nosso momento
Entre no clima, sinta e fique firme
Olhos em você, olhos em mim
Estamos indo certo
Pois amantes dançam quando estão apaixonados
Holofote brilhando, somos só nós
Somos oh, oh, oh, oh, só nós uh, uh, uh, uh, nós
E todo coração no lugar vai derreter
Essa é uma sensação que eu nunca tive, mas
Somos oh, oh, oh, oh, só nós
Para quem se interessa, o nome da musica do player antigo é Starlight da Taylor Swift.
Bem, é só isso.
Próximo post é o primeiro capitulo de A Elite. Isso é uma promessa.
02/02/2014
Nova temporada, novo Lay ^.^ + Mega Divulgação
Eu voltei Queridas (e Queridos)!
A Elite chegou mas antes de começar, eu coloquei um novo lay para marcar a nova fase na história. O que acharam dele? A opinião de vocês é muito importante.
E antes do primeiro capitulo, eu vou fazer um post contendo uma mega divulgação então se vocês quiserem participar, basta comentar seu blog nesse post que ele estará na lista!
Bem, é só isso! amanhã, vocês terão a sinopse.
Senti saudade de vocês!
A Elite chegou mas antes de começar, eu coloquei um novo lay para marcar a nova fase na história. O que acharam dele? A opinião de vocês é muito importante.
E antes do primeiro capitulo, eu vou fazer um post contendo uma mega divulgação então se vocês quiserem participar, basta comentar seu blog nesse post que ele estará na lista!
Bem, é só isso! amanhã, vocês terão a sinopse.
Senti saudade de vocês!
20/01/2014
The Elite está chegando mas antes um pequeno Hiatus!
Provavelmente ao ler o titulo desse post, um pedaço do seu coração foi arrancado...
Mas fiquem calmas queridas Selecionadas! Dia 1º de Fevereiro a Sinopse de The Elite ( AElite para os leigos) estará aqui no blog.
Alias eu só não começo ela agora pois estou viajando com a minha família e só volto no fim de janeiro.
Então Queridas....
Mas fiquem calmas queridas Selecionadas! Dia 1º de Fevereiro a Sinopse de The Elite ( AElite para os leigos) estará aqui no blog.
Alias eu só não começo ela agora pois estou viajando com a minha família e só volto no fim de janeiro.
Então Queridas....
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